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A política linguística do Brasil [um estudo de Jacques Leclerc (Canadá)]

[Museu da Língua Portuguesa, S. Paulo – Brasil]
Já aqui reproduzimos alguns conteúdos, tanto em texto como em áudio, que reflectem a visão que têm os estrangeiros em geral e os francófonos ou anglófonos em particular sobre o “acordo ortográfico” da Língua Portuguesa.

O que se segue é um conjunto de excertos (citações) de um estudo, da autoria de Jacques Leclerc, linguista canadiano, precisamente sobre a “política linguística do Brasil” — o que tem obviamente tudo a ver com o AO90.

Para ler em Português, coloque o “pointer” do seu “rato” em cima de cada parágrafo e verá o respectivo texto traduzido.

La politique linguistique à l’égard du portugais concerne deux grands volets: d’une part, le statut de la langue portugaise au Brésil, notamment en éducation et, d’autre part, le code linguistique lui-même, c’est-à-dire le portugais en tant qu’instrument de communication, que ce soit à l’échelle nationale ou internationale. (…)

L’activité brésilienne sur le code linguistique

La Constitution de 1988 (modifiée en 1994) proclame, dans son article 13, le statut officiel de la langue portugaise:

«Artigo 13
A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil.»
Une pareille déclaration dans d’autres pays s’avérerait inutile dans la mesure où la très grande majorité de la population parle la langue officielle comme langue maternelle. Mais il existe près de 200 langues au Brésil, dont 170 langues autochtones et une trentaine de langues immigrantes. Cette disposition sur la langue officielle était absente dans la version de 1988; elle n’est apparue qu’en 1994 lors des modifications constitutionnelles. Manifestement, le législateur a voulu, par cette disposition, renforcer le caractère identitaire du Brésil. Cela dit, toute la vie politique, culturelle, scolaire, économique, etc., se déroule massivement en portugais (brésilien), bien que, comme nous le verrons, l’influence de la langue anglo-américaine pèse d’un poids de plus en plus lourd sur la vie économique et, par voie de conséquence, sur la langue nationale.  

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O AO90 no jornal “The Globe and Mail” de Toronto, Canadá

O que se segue é uma transcrição de texto original em Inglês. Para ler em Português, coloque o “pointer” do seu “rato” em cima de cada parágrafo e verá o respectivo texto traduzido.

‘Brazilian’ is ascending and Lisbon is not amused

STEPHANIE NOLEN
Rio de Janeiro — The Globe and Mail
Published Friday, Oct. 18 2013, 6:00 PM EDT
Last updated Monday, Oct. 21 2013, 1:30 PM EDT

When leading Lusophone linguists convene in Lisbon later this month, their goal will be to return the language of Portugal to the dominance it last enjoyed about 500 years ago, when the tiny European kingdom controlled colonies throughout the known world

The Conference on Portuguese as a Language in the World System will enlist experts to draft an “action plan for internationalization” of Portuguese. But in fact, Portuguese is doing just fine, internationally: The number of speakers is soaring. That ought to be heralded as good news in Lisbon, and yet the ascendance of Portuguese – this particular Portuguese – is causing a certain disquiet in the former colonial power.

The reason? Brazil. This country’s economic and political rise has given a once-fading Old World language new life, but on its own terms. Classes in “Brazilian Portuguese” in North America and Europe are packed with oil and mining executives, jewellers and retailers who need to be able to buy and sell in Rio de Janeiro and Sao Paulo. With Brazil’s surging middle-class travelling internationally, tourist destinations are rushing to bring in guides and texts to woo them in their own language. Writers from Brazil – 70 of them – were featured at this year’s Frankfurt Book Fair, the publishing world’s premiere event.

And just this week, the popular website Buzzfeed announced it was launching new international versions in French, Spanish and Portuguese, with the latter geared toward a Brazilian audience.

Portuguese is now the world’s sixth-most spoken language, with close to 240 million users worldwide. And it is Brazil’s version, which has some significant differences from the European one in grammar and vocabulary, that is spreading. When people speaking Portuguese from Portugal appear on television here, they are frequently subtitled in “Brazilian.”

There are 200 million of us, and not even 11 million of them [in Portugal],” says Tania de Souza Bastos, a Portuguese teacher and linguaphile in Rio. “It only makes sense that ours will be the world’s Portuguese. They have no choice.

This bit of realpolitik is understood, if not relished, in Lisbon.

“In Portugal, it’s obvious that people don’t feel very good that they are adopting the Brazilian norm, in most cases,” says João Vincente Faustino, a scholar with Portugal’s Instituto Camões (which promotes Portuguese globally) who is now a visiting lecturer on Portuguese at the University of Toronto. “In the background, you have the issue of, Are we being dominated by Brazil?”

Brazil’s linguistic clout was first felt in 1990, when diplomats from Lusophone countries held a summit to discuss that highly charged foreign policy matter, spelling. Brazil bullied the Lusophone countries into signing the Acordo Ortográfico – a treaty on how Portuguese words would be spelled.

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«Contra a língua única» [Serge Halimi, “Le Monde diplomatique”, Junho 2013]

Contra a língua única

por Serge Halimi

Mercado único, moeda única, língua única? As portas e as pontes que ilustram as notas europeias já representam a fluidez das trocas entre comerciantes sem raízes nem história. Será que os estudantes também vão ter de sair do seu país sem dicionário, tendo como único passaporte linguístico um inglês de aeroporto, utilizável por toda a parte, em particular nas universidades francesas?

É que parece que estas continuam a estar demasiado «desajustadas à realidade» – tal como o resto do país. Imagine-se, ali continua-se a falar… francês! Geneviève Fioraso, ministra do Ensino Superior e da Investigação, quer eliminar este «obstáculo da língua». Ele estaria a desencorajar «os estudantes dos países emergentes, da Coreia do Sul, da Índia, do Brasil» de irem para França formar-se.

No entanto, há vinte e nove Estados que têm como língua oficial a de Molière (cinquenta e seis a de Shakespeare) e o número de falantes de francês não pára de crescer, em particular em África. Mas, a julgar pelo árduo percurso que em França são obrigados a percorrer, não serão estes os estudantes que o país quer atrair. Eles não são suficientemente ricos, não são suficientemente susceptíveis de pagar as (elevadas) propinas de uma escola de comércio ou de engenheiros.

Nas universidades norte-americanas, onde a percentagem de estudantes estrangeiros (3,7%) continua a ser muito inferior à que existe nos estabelecimentos de ensino franceses (13%), nunca ninguém imaginou resolver este «atraso» ensinando em mandarim ou em português. «Se não autorizarmos as aulas em inglês, seremos cinco a discutir Proust à volta de uma mesa», ironizou, ao menos, Geneviève Fioraso. Nicolas Sarkozy preferia mostrar o seu desprezo pelas humanidades lamentando os estudantes condenados a ler A Princesa de Clèves em vez de estudarem Direito ou Gestão.

A Lei Toubon, aprovada em 1994, determina que «a língua do ensino, dos exames e dos concursos, bem como das teses e dissertações nos estabelecimentos públicos e privados de ensino é o francês». Opondo-se a esta regra «que data do século passado», um punhado de prestigiados universitários entendem que a defesa do multilinguismo (ainda bem viva, neste século, na maioria das organizações internacionais…) estaria a dissuadir os anglófonos de irem estudar para Paris [1].

Mas a «atractividade» de uma língua não se resume à venda de formações aos países emergentes. Ela afirma-se nos intercâmbios com outros, pensando o mundo, incluindo o mundo que aí vem. Poderá a França, que lutou para defender o seu cinema e a sua excepção cultural, aceitar que um dia a investigação científica e a ciência se exprimam unicamente no idioma, aliás muitas vezes maltratado, da superpotência?

«O paradoxo actual», salienta o linguista Claude Hagège, «é que a americanização, a promoção do inglês, é feita por outros que não os americanos». Outros que não os franceses – em particular em África e no Quebeque – permitiram a resistência do pluralismo linguístico. A sua persistência merecia que os responsáveis políticos se inspirassem mais nela do que no fatalismo totalitário de um pequeno número de universitários.

[Transcrição integral (versão para impressão) de Editorial do jornal “Le Monde diplomatique” de Junho 2013.]

[Via “blog” Delito de Opinião.]

Honte.


[“click” na imagem para ouvir (em nova “janela”)]
«La chronique inter avec Olivier Bonamici à Lisbonne: une importante réforme de l’ortographe»
Radio Canada, Montréal, Canadá, 28 de Fevereiro de 2012.

«Le créole brésilien remplace officiellement le portugais au Portugal», por Céline Tabou.
Jornal “Témoignages”, ilha Reunião (França), 9 de Março de 2012.