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«Vamos concordar em discordar » [Boss AC, “Correio da Manhã”, 22.02.15]

Vamos concordar em discordar

O povo sempre disse ‘a falar é que a gente se entende’, ninguém disse ‘a escrever é que a gente se entende’.Boss AC22.02.2015 00:30
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Então e o novo acordo ortográfico? Já foi mais novo. E de acordo, tem pouco.

Os estudiosos da língua andam há anos de volta deste documento, que já foi assinado em 1990 mas que teima em não conseguir consenso. Enquanto isso, a juventude (e não só) anda por aí completamente de acordo com as abreviaturas e os pontapés na gramática. Camões, se estivesse vivo, já teria palas nos dois olhos só para não ser testemunha deste atropelo à língua.

Se a ideia do acordo era unificar a língua portuguesa, acho que estão a fazer um excelente trabalho. O ideal talvez seja liberalizar por completo e cada um escreve como bem lhe entender.

O acordo trará claras vantagens para toda a lusofonia. Resta saber quais. E passar da teoria à práctica, claro está.

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Uma “avertência” da “aministração” e o “Islã”

«De acordo com informação divulgada pela KCNA, a agência noticiosa estatal de Pyongyang, a avertência foi feita pelo porta-voz do Comité da Paz da Ásia-Pacífico da Coreia do Norte (…)»

jornal “Correio da Manhã


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Da “corrução” ao “dado fatual”, passando pela “interrução”

Em Portugal uns 80% dos Concursos públicos são corrutos, sugere uma Sondagem da União Europeia

Ontem O Economista Português revelou que 42% dos empresários portugueses queixavam-se da corrução nos concursos públicos, e outros processos de compra pelo Estado.

Alguns leitores pensaram que eram corrutas cerca de 42% das compras públicas.

[Extractos de “post” do “blog” O Economista Português. Divulgado no “mural” da ILC-AO no Facebook  em 28.12.14 às 17:21h.]


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«Geopolítica ortográfica» [Luciano Amaral, “CM”, 03.02.14]

Na sexta-feira, o Acordo Ortográfico foi discutido no parlamento. Infelizmente, daí não resultou a possibilidade de suspender a sua aplicação. O Acordo não é uma questão ortográfica. É uma questão política. Não é ortográfica porque não cumpre o seu próprio propósito de unificar a ortografia. Sem o Acordo, a semelhança ortográfica entre Portugal e Brasil era de 96% das palavras; com o Acordo, passa a 98%. Ou seja, quase nada. Sendo que as confusões se multiplicaram. E já muita gente as enumerou.

O Acordo nasce de duas coisas: do delírio português de que existe uma entidade chamada ‘Lusofonia’ que pode ter um grande peso geopolítico mundial, e da ambição do Brasil em ser uma potência.

As duas casam bem, porque desde há muito que os portugueses só entendem a sua imaginada grandeza como algo para além de Portugal: antes era o império, agora é a Lusofonia (noutras versões, a Europa). A coisa vai tão longe que chega muitas vezes ao ponto da anulação do país. O padre António Vieira, perante a ameaça espanhola de 1663, aconselhava D. Luísa de Gusmão a esquecer Portugal e mudar-se para o Brasil para fundar o V Império; D. Rodrigo de Sousa Coutinho, no fim do século XVIII, dizia que a parte europeia de Portugal não era a “mais importante”, pelo que a rainha Maria devia ir para o Brasil; D. João VI fugiu mesmo para o Brasil quando Napoleão cá entrou em 1807, e não queria voltar. Hoje, também a Lusofonia só pode sonhar em ser um actor geopolítico graças ao Brasil.

É típico da elite portuguesa. Como o campónio que esquece as origens, sonha com os grandes espaços, a Europa, a América. Tudo menos o Portugalzinho triste e acanhado.

Diz que o Acordo é preciso para o português passar a língua oficial da ONU. Pois há um acordo muito mais simples: cada país escreve como quer.

O inglês, cuja ortografia varia de país para país e é das mais contra-intuitivas, não precisou de nada disto para ser a mais importante língua do mundo.

O preâmbulo do Acordo diz que ele é essencial para o “prestígio” da Lusofonia. Prestígio era recusar a adesão da Guiné Equatorial à dita Lusofonia.

Mais uns litros de petróleo e uns quantos bancos salvos da falência não justificam tal coisa.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Luciano Amaral, publicado no jornal “Correio da Manhã” em 01.03.14. “Links” e destaques adicionados por nós.]

Juiz Rui Teixeira proíbe o ‘acordo ortográfico’ [CM, 26.05.13]

RUI TEIXEIRA PROÍBE ACORDO ORTOGRÁFICO

Magistrado alega que as “actas não são uma forma do verbo atar” e que“ os cágados continuam a ser animais e não algo mal cheiroso”.

O juiz Rui Teixeira, que conduziu a instrução do processo ‘Casa Pia ’e que agora está colocado no Tribunal de Torres Vedras, não quer os pareceres técnicos sociais com o novo Acordo Ortográfico. Os pareceres (relatórios sobre a situação social dos envolvidos em julgamentos) são elaborados pela Direcção Geral de Reinserção Social.

Em Abril, a DGRS recebeu um pedido de relatório social acompanhado de uma nota: “Fica advertida que deverá apresentar as peças em Língua Portuguesa e sem erros ortográficos decorrentes da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros 8/2011 (…) a qual apenas vincula o Governo e não os Tribunais”.

Os serviços da DGRS pediram um esclarecimento e Rui Teixeira respondeu: “Não compete aos Tribunais ensinar Leis aos serviços do Estado. É de presumir que a DGRS tenha um serviço jurídico e se não o tiver o Ministério da Justiça tem-no de certeza”.

[Transcrição integral de notícia do “Correio da Manhã” de 26.05.13.]

Já anteriormente também o Sr. Dr. Juiz Rui Estrela de Oliveira, de Viana do Castelo, tomou uma posição pública semelhante.

«Um “acordo” cada vez mais “corruto”» [Nuno Pacheco, PÚBLICO, 13.01.2012]

Há boas e más maneiras de começar o ano. Entre as boas, conta-se a reabilitação das tradicionais Janeiras, que José Barros e os Navegante levaram ao Olga Cadaval, em Sintra, na véspera do Dia de Reis. Uma festa com temas tradicionais de Trás-os-Montes, Alentejo, Beira Baixa e Algarve, onde não faltou, no exterior, fogueira e prova de queimada galega, herança medieval de aguardente a arder (sim, com fogo mesmo). Quem assistiu aplaudiu com razão. Porque a memória de Portugal teve, ali, nota alta.

Entre as más, está a renitência em reconhecer o desconchavo do acordo ortográfico (AO). No início do ano, um jornal que até aqui (e bem) não o aplicava, o ‘Correio da Manhã’ (CM), cedeu. O pior está menos na cedência do que na argumentação. “A nossa prioridade”, escreveram dias antes, “é tornar a comunicação mais fácil”. Mas onde a trapalhada se insinua é quando, para garantir a tal “comunicação fácil”, o ‘CM’ escreve isto: “Nesse sentido, nas palavras que admitem dupla grafia, optámos por manter tal como na “escrita antiga” [sic].” Ah, e escreverão “pára” e não “para”, no verbo parar.

Querem ver a lista? É uma delícia. Escreverão, de futuro, ceptro e não ‘cetro’, amígdala e não ‘amídala’, espectador e não ‘espetador’; mas escolhem (porque a moderna “ortografia” é mesmo ‘a la carte’) ‘carateres’ em vez de caracteres,’receção’ em vez de recepção, ‘setor’ em vez de sector, ‘conceção’ em vez de concepção, ‘cato’ em vez de cacto. Grafia antiga? Fantástico. Mais fantástico ainda é confundir-se “duplas grafias” (mesmo ‘a la carte’) com grafias de uso corrente em Portugal e no Brasil há décadas. Ou seja, o ‘CM’ orgulha-se (para garantir a tal “comunicação fácil”) de escrever omnipotente, indemnizar, facto, subtil, sumptuoso, súbdito, académico, topónimo e não ‘onipotente’, ‘indenizar’, ‘fato’, ‘sutil’, ‘suntuoso’, ‘súdito’, ‘acadêmico’, ‘topônimo’, quando tais variantes não têm escolha possível. Por que motivo escreveríamos ‘Antônio’ ou ‘bebê’ se em Portugal dizemos António e bebé? Ou ‘sutil’, se dizemos e escrevemos subtil? Será isto uma “escolha”? Não, não é. Mas o mais inacreditável é o ‘CM’ dizer que escreverá aritmética e não ‘arimética’, corrupto e não ‘corruto’, fêmea e não ‘fémea’, dicção e não ‘dição’. Vamos por partes: no Brasil, apesar de alguns livrecos “modernos” consignarem tais “variantes”, diz-se e escreve-se aritmética e corrupto. Com t e p. Quanto a “dição”, existe na verdade, mas não tem nada a ver com dicção. Significa “domínio, autoridade”, enquanto dicção é o acto ou maneira de dizer ou de pronunciar. Já “fémea” só pode ser puro delírio de quem não sabe o que escreve.

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