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«Otimizar a recessão» [por Jorge Pacheco de Oliveira, comentário]

Espessorecessao[cópia de comentário neste “site” em 17.11.14 às 00:36.]

«#2 | Escrito por Jorge Pacheco de Oliveira

Como se sabe, o semanário Expresso, que a si próprio se classifica como jornal de referência, foi um dos primeiros, senão o primeiro, a adoptar o AO90. Na edição digital de hoje, numa notícia sobre a sonda Philae que pousou no cometa 67P, pode ler-se o seguinte naco de prosa, atribuído a um dos cientistas da missão :
“Tivemos até de fazer uma rotação para otimizar a recessão de luz sobre os painéis solares”.
Ora aí está. Com o AO90, não é só o PIB que pode sofrer uma “recessão”. Obrigado Expresso, por nos dares essa “percessão”…
»

Confere. Imagem de ecrã (“printscreen”) da página da notícia no semanário “Expresso” em 17.11.14, cerca das 18 horas.

expresso.sapo.pt/philae-conseguiu-enviar-dados-do-cometa-antes-de-ficar-sem-bateria=f898392

«O negócio do acordo ortográfico» [semanário “O Diabo”, 24.06.14]

O português mais distraído talvez pense que um colégio de sábios bons e eminentes ter decidido um dia, após longos anos de estudo e investigação, proceder à reforma do sistema ortográfico da Língua Portuguesa – e que os governos dos países lusófonos, tendo-se debruçado sobre o assunto com o auxílio ponderado de gramáticos e lexicógrafos, terão conscienciosamente aprovado essa tão bem preparada reforma. Mas o português distraído estaria redondamente enganado.

Já se sabia que o acordo ortográfico foi preparado em cima do joelho, longe do debate público e do escrutínio do povo, dos mestres da Língua e dos especialistas da Gramática. Mas só agora começa a conhecer-se, em detalhe, todo o processo de promoção de um tratado internacional que, embora já esteja a ser aplicado em alguns países (como Portugal), só entrará plenamente em vigor, se algum dia entrar, quando todos os governos lusófonos o assinarem. E ainda falta um… [nota de ILC AO: dois, não um; Angola (governo e parlamento) e Moçambique (parlamento) não ratificaram o AO90]

Em Portugal, no Brasil e em Angola, o acordo suscita enormes polémicas e tem contra si uma parte considerável do mundo académico e literário. Não obstante, governos e parlamentos dos PALOP terem vindo a ratificar consecutivamente o tratado, na ilusão “politicamente correcta” (estranhamente adoptada em Portugal por Executivos de centro-direita) de que ele representa “progresso” e “igualdade”.

Continuar a ler«O negócio do acordo ortográfico» [semanário “O Diabo”, 24.06.14]

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Imagem copiada de coluna permanente (à esquerda) do “blog” Bic Laranja, feita com código adaptado de “post” anteriormente aqui publicado, que foi também reproduzido – até agora- por outros dois três “blogs”:

Aerograma
Nada De Novo Na Frente Ocidental
Não Quero Mas Vou

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“Post” actualizado em 30.04.14 às 13:30 h.

Caixa de Pandora

Helder Guégués, segundo me parece, participa numa espécie de laboratório de língua portuguesa com professores. Os disparates de que dá notícia decorrentes da aplicação do aborto gráfico por eles mostram o que se adivinhava. Em sendo professores a dar erros, que achais que o futuro vai dar?…

” […] Vejo que alguns escrevem (e não são professores de Física disléxicos) «fição», outros escrevem (e não são cegos) «diotrias». É o novo acordo ortográfico e são professores que assim escrevem. Pês e cês é tudo para deitar abaixo a esmo e a eito. Vamos a ver se o que sobra é legível.”
Helder Guégués, Ensandeceram, in Assim Mesmo, verbete 4488, 24/2/2011.

Pandora (a espreitar a caixa), J. W. Waterhouse, 1896.
(Imagem em Hellenica.de)

Quem rege a escrita?

 Há dias transcrevia-se aqui, em palavras da Priberam (um editor de dicionários), que “o texto do Acordo de 1990 não prevê soluções para muitos dos problemas que cria”. Em havendo pingo de senso neste país, só por si isto seria razão para arrumar de vez com a aberração. Mas não, e o cúmulo é vermos um editor de dicionários à nora para se conseguir desenvencilhar do texto do Acordo dizendo e repetindo em desespero que o dito acordo “é lacunar, ambíguo ou incoerente”.

 Em 29/1/2011 Helder Guégués, no blogo “Assim Mesmo” (“O prefixo «re-» no A.O.L.P.”, post 4372), apontava ao corrector da Priberam um erro de hifenização nas palavras com o prefixo re- quando se lhe seguia palavra iniciada com a mesma letra. Dias depois (“Diz a Priberam”, post 4387) justificava-se longamente Helena Figueira, do Departamento de Linguística da Priberam, com a letra do texto da Base XVI, 1º, alínea b) do Acordo Ortográfico de 90, que é inequívoco relativamente ao uso de hífen com um prefixo que termina na mesma vogal com que se inicia o elemento seguinte; dá uma única excepção: o prefixo co-. A interpretação que a Priberam faz do texto da Base XVI é a única possível. A leviandade com que foi redigido o Acordo de 90 parece que acabou por introduzir no Português formas tão extravagantes como re-eleger, re-embolso, re-encarnação, re-encontro, re-entrar.

 Parece mas não foi.

 O Brasil, usando da prerrogativa que lhe assiste já do costume de não cumprir nenhum acordo ortográfico, cozinhou unilateralmente uma excepção à Base XVI no seu V.O.L.P. (o tal que foi solenemente oferecido ao Presidente da República Portuguesa e que este subservientemente se dispôs a receber). – E fundamentado o Brasil em quê para introduzir uma excepção não acordada ao Acordo? – Ora vede lá bem: “por coerência e tradição lexicográfica” (*). A mesma coerência que decepa consoantes etimológicas e conserva o ‘h’? Ou a que dita epiléticos sofrendo epilepsia e egípcios habitando o Egito? E a tradição lexicográfica é a que nega a Portugal o primado do idioma?!…

 E posto isto em que ficamos; com o Acordo ou com a Academia Brasileira das Letras?…

 O vocabulário do I.L.T.E.C. (o do governo do eng.º Sócrates) fez tábua rasa do texto da Base XVI acerca do prefixo re- e segue a cartilha brasileira. E “os recursos linguísticos da Priberam têm vindo a ser alterados desde 25 de Janeiro de 2011 para seguir a excepção instituída pelo V.O.L.P. da A.B.L.” – O ano lectivo, pois é…

 Pois bem, mas se o texto do Acordo é para fazer gato-sapato, que regerá ele afinal?

 Ora, nada! A Academia Brasileira das Letras e cada burro escrevem por si.

(*) Nota explicativa ao V.O.L.P. da Academia Brasileira das Letras, pp. LI a LIII.
Imagem de Internet Archive, Open Library.

[Este “post” foi redigido pelo autor do blog Bic Laranja, a nosso convite, tendo sido também ali publicado em simultâneo.]