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«Insegurança ortográfica» [por Acílio Estanqueiro Rocha]

Estanqueiro_foto(Des)acordo ortográfico: “insegurança ortográfica” (2)

1. Já afirmámos (artigo anterior) que o acordo ortográfico (AO) veio criar enorme “insegurança ortográfica”, onde esta antes não existia; subestimaram-se vários pareceres solicitados que alertavam para isso mesmo. Aliás, no ano passado, o Parlamento recomendou ao Governo a constituição de um grupo e trabalho para acompanhar o processo de aplicação do AO, com elaboração de relatório; que se saiba, nem grupo nem relatório.

Mostrámos já que a obsessão pela unificação ortográfica criou, em vez das duas, três grafias, patente em exemplos simples (portuguesa/brasileira): aspeto/aspecto, detetar/detectar, receção/recepção, conceção/concepção, deceção/decepção, perceção/percepção, espetador/espectador, perentório/peremptório, tática/táctica, espetro/espectro, cato/cacto, perspetiva/perspectiva, interceção/intercepção, etc. Assim se pretende que se escreva agora (em Portugal) “aspeto”, “conceção”, “perspetiva”, que antes se escrevia (Portugal e Brasil) “aspecto”, “concepção”, “perspectiva”, e que continua a ser “aspecto”, “concepção”, “perspectiva” (Brasil). Não entendo tamanha estultícia! Se eu escrever, por ex., a “receção do texto” em vez de “recepção do texto”, como evitar que o leitor não pense em “recessão”, se é isso que ouve a toda a hora e sofre no seu vencimento ou pensão? Um brasileiro, ao ler “receção”, não entende…

Como sabemos, a aprendizagem da ortografia não se faz só na escola: é um processo quotidiano, multímodo, que envolve a memória visual; escrever “Egito” causa calafrios: é um triste espectáculo, que já não tem espectadores mas “espetadores” (a primeira vez que li, pensei em “espeto”). Aliás, como é sabido, as grandes diferenças que separam as variantes portuguesa e brasileira da língua não são ortográficas, mas são lexicais, semânticas e morfossintácticas.

2. Sobre as consoantes não pronunciadas, importaria evitar a homografia, por ex., “acto”/“ato” (verbo), “corrector”/“corretor” (da bolsa), “óptico” (relativo à vista )/ótico” (relativo ao ouvido), sendo que, no Brasil, continua a escrever-se “óptico”; seria também imprescindível evitar a homofonia (por ex., “intersecção” e “intercessão”), como é necessário ainda evitar o fechamento vocálico (“acção”, “aspecto”, “baptismo”, “lectivo”, etc.). Note-se que o português europeu está a tornar-se, por vezes, dificilmente inteligível na oralidade, dada a tendência para fechar as vogais. Já um linguista advertiu que “adoção” (de “adoptar”) poderia conduzir à pronúncia de “adução” (de “aduzir”); este é um problema grave: as próximas gerações tenderão a ler “setor”, “receção”, “deceção”, etc., sem abrirem as vogais.

As consequências gravosas do AO saltam à vista: ao contrário de outras alterações ortográficas do século XX, este AO atinge aspectos estruturais da Língua Portuguesa. Todo este processo tem sido, pois, arrogante e autoritário.

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«Angola e a Perspectiva de adoptar o AO90» [E. C. Almeida, “Pravda” (Rússia), 08.06.15]

Angola e a Perspectiva de adoptar o Acordo Ortográfico

08.06.2015

Nota prévia: nada tenho contra a harmonização da escrita da língua portuguesa entre os diferentes países que a usam como sua língua oficial desde que as especificidades de cada cultura sejam ressalvadas e guardadas. Por isso, não tenho qualquer distinção contra o Acordo Ortográfico (AO), em si, mas não acredito nas bondades tão evidenciadas por certos linguistas quanto à sua total inserção impositiva nos fóruns nacionais e internacionais, sendo o contrário visto não como um arcaísmo, mas sim como um enorme erro, fortemente penalizado nos órgãos institucionais e de ensino.

por: Eugénio Costa Almeida©

Como já devem ter reparado, todas as minhas crónicas, ensaios, e outros tipos de obras são escritas, sempre – apesar de aceitar a tal harmonização linguística, leia-se o AO – escritas na versão antiga, aquela que nós ainda usamos e escrevemos.

Posto esta nota prévia, vamos ao que interessa. Recentemente, li um artigo no Jornal de Angola (versão online) que o AO está em desenvolvimento, “bem encaminhado”, segundo o título do artigo, com Moçambique a já ter aprovado, a nível de Conselho de Ministros a entrada em vigor do AO, aguardando a ratificação pelo Parlamento, e que Angola já está em discussão para a sua implementação.

Como disse no início, nada tenho contra o AO, mas há situações que se tornam insustentáveis com o AO, devido aos homónimos que se vão criar com evidentes lapsos semânticos e de sintaxe que os mesmos vão fomentar.

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Manifesto Anti-Guilherme

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De facto, o texto de Guilherme D’Oliveira Martins publicado há dias na revista “Visão” é de tal forma revoltante, parece-me, é tão desonesto – para não dizer miserável -, intelectualmente falando, acho eu, que apenas como simples “opinião” me permito reproduzi-lo aqui… devidamente “guarnecido” com aquilo que eu penso do texto e do seu autor.

É também esta a única forma de que disponho, se bem que modesta, de ao menos deixar “lavrado” algures o meu protesto, veemente, enérgico e “ligeiramente” enraivecido, quanto a mais uma ridícula tentativa de reescrita da História.

Parafraseando o que escreveu Maria do Carmo Vieira sobre a acordização selvagem da obra do Padre António Vieira, não merecia Graça Moura este tratamento. Escrever sobre ele um texto encomiástico em acordês já seria suficientemente mau; mas citá-lo e, pior ainda, usando dele citações textuais “convertidas” para o português estropiado “segundo as regras” do AO90, bem, isso então é absolutamente intolerável, nojento, abjecto. Uma canalhice sem nome.

E assim como aqui deixo esta adjectivação, pela qual assumo evidentemente – e com imensa honra – toda a responsabilidade, aqui deixo também a transcrição do dito texto, da autoria de Guilherme D’Oliveira Martins, devidamente corrigido, transposto, “traduzido” para Português legítimo; e não apenas nas citações de Vasco Graça Moura que se atreveu a estropiar, mas na íntegra, todo o seu próprio arrazoado.

Se fizerem o favor de me permitir outra citação “ligeiramente” adaptada, a terminar, aqui fica também a referência (com a devida vénia ao autor, está bem de ver) a Almada Negreiros e ao seu intemporal, genial, maravilhoso ‘Manifesto Anti-Dantas’.

E FIQUE SABENDO O GUILHERME QUE SE TODOS FÔSSEM COMO EU, HAVERIA TAES MUNIÇÕES DE MANGUITOS QUE LEVARIAM DOIS SÉCULOS A GASTAR.

 

O lugar da cultura

Guilherme D’Oliveira Martins
13:00 Segunda feira, 1 de Junho de 2015

A cultura é uma realidade transversal, que não se dá bem com o isolamento e o sentimento de auto-suficiência. Daí não bastarem as boas intenções nem os ingénuos desígnios. Os investimentos nas pessoas, para serem reprodutivos e terem efeitos em mais desenvolvimento, têm de se articular com as prioridades na criação e sustentabilidade dos recursos disponíveis, a começar no factor humano.

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Pelo contrário

Esta peça do jornal “i” de hoje, 28 de Maio de 2015, não é uma notícia, não é uma crónica, não é artigo de fundo, investigação jornalística, repositório técnico, recensão histórica ou mero relato seja do que for. Por exclusão de partes é, portanto, um simples artigo de opinião. A começar pelo título e pelo “lead” (ou sub-título, neste caso) e a terminar no “elenco” escolhido pela autora para ilustrar a sua opinião sobre a matéria, nada, absolutamente nada nesta peça ultrapassa o âmbito restrito, altamente discutível, da mais elementar perspectiva pessoal.

Esta pessoa acha que “estes são os homens que defendem o Acordo Ortográfico”. Pois bem, muita gente tem uma opinião (fundamentada) rigorosamente inversa: estes são (alguns dos) homens (e mulheres) que pretendem impor o acordo ortográfico. Esta pessoa considera que “o objectivo do acordo é a unificação de duas grandes línguas”? Mas então, vejamos, essa afirmação é de tal forma absurda que nem vale a pena desmontá-la!

E assim por diante, lá vai o arrazoado (digamos) a galope, de freio nos dentes, despedindo rijos coices opinativos de roda, ele é “defender o futuro da língua”, ele é a “projecção no planeta”, ele é é “tu cá tu lá” com não sei quê, ele é a suprema patranha de que “vêem finalmente o AO em vigor“, em suma, isto ele é um festival de patadas a torto e a direito: na verdade, nos factos, no mais básico senso comum.

Aqui fica, portanto, esta espectacular demonstração de como nem tudo o que sai num jornal é jornalismo, por um lado, e também de que, por outro lado, todos os portugueses têm pelo menos um direito protegido pela nossa Lei Fundamental, isto é, o direito de opinião que decorre da Liberdade de expressão e informação. Sendo que esta implica, obviamente, o direito ao chamado “contraditório”.

Que aqui fica também.

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Estes são os homens que defendem o Acordo Ortográfico

O objectivo do acordo é a unificação de duas grandes línguas
Melissa Lopes
28/05/2015 11:00:00

Acreditam que estão a defender o futuro da língua portuguesa. Estarão? Ao defender AO, acreditam que estão a proteger o futuro do idioma português e a assegurar a sua projecção no planeta. Têm uma relação “tu cá tu lá” com o estudo da língua portuguesa: são professores universitários, ensaístas e linguistas. Apesar das controvérsias, vêem finalmente o AO em vigor, desde o passado dia 13 de Maio.

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Malaca Casteleiro
João Malaca Casteleiro, nascido em Teixoso (Covilhã), a 29 de Agosto de 1936, licenciou-se em Filologia Românica, em 1961. Doutorou-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1979, com uma dissertação sobre a Sintaxe da língua portuguesa, onde é professor catedrático desde 1981. É membro da Academia das Ciências de Lisboa e foi o principal responsável na elaboração do Novo Acordo Ortográfico de 1990, aprovado em Outubro e Dezembro desse ano em reuniões em Lisboa, com a participação de representantes dos sete países lusófonos de então, acordo esse que apenas entrou em vigor este ano. É ainda Investigador do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, integrando-se no grupo “Multiculturalismo e Lusofonia de Política de Língua Portuguesa”.

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«Sobre a língua e o AO90» [Isabel Soares, “Observador”, 18.05.15]

Sobre a língua e o acordo ortográfico

Isabel Soares
18/5/2015
A língua está no âmago da cultura de um povo e não sabemos ao certo quais as consequências de manipular a língua de uma forma significativa, como está a ser feito.

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Pertenço ao grupo dos que assiste à alteração, ou melhor, à mutilação, da língua com grande desgosto. Sou uma simples leitora de alguns jornais, e tenho esporadicamente lido algumas notícias e artigos de opinião sobre o acordo ortográfico. A minha ligação a questões linguísticas é apenas a de um cidadão comum sem qualquer preparação específica sobre o assunto. A razão porque decidi escrever estas notas deve-se a que não li até agora nenhum artigo que aborde a questão da alteração da língua no que ela tem de essencial.

A língua não é um produto de um acto de vontade do ser humano. A língua é uma propriedade emergente de comunidades humanas que surge independentemente de qualquer actividade consciente dessas comunidades. Neste sentido, a língua é um fenómeno da natureza. A língua está ligada à mente humana, emerge dessa mente e molda-a de formas que provavelmente nunca conseguirão ser inteiramente compreendidas pelo ser humano. Isso implicava sermos capazes de nos auto-conhecermos completamente, de nos vermos completamente ao espelho, o que não parece ser possível. Como Kurt Gödel demonstrou, através do teorema da auto-referenciação, há limites ao conhecimento humano.

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«O direito de ser atropelado» [Maria Filomena Molder, “Público”, 04.05.15]

Opinião

O direito de ser atropelado

Maria Filomena Molder

04/05/2015 – 00:32

Ao contrário do que diz, a escrita é um repositório de enxames de significações ancoradas em redes etimológicas e um tesouro da memória. Na medida do possível, a ortografia deveria evitar o seu apagamento.

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No passado dia 14 de Abril realizou-se na Faculdade de Letras da UL um Fórum Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico” de 1990, cujo cartaz suscitou reacções sensíveis por parte do “Ciberdúvidas”.

Além de apontar para um erro ortográfico, a saber, a falta de um hífen e de um ponto em 3ªfeira – o que, no meio do caos generalizado e serenamente ignorado, soa a lágrimas de crocodilo –, remeteu o leitor para a reacção do historiador Paulo Pinto publicada no blogue “Jugular”, e ainda para um artigo do mesmo autor publicado em 2013 no nº 177 da Revista Brotéria.

Fui ler. Quanto ao primeiro texto, o historiador converteu-se em director de consciência dos autores do cartaz e promotores do Fórum, acusando-os de enxovalhar a inocência do AO90. Ora, nós sabemos bem que só depois da aplicação experimental do AO90 estes erros monstruosos – “pato de regime”, “abruto”, “apocalise”, “pseudo-inteletual”, “fatos ocorridos”, “deixe o seu contato”, etc. – começaram a surgir nos documentos oficiosos e institucionais, bem como nos meios de comunicação. A lista é devastadora. Há quem a tenha actualizado: Fernando Venâncio, “O ACORDISMO EM NEGAÇÃO”, por exemplo. Só não vê quem não quer. É o caso do “Ciberdúvidas” e do historiador Paulo Pinto, que passam por tais provas incontestáveis como cães por vinha vindimada.

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Movimento ou Partido?

No passado dia 10 de Abril, seguindo uma sugestão de um subscritor, a ILC propôs que se desse início à recolha de 7.500 assinaturas para a criação de um Partido Político. Este partido teria, como ponto único do seu programa, a revogação da entrada em vigor do AO90.

Desde essa data, temos vindo a debater esta ideia com várias pessoas.

A proposta, de um modo geral, tem sido bem aceite. Há mesmo que diga, dando como exemplo o seu caso pessoal, que um Partido assim poderá reconciliar “pelo menos um” eleitor com as urnas de voto. Mas, como é natural, há também quem refira dúvidas e inquietações.

Uma questão levantada por várias pessoas prende-se com o próprio conceito de “Partido Político”, por oposição à criação de um “Movimento”. Um “Movimento”, dizem, tende a ser mais abrangente, na medida em que pode recolher o contributo de um sector alargado da população, independentemente de credos políticos, religiosos ou outros.

No caso da Língua Portuguesa, um “Movimento” poderia integrar pessoas da extrema esquerda à extrema direita, passando, evidentemente e por esmagadora maioria de razões, pelo chamado “centrão”. Isto significa, de forma absolutamente abrangente e transversal, que pessoas cujas opiniões sobre outros assuntos podem divergir quase por completo encontrariam no “Movimento” um denominador comum que lhes permitiria actuar em conjunto.

Em contraponto, um Partido Político tende geralmente a rotular-se (ou a ser rotulado) — desde logo entre esquerda e direita, levando ao afastamento de quem quer que não se reveja nesses rótulos.

O argumento tem alguma lógica, mas não se aplica a este caso em concreto.

Em primeiro lugar, aquilo que propomos não é um partido político comum. Não se pode aplicar rótulos a um partido que não se pronuncia sobre política externa, sobre produto interno bruto ou sobre taxas de desemprego, por exemplo. Na verdade, aquilo que propomos é um “movimento”. Inclusivamente, o nome proposto — M-nAO: Movimento não ao Acordo Ortográfico — contém a palavra “movimento”.

Porquê, então, a criação de um Partido?

Como sabemos, não seria o primeiro partido a recorrer à palavra “movimento”. Os exemplos abundam e, aqui sim, é possível dizer, da esquerda à direita. Em rigor, enquanto movimento, o M-nAO será sempre infinitamente mais genuíno do que muitos partidos que ostentam a palavra “movimento” nas suas siglas.

Neste contexto, as razões para a criação de um partido são muito simples: desde logo, manteremos todas as vantagens associadas a um movimento — agilidade e mobilização em torno de objectivos simples e claros. Mas teremos também as vantagens de um partido político: forçando as restantes forças políticas a pronunciar-se sobre o assunto (em vez de fugirem dele como o diabo da cruz) e mostrando a determinação de todos quantos lutam contra o acordo — seria a primeira vez que uma Causa de interesse nacional mobilizaria os cidadãos ao ponto de estes se constituírem em partido. Seria, sem dúvida, uma mensagem poderosa, capaz de se fazer ouvir até noutros países de expressão oficial portuguesa.

E já este pequeno texto ia lançado quando li, hoje, aquele que será talvez o melhor argumento a favor da criação de um partido: Diz João Roque Dias, algures no Facebook:

Os partidos, desgraçadamente, ainda não perceberam que o aborto ortográfico é uma ferida aberta na sociedade portuguesa, mais funda do que possam imaginar. Estupidamente […] querem acreditar que a rejeição do aborto não passa de uma teimosia de um bando de loucos que quer escrever “pharmacia”. Senhores dos partidos: estes “loucos” votam. E há “loucos” que acham este assunto tão ou mais importante do que umas promessas de mais ou de menos cortes nas pensões ou na Educação. E, por isso, não votam.

“Não votam”, diz João Roque Dias. Neste último ponto tenho de discordar. Havendo essa possibilidade, havendo uma alternativa coerente, não deveremos nós, “loucos” confessos, votar?

Rui Valente

«O A090 e a agricultura soviética» [António Guerreiro, “Ípsilon”, 01.05.15]

O A090 e a agricultura soviética

António Guerreiro
01/05/2015 – 01:49

 

Os fascismos — de maneira grandiosa ou numa frouxa escala — procederam a uma estetização da política. Numa célebre resposta a essa circunstância, Brecht e Benjamin lançaram, no Inverno de 1935/36, do exílio dinamarquês onde se tinham juntado por uns meses, uma palavra de ordem: à estetização da política é preciso responder com a politização da arte. O projecto de estetização da política que o nazismo realizou ecoa nesta célebre definição de Goebbels: “A política é a arte plástica do Estado”. Menos conhecida é a reivindicação, pelos estudantes do Partido Nazi, de uma “ciência politizada”. Ciência politizada ou, pelo menos, submetida a princípios ideológicos, foi também a ciência biológica e a agricultura de um outro regime totalitário, o soviético, quando Lissenko pôs de parte o saber adquirido da genética, considerada como burguesa, e submeteu a semente do trigo duro a tratamentos com vista a uma política agrícola rigorosamente planificada. O resultado foi ruinoso e as desventuras ideológicas da agricultura soviética tornaram-se uma anedota que os soviéticos ampliaram com humor negro. Nas democracias actuais, não são dadas sequer as condições de possibilidade para uma estetização da política (mesmo a “política cultural” tem de se afastar, em princípio, de uma política estatal do juízo estético e de uma cultura de tendência), e relativamente à ciência o que se espera das democracias é que elas mantenham a “neutralidade axiológica” de que falou Max Weber. Mas se já ninguém ousa clamar por uma ciência politizada, temos de observar que triunfou no nosso tempo uma política cientificizada. Não se trata apenas de a estatística se ter tornado o instrumento fundamental da racionalidade política, é mais do que isso: não há lei ou decisão governamental que não se baseie em estudos encomendados ou em investigações académicas feitas num âmbito científico autónomo. Veja-se, por exemplo, como a lei que permite o acesso condicionado a uma “lista de pedófilos” procurou a caução — ilegítima e abusiva, como já foi amplamente explicado — de um estudo sobre os níveis de reincidência. Todo o processo de engendramento e implantação do Acordo Ortográfico de 1990 só tem paralelo nas experiências agrícolas de Lissenko: a ortografia, como o trigo duro, tem de se vergar às miragens de uma ideologia (que tem nome de “lusofonia”, mas é muito mais do que ela) e conformar-se aos desígnios de políticos e cientistas pioneiros, ditos linguistas, mas que são na verdade agentes de uma ciência politizada. Juntos, gritaram em coro, antes de perderem o pio: “A ortografia é a arte plástica do Estado”. Quem lê jornais, escritos públicos e documentos oficiais percebe que está instalada a anomalia ortográfica (em meia hora de televisão, no dia 25 de Abril, li dois “fatos” em vez de “factos”) e que a aplicação do AO90 é tão desastrosa e tão contrária aos efeitos pretendidos (temos agora três normas ortográficas no “espaço lusófono”) como a agricultura de Lissenko. E é já tão paródica como ela. O que é irritante é que toda a verdade de facto exige peremptoriamente ser reconhecida e recusa a discussão. Por isso é que os políticos com responsabilidade nesta matéria e o respectivo braço armado científico (os cientistas pioneiros do laboratório linguístico de onde saiu o AO90) recusam sair a público e discutir os resultados da sua bela obra: mostram-se às vezes irritados com o ruído da paródia. Mas apostam no silêncio, à espera que das intervenções genéticas no trigo duro nasça, se não cevada e centeio, pelo menos erva para forragens.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de António Guerreiro, publicado na revista “Ípsilon” (suplemento do jornal “Público”) de 01.05.15. “Links” e destaques nossos.]

Nota: visto que a “Wikipedia lusófona” passou a ser brasileira, apenas utilizamos ligações a entradas da Wikipedia em Inglês.

«Um des-Acordo Ortográfico» [José Manuel de Sousa, “diárionline”, 27.04.15]

Amiúde pela imprensa diária de todos os quadrantes lemos comentários de quem defendendo a unidade ortográfica da Língua portuguesa, se posiciona contra um sentimento nacional romântico, digno dos melhores compêndios de Garrett ou de Raúl Brandão, nossos inefáveis mestres, na arte de bem-escrever a nossa Língua, e através dela, a exultação dos índices de felicidade demonstrada.

Os mais trágicos defensores do Acordo Ortográfico de 1990, propugnam que, se nós portugueses não abraçarmos essa convergência, tornar-nos-emos num país com uma Língua divergente do Português do Brasil. Mas o paradoxo é que isso mesmo desde há muito está a acontecer, com a Língua a espelhar as suas próprias e idiossincráticas dinâmicas locais, regionais, e nacionais, de cada país de Língua Oficial Portuguesa a seguirem caminhos linguísticos separados.

Observemos determinados dados concretos acerca da realidade da nossa Língua:

Português de Portugal, somos 10 milhões de falantes; Português do Brasil, 200 milhões; Português ao redor do mundo, serão aproximadamente 40 milhões.

Amostragem comparativa aproximada de países conhecidos com elevados níveis de felicidade existencial, falando várias Línguas:

1.º Suíça, 8 milhões, 4 Línguas; 2.º Islândia, aproximadamente 900 mil; 3.º Dinamarca, 5 milhões; 4.º Noruega, 5 milhões, 3 Línguas (norueguês com 2 variantes); 5.º Finlândia, 5 milhões, 2 Línguas; 6.º Holanda, 17 milhões; 7.º Suécia, 9 milhões, 1 Língua e mais 6 minoritárias.

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A opinião de Henrique Neto sobre o AO90

Nesta gravação, Henrique Neto diz aquilo que pensa sobre o AO90. Se bem que refira também a tese da “revisão” do acordo como sendo algo de plausível, estamos sem qualquer dúvida perante um depoimento de inegável relevância política, visto tratar-se de um candidato à mais alta magistratura da Nação, a Presidência da República Portuguesa.

Esperemos que outros candidatos às próximas eleições presidenciais lhe sigam o exemplo e digam igualmente de sua justiça sobre um assunto que deverá, com toda a certeza, ser “de relevante interesse nacional” também para eles.


«O Acordo Ortográfico é um tema controverso e Henrique Neto tem também as suas dúvidas sobre a eficácia do mesmo!»
 

[transcrição]
A minha opinião relativamente ao acordo ortográfico nunca foi muito favorável. Porque a Língua, que deve unir as pessoas e os povos, no caso do acordo ortográfico contribuiu para alguma desunião que tem prevalecido e que tem sobrevivido na sociedade portuguesa e presumo também que noutros países de língua oficial portuguesa. Pela importância do tema, eu resolvi aproveitar este Dia Mundial do Livro para ler uma declaração que é a forma mais rigorosa de expressar a minha opinião sobre o acordo ortográfico. E portanto passaria a ler.

‘Neste Dia Mundial do Livro, quero chamar a atenção do país para a importância política, social, cultural e geo-estratégica da Língua Portuguesa. Trata-se de um património insubstituível, que não pode correr riscos experimentalistas ou facultativos como os que estão previstos no chamado “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990”. Acordo que continua a merecer críticas generalizadas da comunidade científica e dos mais qualificados utentes do nosso idioma, incluindo poetas, escritores, professores, jornalistas e tradutores. E não apenas em Portugal; as reservas ao acordo multiplicam-se também nos diversos países e territórios onde o Português funciona como língua oficial e veicular.

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