Arquivo da Categoria: convidados

“As passadas dele ainda estão quentes”

Todos nós sabemos que o novo director do CCB, António Lamas, se apressou a repor o AO90 nos seus serviços, sem a mínima consideração pela corajosa atitude de Vasco Graça Moura. Também sabemos que o director do CNC, Guilherme de Oliveira Martins, é um entusiasta do AO90, por incrível que possa parecer. Sei que há textos de VGM que estão a ser publicados em ‘acordês’… Enfim, tudo isto reflecte o grau de abjecção a que este desgraçado país desceu: para usar uma deliciosa expressão que ouvi em tempos a um emigrante, em Paris, “as passadas de VGM ainda estão quentes” e já se procura varrer de vez a poderosa marca da sua intervenção constante, perseverante e lúcida em defesa do Português e contra o famigerado AO90!

Mas ‘é a hora’, não podemos deixá-los manipular a opinião pública de acordo com os seus camuflados interesses…

Maria José Abranches

Não estão à altura

Lemos e ouvimos que hoje, 17 de Maio de 2015, numa iniciativa conjunta, o Centro Nacional de Cultura (CNC) e o Centro Cultural de Belém (CCB) pretendem homenagear Vasco Graça Moura, que ocupou o cargo de director do CCB até ao dia 27 de Abril de 2014, data da sua morte, tendo tomado em Fevereiro de 2012 a corajosa decisão de não cumprir o acordo ortográfico de 90 na instituição que dirigia, argumentando que o mesmo, pelo facto de Angola e Moçambique não terem ratificado o acordo, não «estava nem podia estar em vigor».

Sabemos que homenagear Vasco Graça Moura implica lembrar forçosamente a obra que nos legou enquanto poeta e tradutor, numa sincera afeição e contínua homenagem à Língua Portuguesa que não pode dissociar-se da luta veemente que desencadeou contra a barbaridade do acordo ortográfico de 90 e que desenvolveu até aos seus últimos dias. Esse seu gesto de aturada resistência e de convicta desobediência marcou-nos e influenciou-nos profunda e beneficamente e será uma uma forma de o homenagear não esquecê-lo.

Numa mensagem que me dirigiu, a 13 de Janeiro de 2013, e que ouso tornar pública, porque o momento o exige, desabafava a propósito do AO: «Eu já estou exausto de tanto tratar do assunto…»

Porque sabemos que nem CNC nem CCB estarão à altura do gesto e do sacrifício de Vasco Graça Moura e do trabalho intenso por ele desenvolvido em prol da Língua Portuguesa, caber-nos-á continuar a sua luta, que é também a nossa, e sobre a qual tantas vezes nos fez reflectir, com a mesma resistência e desobediência que lhe conhecemos. Será uma verdadeira forma de o homenagearmos.

Com sinceridade e afeição!

Maria do Carmo Vieira

 

“Não assassinarei a Língua em que escrevo” [por Maria Oliveira]

Dever cívico

A aula decorria com normalidade. Havia quem ensaiasse e lesse em voz alta, quem resolvesse exercícios em silêncio, quem analisasse um “texto icónico”, neste caso, uma pintura. Tudo deslizava e, tal como nos países modelares a nível de ensino, havia várias tarefas a decorrer simultaneamente, com produtividade e afinco. Apesar do burburinho dos lugares onde algo se produz, o melhor dos mundos, no que à aprendizagem diz respeito.

Por não ser possível ter em pleno funcionamento o computador da mesa do professor e a projecção para a turma, optou-se por apresentar apenas o que, na tela, poderia ser visto por todos, sendo que um aluno lia os parâmetros de avaliação da leitura.

Devido a essa mancha de gordura xaroposa e suscitando asco que é o chamado “Acordo Ortográfico de 1990” no vestido de noiva que era a Língua Materna, o aluno leu algo que não estava lá. Apodreci. Pedi-lhe que repetisse, incrédula: em vez de “diCção” – e por mimese do que tem visto em todo o lado -, o rapaz leu “dição”. Leu, pois, algo que, literalmente, não estava escrito. Actuou por imitação, qual psitacídeo. A mim, doeu-me, porque vi mais um a incorrer na acefalia dos que, representando-o, o deveriam proteger mas em vez disso, o traíram.

Continuar a ler“Não assassinarei a Língua em que escrevo” [por Maria Oliveira]

A ‘co-adopção’ e as outras

Esse Acordo Ortográfico foi votado por unanimidade, nesta Câmara, em 1991 — aliás, privilégio que o Bloco de Esquerda não teve porque não existia à época.

Luís Fazenda

***

Neste preciso momento, estará a ser debatido, na Assembleia da República, um projecto de lei do Bloco de Esquerda sobre a eliminação da impossibilidade legal de adopção por casais do mesmo sexo. Na Exposição de Motivos, pode ler-se “debate promovido na sociedade e na Assembleia da República em torno do projeto [sic] de lei da co adoção [??]” e “o radicalismo da maioria de direita e as manobras que descambaram numa proposta infundada de referendo (…) visaram bloquear o processo legislativo em curso relativo à co adoção [??]”.

Isto é, quase dois anos depois da anómala ‘co-adoção’ – e apesar da coadoção –, o Bloco de Esquerda consegue matar dois coelhos de uma cajadada: conjuntamente com um projecto de lei sobre a eliminação da impossibilidade legal de adopção por casais do mesmo sexo, apresenta uma proposta de aditamento ao disposto no texto do Acordo Ortográfico de 1990.

Efectivamente, o deputado Luís Fazenda tinha razão: com estas ocorrências (‘co adoção’, ‘co-adoção’ e ‘coadoção’) ficamos “com três grafias”. É “absolutamente insustentável, não faz sentido nenhum, é de uma ilogicidade total”? A deputada Isabel Moreira pode escrever que “nada mudou desde o chumbo da co-adoção [?]“. Mudou para (muito) pior. Mas a culpa não é minha. É vossa. Assumam-na. E retractem-se. Com cê, sff.

Francisco Miguel Valada

A imagem de Portugal no estrangeiro ficou com aftas?

A SIC Notícias pergunta-nos: “A imagem de Portugal no estrangeiro ficou afetada[sic] depois do conhecimento público destes casos de justiça?”. Creio que a imagem de Portugal fica de facto bastante ‘afetada’ (ou mesmo *aftada), quando se percebe o estado actual da língua portuguesa escrita.

Se considerarmos padrões grafémicos afins – alfinetar → alfinetado(s)/a(s); fretar→ fretado(s)/a(s); decretar→ decretado(s)/a(s) – verificamos muito rapidamente que a presença da letra consonântica ‘c’, parte do grafema composto <EC>, em ‘afectar’ → afectado(s)/a(s); arquitectar → arquitectado(s)/a(s); detectar → detectado(s)/a(s), não serve para enfeitar determinadas palavras.

Admito que a presença de um ‘vêem’ num texto com ‘afetada’ e ‘direto’ apenas surpreenda quem leu, pelo menos uma vez na vida e com atenção, as 21 bases do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Também admito que a presença de um ‘vêem’ num texto com ‘afetada’ e ‘direto’ é muito mais subtil do que uma ‘reacção’ no título e ‘reação’ [sic] no corpo do texto, como acontece na chamada para esta intervenção de Luís Marques Mendes. As duas incongruências comprovam quer a falta de conhecimento acerca do preceituado no texto do AO90, quer o carácter inadequado da base IV do AO90 para a norma ortográfica do português europeu.

Continuar a lerA imagem de Portugal no estrangeiro ficou com aftas?

Sporting Clube de Portugal rejeita o AO90

A RTP, a SIC e a TVI são, desde há quase dois anos, centros difusores de iliteracia devido à sua conversão ao Acordo Ortográfico de 1990. Como que em «compensação», o Porto Canal, a Benfica TV e a Sporting TV continuam a fazer emissões em direCto e não em «direto».

Porém, o clube de Alvalade fez mais do que isso: conforme já aqui tínhamos dado notícia, na devida altura, este ano, durante o Congresso Leonino realizado em Junho, uma das 30 recomendações aprovadas – mais concretamente, a 12ª – teve como tema o «acordo ortográfico»……

E é este o seu enunciado:

«Propõe-se que, em toda a sua comunicação escrita, em papel, no sítio da Internet ou no novo canal televisivo do Clube, o Sporting Clube de Portugal continue a usar a ortografia portuguesa seguindo aquilo que se denomina de antigo acordo ortográfico».

É com expectativa que se aguarda que Futebol Clube do Porto e Sport Lisboa e Benfica formalizem, igualmente, as suas rejeições do AO90 que na prática já se verificam.

Frequentemente – e justificadamente – acusados de promoverem conflitos desnecessariamente, aos «três grandes» do futebol português, no entanto, deve ser reconhecido o seu compromisso e o seu contributo para com a língua – e a identidade, e a dignidade – portuguesa(s): os seus respectivos sítios na Internet estão todos em “português.pt” correCto.

Reconheça-se a ironia: entidades desportivas, das quais não é de esperar isenção, comportam-se com mais mérito do que estações de televisão supostamente «generalistas», e até de «serviço público», mas que, todavia, mais não são do que órgãos de propaganda – «ortográfica», e não só.

Octávio dos Santos

[Imagem de Wikipedia. Logo que possível, incluiremos mais esta entidade na nossa página “nAO”.]

Enriquecimento pela divergência [por Isabel Coutinho Monteiro]

Língua Portuguesa – enriquecimento pela divergência

 A propósito da tão falada e já estafada unificação da ortografia da Língua Portuguesa, é pertinente interrogarmo-nos até que ponto o sacrifício das culturas reflectidas nas duas principais normas da língua permite concretizar o alegado objectivo de unidade linguística nas organizações e fóruns internacionais. Todos os dias deparamos com o uso da expressão “pesquisa”, quando um cidadão brasileiro diz, por exemplo, “vou fazer uma pesquisa na Internet”, enquanto nós, portugueses, dizemos “vou fazer uma busca na Internet”. No Brasil, muitas universidades e empresas têm um departamento de “P&D” (Pesquisa e Desenvolvimento), homólogo da mesma realidade em Portugal – I&D (Investigação e Desenvolvimento). Se no primeiro caso não se coloca a questão da unidade linguística no plano internacional, já o segundo leva a pensar que, numa qualquer conferência internacional sobre determinada área científica, em que estejam presentes oradores de Portugal e do Brasil, essa unidade começa a estar comprometida. Ou talvez não. Alguém já ouviu dizer que tenha havido numa conferência internacional uma zaragata vergonhosa entre oradores dos dois países a propósito desta divergência terminológica? Eu não, e o mais provável é que nunca tenha acontecido. Os oradores dos dois lados do Atlântico aceitam quase sem darem por isso o termo divergente usado pelos seus homólogos do outro lado. E as conferências prosseguem sem grandes sobressaltos e com efusivas manifestações de agrado de ambas as partes. Continuando no plano internacional, supostamente, a Língua Portuguesa tende a desaparecer se não operar rapidamente a tal unificação da ortografia. Como explicar, então, que os dois países usem terminologias divergentes ao aderirem a resoluções e declarações de organismos internacionais, como a OIT, por exemplo, de que tanto Portugal como o Brasil são Estados-Membros e adoptaram a Agenda do Trabalho Digno, no primeiro caso, mas do Trabalho Decente, no segundo? Continuar a lerEnriquecimento pela divergência [por Isabel Coutinho Monteiro]

Iniciativa meritória, inédita, corajosa [por Octávio dos Santos]

A Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico tem como primeiro, e principal, mérito, o de constituir, de corporizar, a acção mais coerente e mais consistente de defesa da ortografia e da língua portuguesas. Porém, tem outros méritos quase tão importantes; como o de demonstrar a hipocrisia do sistema político nacional relativamente à (maior) participação dos cidadãos na «coisa pública».

Aqueles que perguntam incessantemente se a ILCAO já atingiu as 35 mil assinaturas deveriam, antes, e precisamente, questionar porque são necessárias 35 mil assinaturas para formalizar e validar esta – e qualquer outra – iniciativa legislativa de cidadãos. Em comparação com processos similares em outros países com populações maiores, 35 mil é um número excessivo e injustificado. No Brasil (cerca de 200 milhões de habitantes) foram suficientes 20 mil assinaturas numa normal petição para Dilma Rousseff adiar a aplicação do AO90 em três anos. Nos Estados Unidos da América (cerca de 300 milhões) a Casa Branca tem de responder obrigatoriamente a petições electrónicas que registem um mínimo de 100 mil assinaturas – antes eram 25 mil, e, antes, cinco mil! A conclusão inevitável é que, em Portugal, a tão propalada «democracia (quase) directa», e os instrumentos que a possibilita(ria)m, são administrados… de uma forma demasiado parcimoniosa, prepotente, tendenciosa, oportunista. Veja-se o referendo: de certeza que já poderia ter sido utilizado para mais do que deliberar sobre a (despenalização da) interrupção voluntária da gravidez e sobre a regionalização; a realização de uma consulta à população sobre a implementação de uma «nova ortografia» poderia e deveria ser uma opção óbvia… e o resultado final não deixaria de ser previsível: a rejeição. E é por isso mesmo que esse referendo não foi feito.

Outro mérito – e característica – fundamental da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico: é uma verdadeira iniciativa de cidadãos; não resulta de uma decisão, e não dispõe dos recursos, de entidades partidárias, patronais, sindicais, ou outras, mais habituadas e habilitadas a desenvolverem acções deste tipo. A ILCAO é um movimento inédito, pioneiro, em Portugal, que representa a genuína sociedade civil… e talvez seja por isso que nunca foi convidada a estar representada em qualquer emissão do programa «Sociedade Civil» da RTP2, onde já participaram vários apoiantes do AO90.

No entanto, e para desilusão dos adeptos da «novilíngua», nós existimos. E somos muitos. Neste tema falamos, que ninguém duvide, pela maioria em Portugal. Neste sítio e nesta ILC, somos uma amostra representativa, e mais activa, dessa maioria. E quem quiser… pode começar a contar-nos. Todos os nomes que estão aqui, todos os homens e mulheres que escreveram, escrevem e escreverão artigos, interpelações, mensagens, cartas e comentários, que colocam o sítio da ILCAO nos seus blogs e nas suas páginas de Facebook formam o primeiro contingente de defesa da identidade e da dignidade cultural de Portugal. Depois, pensem que para cada um deles há familiares, amigos, colegas, conhecidos, ou até desconhecidos, a quem já deram a folha para assinar, ou que indicaram como ela podia ser obtida e preenchida. E cada um desses familiares, amigos, colegas e conhecidos tem por sua vez outros familiares, amigos, colegas e conhecidos…

Enfim, a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico tem o mérito da coragem. Da vontade. Mais importante do que saber «quantos» somos… é saber «quem» somos! E sabemos. Somos aqueles que, cansados de diversos e de diferentes abusos perpetrados ao longo dos anos, e em relação aos quais talvez se tenham arrependido de não terem protestado (mais), resolveram, desta vez, traçar uma linha – que separa os inconformados dos conformados – e afirmar, definitivamente, «daqui não passa». Marcar uma posição. Se há qualidade – de carácter, de conhecimento, de convicção – haverá, mais tarde ou mais cedo, quantidade.

Octávio dos Santos

Chinesices, princípios e valores [por João Roque Dias]

CHINESICES, PRINCÍPIOS E VALORES (E TRAPAÇAS)

E porque é fundamental assinar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico

João Roque Dias, CT

8 de Abril de 2013

Avante, mesmo com imprecisões, erros e ambiguidades, dizem eles

Está para nascer um acordista que não aponte ao acordo ortográfico (AO90) «imprecisões, erros e ambiguidades». A começar, e à cabeça, pelo principal autor do Disparate pela parte portuguesa, Malaca Casteleiro, quando subscreveu, em 2008, o manifesto de Evanildo Bechara, o acordista-mor brasileiro, — “Considerações em torno do Manifesto-Petição dirigido ao senhor Presidente da República e aos Membros da Assembleia da República contra o Novo Acordo Ortográfico de 1990” —, divulgado durante o 3.º Encontro Açoriano da Lusofonia, no qual se pode ler:

«Só num ponto concordamos, em parte, com os termos do Manifesto-Petição quando declara que o Acordo não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambiguidades».

Agora, que na Assembleia da República foi constituído um Grupo de Trabalho para analisar a aplicação [sic] do acordo ortográfico, devemos perguntar aos nossos Deputados que loucura lhes passou pela cabeça para votar favoravelmente o Segundo Protocolo Modificativo do AO90, perante uma declaração deste teor? Não lhes bastou – aos Deputados e ao Presidente da República – terem ignorado TODOS os pareceres qualificados que receberam sobre o Disparate, e ignorarem também mais esta verdadeira certidão de óbito, emitida – pasme-se! – pelos autores do próprio óbito!

A este Grupo de Trabalho, apresentou o ILTEC um ”parecer” onde se lê:

«O ILTEC é crítico em relação ao AOLP90, mas opõe-se a qualquer retrocesso na sua aplicação. (…) O ILTEC tem, como não poderia deixar de ser, uma postura crítica sobre o AOLP90. (…) O AOLP90 não permite criar, por si só, traduções únicas para o português. Nenhuma alteração à ortografia o poderia permitir. (…)»

No entanto, Malaca Casteleiro, pai do Disparate, afirma prazenteiro, mas mentindo:

Continuar a lerChinesices, princípios e valores [por João Roque Dias]

«O acordês: sórdida teimosia» [por Paulo Rodrigues da Costa]

O ACORDÊS: SÓRDIDA TEIMOSIA

– Pois!… E quem tem filhos na escola, que faz? A Daniela começou agora.
– A Daniela é sua filha ou do Estado?
– !!!… Na escola só ensinam…
– «Acordês»? É ilegal. A ortografia portuguesa rege-se pelo Dec. 35 288 de 8/Dez./45 e pelo D.L. 32/73 de 6/Fev. O «Acordo Ortográfico» é um tratado internacional nulo nos termos da Convenção de Viena; o voluntarioso II Protocolo Modificativo malogrou-o (v. J. Faria Costa e F. Ferreira de Almeida, «O chamado ‘novo acordo orto-gráfico’: um descaso político e jurídico», D.N., 13/2/12). Nulo que é, não vigora na ordem jurídica internacional. Não tem, assim, como suster-se na nacional. A resolução do Conselho de Ministros buscando impô-lo no ensino não tem força de lei. A escola deve ensinar e avaliar o português conforme as leis de 45 e 73. Eis um argumento para impugnar o ensino do «acordês» à sua filha. É ilegal, ponto final.
– Mas se é ilegal como anda então o «acordo» para aí espalhado?!
– Por atropelo e propaganda falaz. Vemos políticos diariamente a farejar donde sopra o vento para despacharem os negócios do (seu?) estado. Se brisa não sopra ligam a ventoinha…
O «acordo» aí espalhado sopra da ventoinha. Com displicência e atropelo. Andou anos a aboborar. Em 90 gente de siso viu a asneira. Os pais do desconchavo não. – Estes têm nome; não se lhe negue o demérito por alguns já cá não estarem. Por Portugal, Américo da Costa Ramalho, Aníbal Pinto de Castro, Fernando Cristóvão, Fernando Roldão Dias Agudo, Malaca Casteleiro, José Tiago de Oliveira, Lindley Cintra, Manuel Jacinto Nunes, M.ª Helena da Rocha Pereira e Vasconcelos Marques. – Outros o animaram, alguns ainda em cena: o então primeiro-ministro Cavaco com displicente ligeireza; o secretário Santana da (in)cultura com presteza clarividente!…
Presidentes (Soares e Cavaco) e deputados em 91, 2000, e 2008, todos aprovaram e ratificaram um lodo em cuja justificação se lê e lia: «Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que palavras como concepção, excepção e recepção a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção tal consoante é um c?» [Nota explicativa ao A.O., 4.2 c) ]
Pueril!
E gente deste nível mental elabora tratados de ortografia que ninguém lhe pede? Gente que se flagela (e a nós) num tratado internacional com labéus como: «A divergência de grafias existente neste domínio entre a norma lusitana, que teimosamente conserva consoantes que se não articulam […]» [Idem, 4.2 d) ]? E é, pois, «teimosia» os portugueses redigirem o seu idioma conforme as regras que lhe melhor servem e não como à Academia Brasileira de Letras lhe parece? É ainda «teimosia» serem essas mesmas regras as acordadas com a A.B.L. em 1945, depois rejeitadas intempestivamen-te pelo congresso brasileiro?! (E ainda são os que estão contra o atropelo acusados de xenófobos!)
Anos assim a aboborar e – ó demência! – eis a vertigem.
O agora presidente Cavaco vai ao Brasil em 2008 e vem a confessar a pressão que lá sentia para ratificar por Portugal o II Protocolo ModificativoCavaco elogia Acordo Ortográfico mas confessa que em casa ainda escreve à moda antiga», Público, 22/V/2012.).
Obediente, ratifica-o!
Da ventoinha jorra então um torvelinho demencial: ratificação apressada e cega em Portugal do II Protocolo Modificativo (juridicamente nulo); sua introdução falaz na ordem jurídica portuguesa com pretensa roupagem oficial (R.A.R 35/2008, de 29/7 e R.C.M 8/2011 de 11/1, com um errático Aviso n.º 255/2010 do M.N.E., de 17/9 de permeio). Nada disto tem força de lei mas bem finge. E assim nos é ditado, e calado.
A fazer pouco da inteligência com leis aparentes em função de facto (ou negócio?) particular, o logro segue internacionalmente com o opróbrio.
Ilustrativo é o caso dumas provas de recrutamento de pessoal para a uma dada empresa angolana, encomendadas a uma congénere portuguesa. Sabendo que os enunciados das provas de português iam redigidos no «novo acordo» o próprio presidente da empresa angolana avisa não conceber sequer submeter candidatos a provas de português que não sejam em… português. – Percebemo-lo. Que lhe importa certos portugueses estropiarem o seu idioma para se juntarem na marcha da História – ó vã glória!…– aos que seguem com o passo trocado?
E entre nós vai um caos. Até em família o «acordo» fomenta divisão: pais procurando que os filhos aprendam português e a escola, o ministério, o governo, esses sim teimosos, ensinando-lhe acordês. – Só podemos agora atalhar ao estrago, mais cedo que tarde, clamando pela lei na escola e assinando, dando a assinar e divulgando a I.L.C. contra o Acordo Ortográfico de 1990. Um mais que legítimo acto de boa cidadania.
– Onde se assina?
– Em www.cedilha.net/ilcao .

Paulo Rodrigues, Coord. de Formação.

[Imagem: EB1 Vale de Parra, Guia – Albufeira. Copiada do “site” da própria escola.]