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Ensaio sobre a loucura

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Governo cria grupo para simplificar língua portuguesa

Depois de ver as novas regras para ortografia da língua portuguesa, adotadas, via decreto, somente pelo Brasil, e de ter sido sinalizado pela sociedade civil sobre a necessidade de maior simplificação em vários pontos, o governo federal não só prorrogou a implementação para 2016 como também, através da Comissão de Educação do Senado criou o Grupo de Trabalho Técnico (GTT) para simplificar e aperfeiçoar a ortografia. O objetivo é de reduzir a quantidade de regras e exceções, tornando-as mais objetivas e de fácil entendimento.

De acordo com o professor Ernani Pimentel, que, ao lado do professor Pasquale Cipro, foi escolhido para coordenar o GTT, professores e estudantes de todos os países que têm como língua oficial o português têm até 20 de julho para sugerir mudanças. Todas as propostas serão avaliadas e apresentadas no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, que será realizado em Brasília, em setembro.

O professor Ernani Pimentel participou do CBN Santos por telefone, onde falou sobre a simplificação da ortografia e possibilidade de não adoção do novo acordo ortográfico.

Reportagem: Guilherme Pradella.

[citações]

– Existe um site chamado “simplificando a ortografia ponto com” [http://simplificandoaortografia.com/]. Não tem “ponto BR” [simplificandoaortografia.BR] porque é para todos os países de língua portuguesa.

– Nós não precisamos do “cê agá” [CH]. O “xis” [X] sozinho já resolve p’ra fazer esse som. P’ra escrever esse som. Então, se elimina o “cê agá”, ninguém vai ter dúvida entre o “xis” e o “cê agá”.

– Como é que você resolve o problema do “gê” [G] e do “jota” [J]? As outras línguas já resolveram isso. Por exemplo, o alemão, as línguas nórdicas, o inglês, a letra “gê” não é “gê”, é “guê” [G]! É “ânguêlá” [Angela], “volquiseváguen” [Volkswagen], não é verdade? “Ai guéte” [I get].

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«Senadores querem nova reforma ortográfica» [notícia do Senado brasileiro, 07.08.14]

Ora aí está de novo o “projeto” mas desta vez de forma não apenas oficial, visto que é o próprio Senado brasileiro quem publica a notícia, como também já temos o dito “projeto” calendarizado, estão nomeados os respectivos intervenientes, estabelecidos os passos a seguir e os “objetivos” a prosseguir: podendo entrar em vigor “já em 2016” nos oito países da CPLP, de que Portugal faz parte, irá ser produzida uma “nova reforma ortográfica” porque o AO90 não foi “suficientemente longe” na “simplificação” da Língua Portuguesa.

Em suma, é isto.

Em que consiste esta “reforma da reforma“, no que à Ortografia diz respeito, é algo que o próprio texto da notícia “esclarece”. Sabendo-se agora que este novo acordo ortográfico (AO16?) será feito “em cima” do anterior acordo ortográfico (AO90) e que será “votado” por tele-conferência (não, não é brincadeira, ou, melhor dizendo, é mas está na notícia), então pelos vistos a sua “aprovação” estará por essa via dada por garantida pelos autores “disto”.

Já quanto ao que significa “isto” para todos nós, portugueses (e angolanos e moçambicanos e cabo-verdianos e guineenses e são-tomenses e timorenses), o que significa “isto” em termos históricos, culturais e identitários para sete das oito nações de Língua oficial portuguesa, bom, digamos que “isto” significa…

Se calhar é melhor não dizer. Toda a gente sabe.

Notícia

Senadores querem nova reforma ortográfica

07/08/2014
Cristiane Britto

Projeto propõe a extinção da letra “h” no início das palavras e a troca de todas as expressões com “ch” pelo “x”

SENADOR CYRO MIRANDA disse que serão realizadas videoconferências com professores de países como Portugal e Angola para depois colocar o projeto em votação.
LEONARDO SUSSUARANA

A Comissão de Educação do Senado está desenvolvendo um projeto que pretende trazer mudanças nas atuais regras da língua portuguesa. Por meio de um grupo técnico de trabalho, os senadores vão propor novas regras para simplificar a ortografia e facilitar o ensino e a aprendizagem da escrita.

De acordo com algumas propostas do projeto, haveria a exclusão do “h” inicial, passando palavras como homem e hoje, por exemplo, a serem escritas omem e oje.

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«A língua portuguesa também é nossa» [semanário “Angolense” (Angola)]

Penso que o cerne da questão será: futuro risonho para o português de Angola que é absolutamente avesso ao acordo linguístico, mas este é assunto para outro debate, ao lado de mais de uma dezena de outras línguas angolanas, faladas e ainda pouco escritas pelos povos de Angola.

Falar do futuro da língua portuguesa implica, antes de mais, falar do seu passado. Tal como só podemos discorrer acerca do futuro de alguém se tivermos em conta o seu passado e presente, a sua história, também para falarmos do futuro de uma língua, temos de considerar em primeiro lugar o seu passado e o seu presente.

Mas, antes disso, tenho de dizer que fiquei boquiaberto quando o Salas Neto me ligou a pedir um texto por ocasião dos 800 anos da língua portuguesa. Porquê boquiaberto? Porque não sabia de qualquer 27 de Junho como dia da língua portuguesa – sabia antes do 10 de Junho, que se confunde com o dia da nacionalidade portuguesa.

Porém, bem vistas as coisas, é salutar a separação entre o dia da nacionalidade e o dia da língua. Até porque há língua portuguesa fora da nacionalidade portuguesa – e, inclusivamente, a esmagadora maioria dos falantes de português tem nacionalidade diferente da portuguesa.

Apoio, portanto, a ideia do 27 de Junho ser o dia da língua portuguesa, tanto mais que se trata da data do primeiro documento escrito em língua portuguesa por um soberano – D. Afonso II, que a 27 de Junho de 1214 subscreveu o seu testamento, 76 anos antes de D. Dinis transformar o português em língua oficial na que viria a ser a pátria de Camões.

A dúvida é se devemos ou não celebrar a data em Angola. Eu penso que sim, porque a língua portuguesa transcende desde há muito as fronteiras de Portugal, sendo hoje (também) língua dos angolanos. Ao contrário do que muita gente pensa e até afirma, a língua portuguesa é de Angola, da mesma forma como o é de Moçambique, de São Tomé e Príncipe, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau ou do Brasil. Da mesma forma como há um português do Brasil (com sotaque próprio e outras nuances), também há um português de Angola.

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«Velhinho, de bengala, mas firme» [semanário “Angolense” (Angola)]

Afligem-me o descuido e o descaso, a incompetência e a rigidez, embrutecidos todos estes males por um Acordo Ortográfico que descobriu o caminho mais rápido para o suicídio colectivo. Como se, de repente, milhões de falantes nos esquecêssemos de que as línguas são vivas e fá-las o povo que se comunica e jamais o decreto estéril do burocrata rodeado de poder.

Um pedaço de papel – Testamento de D. Afonso II, de 1214 -, sobrevivente audaz da acção de gerações de carcomas, veio mudar tudo. Tudo é uma maneira de dizer, na verdade, mas alguma coisa apenas. Trouxe mais uma data para comemorar, num mundo que passa bem com os seus crescentes marcos para lembrar imensas coisas, como se a Humanidade receasse os seus próprios apagões de memória.

Para se poder dizer que vem de longe a língua em que se escreveu os Lusíadas, a régia relíquia faz um jeito tremendo e aqui estamos, em diferentes pontos do planeta, a glorificar os oito séculos de um património que a expansão dos mares tornou vastamente comum.

Certeiros os que repescaram o pretexto para se exprimir ideias em torno da língua levada a bordo pelos marujos que circundaram o mundo, momento bom para, entre velas acesas e foguetes a ribombarem, gabar a solidez do português como riqueza dos homens. Nas cinco partidas – Europa, América, África, Ásia e mais além, na Oceânia – ouve-se a língua, tem-se comunicação, volta-se ao tal pedaço de papel com 800 longos anos. Brinda-se, numa celebração de rugas triunfantes, à incrível capacidade de desbravar caminhos e seguir em frente.

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«Não haverá… ‘mutambi’!» [semanário “Angolense” (Angola)]

Seria rica essa convergência em Angola de um tal caudal linguístico. Para os linguistas, dicionaristas, seminaristas e académicos, importa a norma, a morfossintaxe, semântica, numa ordem ortodoxa. O vocabulário corrente entre estratos sociais de Angola, como o exemplo mostra, sobretudo nas camadas jovens urbanas, nasce de uma necessidade de sobrevivência diante da falta de escolas, em quantidade e qualidade, e pior, da falta de possibilidades de as frequentar, por carências económicas e financeiras. Nada tem a ver com o Acordo Ortográfico: um gigante de pés de barro.

Não se pode festejar o surgimento de uma nova língua em Angola. A língua portuguesa, de origem românica, é intrincada, ambígua, faustosa. Não se pode festejar a morte da língua portuguesa em Angola, uma vez que seria festejar a morte dos seus falantes: umbundus, bakongos, kimbundus, tchokwes, nganguelas e imbindas. Os que festejariam a morte da língua portuguesa em Angola nada teriam para nos oferecer, diante do seu mutambi.

Eu sou, na minha idade, um meio ancião. Nasci falante de uma língua bantu, numa comunidade bantu. Nasci num universo linguístico em que a língua portuguesa não aquecia nem arrefecia o ambiente social e económico. Muito menos o político.

Portanto, na minha idade, e isso independe da minha condição de escritor, carrego nos ombros uma vivência, com ciclos de vida que se foram fechando ao longo da caminhada. Outros se abriram. Da pequenina aldeia, à beira do Kuanza, à aldeia maior, Luanda, passei a figurar nas estatísticas globais. A juntar-se à língua materna, veio a língua portuguesa (portanto, não festejemos o seu mutambi). Na minha memoria, o meu universo é o mesmo, e não há nada em mim que estrebuche, por desejar pertencer à lusofonia, só porque sou falante da língua portuguesa. A língua portuguesa é mais uma entre as muitas que falamos em Angola. Com a particularidade de ter sido investida de personalidade unificadora da nação. Às línguas bantu, a Constituição atribui o estatuto de parceiros da língua portuguesa. É uma paridade fingida.

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«Não estará o ‘Angolês’ já aí a chegar?» [semanário “Angolense” (Angola)]

Angola como Nação que já temos à mão precisa de uma nova identidade, distinta daquela desenhada pela potência colonial. Tal passará também, a meu ver, pela tangibilidade da comunicação. A função primeira da língua é comunicar ou passar a mensagem. Durante largos anos, os portugueses incutiram aos angolanos a ideia de que as línguas bantu eram sinónimo de desprestígio social. A nossa identidade milenar, que não se perdeu ao longo dos 500 anos de presença europeia, irá refundar-se numa nova forma de articulação oral que passa para a escrita e daí para uma nova norma.

Os desvios à norma (uso popular ou vulgar da língua) coabitarão com o uso normativo, sem que para tal surja uma nova língua ou essa desarticulação pode levar a nova forma de comunicar (por oralidade e escrita)? Os excessivos desvios, os empréstimos/ importações de outras línguas africanas (angolanas) e o génio criador/inventivo de novos vocábulos (neologismos) levarão ao surgimento do «Angolês»? Poderá ou não surgir em Angola, dentro de séculos, uma língua distinta do Português Europeu e da miríade de idiomas expressos no universo angolano?

Partindo de estudos sincrónicos e diacrónicos (evolução histórica) das línguas, atentos às tendências, autores como Carlos Figueiredo, Francisco Edmundo, G. Bender, Amélia Mingas, entre outros, apontam os desvios visíveis na utilização da Língua Portuguesa em Angola como propiciadores do surgimento de uma «nova» língua a que designam por «Angolês», «Português Angolano», etc..

Atendendo que as línguas têm sempre diferentes níveis de utilização (vulgar/popular, padrão/ norma e erudito/científico), evolução, transformação e gestação de novas identidades linguísticas, urge tecer algumas considerações a propósito da Língua de Camões falada em Angola.

O idioma Português não é mais do que a evolução de um conjunto de idiomas ibéricos que parte dos Celta, do Latim, do Castelhano, etc., que, em contacto com realidades linguísticas (morfológicas e fonológicas) africanas, americanas e asiáticas, delas tomou empréstimos e ganhou amplitude. O caminho trilhado pelas línguas ibéricas, até se chegar aos idiomas actuais, será, com o tempo, replicado nos países em que o Português chegou por via da colonização/imposição. Essa tendência pode ser observada em Cabo Verde, onde, do Português e das Línguas africanas da África Ocidental levou ao surgimento do crioulo, que já é língua nacional daquele país, coabitando com o Português, língua oficial. Por mais que defendamos a pureza da língua de Camões, teremos de nos vergar, um dia, à evidência e reconhecer facto semelhante em Angola.

O surgimento do «Angolês», ou outra designação que lhe for atribuída, será apenas uma questão de tempo, de maior criatividade dos falantes, uniformidade semântica dos vocábulos em todo o território e criação de um instrumento morfológico e sintáctico distinto das línguas que lhe dão origem (Português Europeu e línguas bantu e não bantu do território angolano).

Há hoje um novo paradigma linguístico que emerge nos nossos bairros, nas nossas sanzalas, nas aldeias, nas falas do povo que sente «ser mais importante comunicar do que as críticas dos gramáticos». Há uma nova língua que se vai distanciando cada vez mais da norma, que se expande através da música e da literatura, uma língua que é falada e que facilita a comunicação, que já é lida e muito cantada.

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«O último ‘espaço imperial’ de Portugal» [semanário “Angolense” (Angola)]

O Novo Acordo Ortográfico firmado entre os países de língua portuguesa é um tiro desse pensamento hegemónico português que saiu pela culatra. O Brasil roubou a cena com a maior parte das alterações a seu favor, incomodando assim profundamente a intelectualidade tuga. Os países africanos, em maior ou menor grau, resistem.

Se a Língua Portuguesa faz 800 anos, o que é que nós temos a ver com isso? Tudo. Sim, nós, os angolanos (e demais africanos falantes do português), temos tudo a ver com isso, mesmo que, ao contrário dos portugueses, não tivéssemos nenhum motivo para comemorar essa data (e não sei se temos e nem porquê teríamos que ter).

O certo é que, por mais que sejamos kimbundos, umbundos, kikongos, nganguelas, tchokwes,kwanhamas e outros bantus, toquemos batuques, cantemos massembas e dancemos tchiandas, enfim, apesar de quaisquer africanidades que possamos exibir, nós nao falamos apenas a Língua Portuguesa. Nós somos a Língua Portuguesa. Nós pensamos em Português.

Certamente, não será esse o juízo dos nossos cotas, já que eles estarão sempre agarrados à necessidade de conservação das nossas línguas nacionais (com muita razão). Também não é a ideia de muitos dos chamados intelectuais, para quem o Português é a língua materna. Para todos em geral, a Língua Portuguesa (a oficial) é estrangeira. Então, «sermos» a Língua Portuguesa ou «pensarmos» por meio dela, afigura-se como uma aberração.

Mas, no fundo, basta matutar. Depois de quase cinco dos oito séculos de existência dessa língua terem sido dedicados à colonização em África e ela ter sido um dos principais instrumentos de moldagem do homem colonizado, mormente com a rigorosidade do processo de assimilacionimo em que a cultura europeia nos foi dada a engolir, «naturalmente», o resultado não poderia ser diferente.

Isso, porém, sem deixar de ressaltar que essa preocupação com a língua nunca foi exactamente objecto de cuidados aquando da colonização. Afinal, os africanos iletrados eram considerados «fora» da história, só «entrando» nela através das formas de dominação, tendo a política de não-educação sido uma maneira de manter o estatuto de inferioridade do colonizado.

Assim, fomos feitos como uma espécie de RoboCop – a figura semi-homem e semi-máquina que o cineastra holandês Paul Verhoeven inventou num dos filmes de Hollywood. Cabeça e alguns membros humanos e o resto do corpo feito de um conjunto de metais automatizados. Um sujeito movido à memória electrónica, com lapsos de lembranças humanitárias.

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«A ortografia no Senado» [editorial do jornal “O Estado de S. Paulo” (Brasil), 27.07.14]

Desde 2009, o Brasil convive com uma situação anômala: possui duas normas ortográficas. De janeiro de 2009 a dezembro de 2015, o País está oficialmente num período de transição, no qual coexistem a norma antiga e a nova, estabelecida pelo Acordo Ortográfico de Lisboa, assinado em 1990. Para complicar a situação, há atualmente um grupo de trabalho no Senado que quer mudar o acordo, com a intenção de definir um “idioma claro e acessível a todos”. Sem uma proposta definida e descumprindo os caminhos legais previstos, a atuação desse grupo é motivo de preocupação. Com a língua não se brinca.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado pela Academia das Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras (ABL), além das delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Posteriormente, cada país o ratificou internamente(1). No Brasil, o Congresso Nacional o aprovou em abril de 1995, e a sua regulamentação veio por um decreto presidencial, de setembro de 2008, no qual se definiu a sua obrigatoriedade a partir de 2013. Em dezembro de 2012, a presidente Dilma Rousseff estendeu o prazo para janeiro de 2016, acolhendo em parte o pedido de senadores que queriam adiar sua obrigatoriedade para 2018. Durante a transição, valem as duas normas.

Houve protestos. Por exemplo, o gramático Evanildo Bechara, membro da ABL, comentando a importância de uma uniformização da língua portuguesa, afirmou que adiar a obrigatoriedade era um ato sem sentido, que significava passar um “atestado de ignorância” para professores e alunos que já dominam as novas regras.

Aproveitando o novo prazo, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado aprovou a criação de um grupo de trabalho para estudar e apresentar uma proposta para “aperfeiçoar o Acordo Ortográfico”. A ideia do grupo foi do presidente da Comissão, senador Cyro Miranda (PSDB-GO), um dos maiores articuladores para que se atrasasse a obrigatoriedade do Acordo.

O grupo de trabalho reúne algumas entidades e um site (Simplificando a Ortografia), do professor Ernani Pimentel. Na internet, ele promove um abaixo-assinado pela “racionalização e simplificação da ortografia”, sem especificar, no entanto, o que deseja mudar. Especifica, no entanto, postular uma redução da carga horária de aulas de ortografia. Segundo o professor, hoje são ministradas 400 horas/aula desde o início do fundamental até o fim do ensino médio, e ele deseja que sejam utilizadas em torno de 150 horas. O grupo prevê recolher, até o fim de julho, sugestões de professores, estudantes e público em geral para uma nova ortografia, cuja proposta seria elaborada durante o Seminário Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, em setembro.

Surpreende que toda essa movimentação para uma nova ortografia seja feita à margem da Academia Brasileira de Letras, que é, por lei, a guardiã da língua portuguesa. Tanto é que foi a ABL quem assinou, em Lisboa, em 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Nesse mesmo escopo, a ABL também é responsável pela atualização do Vocabulário Comum, a organização do Vocabulário Onomástico e a publicação do Pequeno Vocabulário da Língua Portuguesa, tarefas que são cumpridas exemplarmente.

Além do desrespeito à lei no que tange à ABL, preocupa o enfoque dado para essa possível nova ortografia. Por exemplo, segundo o professor Ernani Pimentel, “a simplificação ortográfica é a porta para a eliminação do analfabetismo”. Pelo que se sabe, esse grave problema se combate com educação de qualidade, não com diminuição de conteúdo. O grupo de trabalho defende também “a necessidade de uma língua mais abrangente e democrática que promova a inclusão social”. Coitada da ortografia! Agora, ela é a culpada pelos problemas sociais brasileiros.

A língua portuguesa é um inestimável patrimônio cultural, e alterações exigem criterioso estudo prévio. Por quem tem – por lei – competência para fazê-lo.

[Transcrição integral de Editorial do jornal “O Estado de S. Paulo” (Brasil) de 27.07.14, reproduzido pelo “site” Observatório da Imprensa em 29.07.14. Nesta transcrição foi (obviamente) respeitada a norma ortográfica (Pt-Br) do original. “Links” e destaques nossos.]


(1) Não é verdade. Nem Angola nem Moçambique ratificaram o AO90.

CPLP: «lavandaria de dinheiros ilícitos» [Noé Nhantumbo, “Canal Moz” (Moçambique), 24.07.14]

Politização de créditos e distribuição de favores já é cultura na CPLP

Ninguém está admirado que as engenharias financeiras entre Portugal e Angola tenham trazido à tona uma situação de sujeira institucional gritante.

As compras de mansões e de andares em zonas nobres portuguesas por generais angolanos já foi documentada e denunciada por activistas políticos de Angola.

O processo de desintegração económico e financeiro português colocou aquele país na rota das lavandarias internacionais de fundos ilícitos.

Os “vistos de ouro” são uma forma de aliviar uma economia deprimida e estagnada.

Agora que se vai da ex-Metrópole para a África numa corrente migratória jamais vista, fica a impressão de que os tempos mudaram. Na verdade, nada é como antes. A economia e as relações internacionais não são feitas de piedade e nem se resumem a sentimentalismos.

O que é interessante verificar é que os “lobbies” do petróleo, sejam eles angolanos, sejam eles da Guiné Equatorial, encontram terreno fértil em Lisboa. A capital portuguesa não resiste, quando lhe acenam com novos dólares.

A cimeira da CPLP em Díli vem mostrar que as relações políticas são profundamente condicionadas por imperativos ou considerações político-económicas dos Governos.

É inútil esperar que se abracem atitudes democratizantes por Governos que aceitam acolher no seu seio um ditador com marca registada em África.

Se as economias de países produtores de gás e petróleo ou carvão não conseguem valorizar os seus recursos e, de forma transparente, precaverem-se contra a sua extinção, construindo alternativas e investindo criteriosamente, são os povos dos seus países que sofrerão as consequências. Com governantes que aderem à cleptocracia, constituindo fundos soberanos dirigidos pelos seus filhos, e empresas de credibilidade manchada dirigidas pelos seus colaboradores, não se pode augurar um bom futuro para as economias destes países.

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«A quem serve?» [São José Almeida, “Público”, 26.07.14]

O que é que Cavaco Silva foi fazer a Díli? O que é que Portugal faz ainda na CPLP? Estas duas perguntas continuam actuais três dias depois de o Estado português, através da figura do seu Presidente da República, ter passado pela vergonha de ser conivente e de formalmente concordar com a decisão, aprovada por unanimidade, da entrada da Guiné-Equatorial na organização que se chama ainda Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa.

A aceitação pelos Governos da CPLP da adesão da Guiné Equatorial é um escândalo. A Guiné-Equatorial é há 35 anos dirigida por um tirano chamado Teodoro Obiang, que conduz o país ao arrepio de todas as regras do que se entende hoje em dia por Estado de direito democrático. A gestão cleptocrática dos recursos nacionais, entre eles o petróleo, por parte de Teodoro Obiang e do seu filho e vice-presidente Teodorin Obiang, já levou à instauração de processos nos Estados Unidos e em França. E quando alguém se opõe ao esbulho, acaba por ser preso. Como é o caso do empresário italiano Roberto Berardi, que foi sócio de Teodorin Obiang. Berardi denunciou que a empresa de ambos servia para desviar dinheiro do país e disponibilizou-se para testemunhar num processo internacional. Foi preso, torturado e está em risco de vida. (PÚBLICO 3/7/2014)

Esta trágica tirania tem como língua oficial o castelhano. Adoptou como segunda língua o francês, quando Obiang decidiu entrar no espaço francófono. E agora, mesmo que ninguém o fale, tem como terceira língua oficial o português. Como esse princípio é central para integrar uma comunidade dita de países com língua oficial portuguesa, a regra foi decretada por Obiang pai, com a mesma facilidade com que ofereceu de prenda de anos uma parte substancial da floresta do país ao seu filho Teodorin (Observador 20/7/2014).

A passagem do português a terceira língua oficial na Guiné Equatorial é uma decisão que tem a mesma profundidade e a mesma convicção das outras exigências que Obiang cumpriu para conseguir aderir à CPLP. Isto é: nenhuma. Vejamos a cronologia dos factos. Em 2006, a Guiné Equatorial ganhou estatuto de observador na CPLP. A adesão era a etapa seguinte e foi apadrinhada pelo Brasil e por Angola, cujos Presidentes faltaram agora à Cimeira de Díli, quem sabe se por vergonha de ficar na fotografia.

Em 2010, na cimeira de Luanda, foi aprovado um guião para a adesão. Deste constavam princípios óbvios: abolição da pena de morte, respeito pelos Direitos Humanos e democratização. Os dois primeiros parecem ser conceitos desconhecidos por Obiang. Em relação ao primeiro, a resposta foi uma não-solução. A pena de morte está suspensa por uma moratória. Ou seja, toda esta negociação é uma farsa desde o início: a Guiné Equatorial não fala português, não é uma democracia – é, sim, uma trágica tirania – e a pena de morte subsiste.

É sabido que o Presidente da República se opôs desde o primeiro momento. Assim como é conhecida a discordância de Paulo Portas e Rui Machete. Já a veemência da oposição do Governo de José Sócrates é menos conhecida. Mas o facto de se ter oposto desde o primeiro momento mais reforça a ideia de que o Presidente não deveria ter participado na encenação de Díli. Não basta estar na sala sem bater palmas e criticar depois.

Mais: como várias pessoas já referiram, a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP reforça o carácter marginal que Portugal acabou por ter nesta organização. É certo que Portugal não tem direito a um estatuto privilegiado e qualquer tentativa de obter uma valorização especial nesta organização seria sempre vista como uma arrogância por parte da antiga potência colonizadora.

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