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«O direito de ser atropelado» [Maria Filomena Molder, “Público”, 04.05.15]

publicoOpinião

O direito de ser atropelado

Maria Filomena Molder

04/05/2015 – 00:32

Ao contrário do que diz, a escrita é um repositório de enxames de significações ancoradas em redes etimológicas e um tesouro da memória. Na medida do possível, a ortografia deveria evitar o seu apagamento.

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No passado dia 14 de Abril realizou-se na Faculdade de Letras da UL um Fórum Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico” de 1990, cujo cartaz suscitou reacções sensíveis por parte do “Ciberdúvidas”.

Além de apontar para um erro ortográfico, a saber, a falta de um hífen e de um ponto em 3ªfeira – o que, no meio do caos generalizado e serenamente ignorado, soa a lágrimas de crocodilo –, remeteu o leitor para a reacção do historiador Paulo Pinto publicada no blogue “Jugular”, e ainda para um artigo do mesmo autor publicado em 2013 no nº 177 da Revista Brotéria.

Fui ler. Quanto ao primeiro texto, o historiador converteu-se em director de consciência dos autores do cartaz e promotores do Fórum, acusando-os de enxovalhar a inocência do AO90. Ora, nós sabemos bem que só depois da aplicação experimental do AO90 estes erros monstruosos – “pato de regime”, “abruto”, “apocalise”, “pseudo-inteletual”, “fatos ocorridos”, “deixe o seu contato”, etc. – começaram a surgir nos documentos oficiosos e institucionais, bem como nos meios de comunicação. A lista é devastadora. Há quem a tenha actualizado: Fernando Venâncio, “O ACORDISMO EM NEGAÇÃO”, por exemplo. Só não vê quem não quer. É o caso do “Ciberdúvidas” e do historiador Paulo Pinto, que passam por tais provas incontestáveis como cães por vinha vindimada.

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Equação “vetorial” da “reta”: 1,6% + 98,4% de mentiras

«No plano, uma equação vetorial da reta r que passa no ponto A (a1,a2) e tem a direção do vetor»
Matemática.pt

«As alterações na nova ortografia vão afectar cerca de 0,5 por cento das palavras no Brasil, enquanto nos outros sete países lusófonos, que adoptam a ortografia de Portugal, 1,6 por cento das palavras serão alteradas, escreveu o Folha online.»
Ciberdúvidas

“Para sempre uma preposição”

Alto e pára o baile!

Este é um caso excepcional. Não integrará o índice cAOs, pela simples (e nada surpreendente) razão de que não existe uma única ocorrência de “para para” na Internet; ou, melhor dizendo, as ocorrências de “para para” que se podem encontrar são todas de “explicações”, qual delas a mais esfarrapada, para tentar enfiar aos portugueses, goela abaixo, essa inacreditável treta de que expressões como “para para pensar” ou “alto e para o baile”, por exemplo, fazem alguma espécie de sentido.

Na primeira imagem temos, com “explicações” a tiracolo e tudo, a tese acordista das 2.ªs, 4.ªs e 6.ªs Feiras: ah, e tal, o contexto “distingue”.

Na imagem seguinte, igualmente com penduricalhos “explicativos”, podemos ler (com alguma dificuldade, porque é preciso não desatar a rir) a tese acordista das 3.ªs, 5.ªs e Sábados: ah, e tal, o contexto “evita a confusão” mas afinal não era preciso evitar a confusão porque não sei quê, há ali uns acentos que não são necessários, ou assim, se não é disso por outra coisa será, depois se vê, seja o que Deus quiser, ámen, adiante.

Na terceira imagem temos uma espectacular demonstração de como são mesmo esfarrapadas as “explicações” acordistas e de como as suas duas teses (das quais descansam ao Domingo, que é Dia Santo) não passam de tergiversações inconsequentes, verborreia tola travestida de paleio técnico a ver se com tais patranhas enganam alguma alminha mais distraída.

O facto é que no Brasil, tanto na “norma culta” como na “inculta”, pronuncia-se a preposição “para” e a forma verbal “pára” exactamente da mesma maneira, com os mesmos exactos sons. Porém, a preposição já caiu em desuso (ou seja, esta já não é uma “consagração pelo uso”, é uma “consagração pelo desuso”) e por isto mesmo os brasileiros eliminam a “confusão” escrevendo como falam. Não há “para para” coisa nenhuma, o que há é “para pra”.

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«Assim, a forma verbal “para” deixa de ter acento gráfico, embora conserve a vogal inicial aberta e passa a ser o contexto a distingui-la da preposição simples “para”.

Ora, regra geral, as palavras portuguesas são graves e, por isso, não necessitam de acento gráfico. Antes do novo acordo, acentuavam-se quase todas as que tinham uma correspondente homógrafa, de modo a serem distinguidas. Agora é apenas o contexto que as distingue (…)»
Jornal de Notícias


«O sentido da regra é a simplificação. Pára tem tido acento para não se confundir com a preposição para, mas a verdade é que o contexto normalmente evita a confusão.

Tem de aceitar que as frases que apresenta são todas agramaticais, se considerarmos a grafia para sempre uma preposição.»
Ciberdúvidas


“Blog” O Divã Dellas

«Escamotear os problemas» [por Vasco Graça Moura]

No seu artigo “O português na encruzilhada” (Expresso, 2 de Março de 2013), Margarita Correia procura caracterizar dois caminhos para a língua portuguesa.

Vejamos a caracterização que ela faz desses caminhos, começando por aquilo a que chama “via A”.

“A via A corporiza-se no desmembramento da unidade transnacional do português, através do afastamento progressivo (mais político que linguístico) das suas variedades nacionais, podendo conduzir ao surgimento de novas línguas.”

Nunca ninguém defendeu o desmembramento da unidade transnacional do português, nem o afastamento progressivo das suas variedades nacionais. O AO é que, ao não consagrar critérios para a incorporação de vocábulos das línguas nativas (africanas, por exemplo), adopta uma atitude neo-colonialista e abre a porta ao tal afastamento progressivo das variedades nacionais.

“a) a língua tem um país-dono, de onde é originária, a que compete em exclusivo a sua regulação”.
É absolutamente falso! Esta facticidade é fabricada para permitir a objecção. Ninguém defende que Portugal seja dono da língua nem que lhe compita o exclusivo da sua regulação. Os autores do AO é que consideraram Portugal e Brasil os únicos países-donos da língua, esquecendo todos os outros que a falam.

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«A falsa unidade ortográfica» [Maria Regina Rocha, PÚBLICO, 19.01.2013]

 O Acordo Ortográfico está em causa. Instituições e publicações há que o aplicam; outras, que o rejeitam. O grande público contesta-o, e a esmagadora maioria dos cidadãos não consegue compreender o que se está a tentar fazer à Língua Portuguesa.

Efectivamente, embora genericamente as pessoas estejam contra esse acordo, infelizmente a forma como se extremaram posições levou a que, num determinado momento, quem tinha o poder político lhe conferisse força de lei, sem uma atenta e lúcida reflexão sobre o mesmo e as suas gravíssimas implicações, sobretudo de natureza linguística e cultural, com repercussão no ensino e no domínio da língua.

Como ainda estamos em fase de transição e as leis são os homens que as fazem, esperemos que as razões serenas e lúcidas se imponham e façam com que aqueles que representam o povo legislem de acordo com o supremo interesse do país e da língua portuguesa, seja ela falada onde for.

Lembro apenas, como precedente, que o Acordo Ortográfico de 1945 foi nessa data assinado por Portugal e pelo Brasil, que o Brasil o tentou aplicar durante dez anos e que, em 1955, rendido à especificidade do registo ortográfico da variante do Português do Brasil, revogou esse acordo. Assim, se Portugal tomar a iniciativa de reflectir e, com razões ponderosas, reformular o texto do Acordo actual, não fará nada de inédito nem beliscará as relações entre os países envolvidos. Aliás, será de referir, ainda, que, recentemente, o próprio governo brasileiro anunciou que vai adiar a obrigatoriedade da aplicação do acordo para 2016…

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Francisco Miguel Valada subscreveu a ILC

Francisco Miguel Valada nasceu no Porto e vive actualmente em Bruxelas. É intérprete de conferência.

Autor do livro Demanda, Deriva, Desastre — os três dês do Acordo Ortográfico (Ed. Textiverso, 2009), publica regularmente conteúdos sobre a Língua Portuguesa em geral e o Acordo Ortográfico em particular, do qual é, aliás, um opositor determinado. Algumas das suas intervenções públicas podem ser encontradas, por exemplo, no site Ciberdúvidas ou em artigos de imprensa, além de participações diversas em entrevistas e debates sobre a Língua Portuguesa e ainda uma presença marcante em vários grupos de acção e iniciativas nas redes sociais, nomeadamente no Facebook.

Subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

Francisco Miguel Valada nasceu no Porto em 1972. É licenciado em Tradução pela ESTG do Instituto Politécnico de Leiria e pós-graduado em Interpretação de Conferência pela Universidade do Minho. Foi professor assistente na ESTG do Instituto Politécnico de Leiria. É Intérprete de Conferência de língua portuguesa, tendo exercido durante três anos como intérprete residente da cabina portuguesa do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias no Luxemburgo. Exerce actualmente em regime de profissão liberal, domiciliado em Bruxelas.
“Demanda, Deriva, Desastre – Os três dês do Acordo Ortográfico”, Alcochete/Leiria, Textiverso, 2009, foi a sua primeira publicação em formato livro, apresentada sucessivamente em Leiria, Porto, Lisboa, Bruxelas (Bélgica) e Luxemburgo.

[Transcrição do perfil de autor no site da Textiverso.]

Nota: esta publicação foi autorizada pelo/a subscritor/a.

Mentira(zita) e contradição(zita)

9. Por fim, quinta e última questão, a questão do espanhol e do inglês ou as comparações absurdas.
Ouço dizer: o Inglês  não tem acordo ortográfico e passa muito bem sem ele. Omite-se aqui que as oscilações ortográficas em Inglês (que, aliás, estão dicionarizadas) são muito reduzidas e também que, nele, a relação entre grafia e pronúncia é muito mais convencionada do que em Português; e falta  aprofundar  um pouco a questão, para chegarmos a uma resposta  óbvia: o Inglês não tem acordo ortográfico, porque simplesmente não precisa dele. E não precisa porque o seu esmagador poder linguístico é sobretudo um efeito de outros poderes que arrastam e praticamente impõem aquele poder linguístico: o poder político, o poder económico, o poder tecnológico, o poder cultural, etc. Numa palavra: o poder.

No caso do  Espanhol  importa ir um pouco mais longe e  lembrar que  a emancipação política da América Latina de colonização espanhola conduziu à fragmentação em cerca de uma vintena de países. Isso permitiu a sobrevivência de Espanha como uma espécie de “metrópole” europeia  com um certo ascendente  no plano linguístico; um ascendente que se reforça pelo labor de uma vigorosa política de difusão da língua, com a qual Portugal muito tem a aprender. Nessa política de língua intervém  a Real Academia Española, sendo inequívoco que esta última tem, no universo da Língua Espanhola, um prestígio normativo considerável: tenha-se em vista a capacidade de determinação e também de incorporação lexical que o Diccionario de la Lengua Española  possui, no vasto universo que cobre; uma capacidade de determinação que, evidentemente, vale por um amplo, tácito e respeitado acordo linguístico. Acresce a isto que, nos nossos dias, a Espanha é também uma potência económica, o que ajuda a fazer do Espanhol (e já não apenas naquele vasto espaço post-colonial, note-se) uma espécie de “inglês latino”.

Carlos Reis, in Ciberdúvidas

1. Incongruência(zita)

“as oscilações ortográficas em Inglês (que, aliás, estão dicionarizadas) são muito reduzidas”

Mas então o principal argumento não era a dos “apenas” 1,45%? Quer dizer: no Inglês, como são poucas as diferenças, não há necessidade de uniformização; já no Português, é necessário uniformizar porque as diferenças são poucas!

2. Lacuna(zita)

“a questão do espanhol e do inglês”

Então e o Francês? No MS-Word, existem 15 correctores ortográficos para Língua francesa: Suíça, Senegal, Reunião, RDC, Mónaco, Marrocos, Mali, Luxemburgo, Índias Ocidentais, Haiti, França, Costa do Marfim, Canadá, Camarões, Bélgica.

3. Ignorância(zita)

“o Inglês não tem acordo ortográfico, porque simplesmente não precisa dele”

Para Inglês, são 18 correctores ortográficos! E para Espanhol, são “só” 20!

4. Conclusão(zita)

Quanto ao Português… são 2!!! Apenas existem dois correctores, respectivamente para Português europeu (padrão) e para Português do Brasil.

Todos os diferentes glossários do MS-Word (como de qualquer outro processador de texto) incluem as variações ortográficas em conformidade com o país seleccionado. No caso de o utilizador importar ferramentas linguísticas (FLIP, por exemplo, no caso do Português europeu), também as variações sintácticas podem ser diferencialmente detectadas.

Assim como para o Inglês, o Francês e o Espanhol existe apenas um código de página (conjunto de caracteres), também para o Português existe apenas um (comando DOS: CHCP), 0 860.

Para ver as possibilidades de selecção de correctores, no MS-Word: Ferramentas/Tools, Idioma/Language, Definir Idioma/Select Language.