Arquivo de etiquetas: deputado

“A verdade? O que é a verdade?” Pôncio Pilatos (João, 18:38)

«Acordo ortográfico será discutido em audiências públicas»
Título de “press release” do Senado Federal do Brasil, 19.08.14

«Os encontros do GTT são internos e fechados ao público. Portanto, a CE não pode divulgar suas datas ou quem participa de cada um deles.»
Citação de notícia de “Congresso em foco”, 20.08.14

Senado decide reabrir debate sobre novo acordo ortográfico

A Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado vem aprofundando o debate nacional a respeito do acordo ortográfico da língua portuguesa. Professores e linguistas consultados e atendidos pela comissão têm usado o espaço para trocar opiniões a respeito da data oficial de implantação definitiva do acordo e de possíveis alterações em seu conteúdo.

Os debates são realizados no âmbito de um grupo de trabalho técnico (GTT) montado pela comissão, que reúne o Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa (Cellp), a Academia de Letras de Brasília (ALB) e o movimento Simplificando a Ortografia. Além dessas entidades, a Associação Brasileira de Linguística (Abralin) procurou a comissão para apresentar sua posição.

Os encontros do GTT são internos e fechados ao público. Portanto, a CE não pode divulgar suas datas ou quem participa de cada um deles. No entanto, a comissão planeja trazer à tona os temas debatidos ao longo dos últimos meses em uma audiência pública, prevista para outubro. Atualmente não há nenhuma proposição formalizada na comissão a respeito do assunto.

O presidente da CE, Cyro Miranda (PSDB-GO), disse acreditar que um debate abrangente a respeito do acordo ortográfico é urgente. “Tínhamos um acordo que não era acordo. A reforma foi feita sem ouvir ninguém. A comissão resolveu botar ordem na casa e tomamos a medida de convocar o debate, disse.

O senador rejeita a possibilidade de promover mudanças profundas nos termos do acordo, mas ainda não vê uma solução definitiva próxima. “Não queremos fazer uma reforma geral da ortografia. Queremos fazer o mínimo possível de mudanças, mas chegar a um consenso entre os países. Ainda estamos longe disso. As autoridades competentes têm que se envolver mais. Só a comissão se movimenta”.

Continuar a ler“A verdade? O que é a verdade?” Pôncio Pilatos (João, 18:38)

Revelação bombástica de Pimentel: quem assinou o AO90 estaria bêbedo?

«Os outros países assinaram o acordo em uma semana em que estiveram em Portugal bebendo vinho, sem entender direito.»
Ernâni Pimentel, 18 de Agosto de 2014

Ah, pronto, assim compreende-se…

“Caza com ‘z’ continua sendo um substantivo”, diz professor que propõe alterações no Português

Ernani Pimentel coordena a Comissão de Educação do Senado, cujo projeto pretende facilitar a escrita da língua
por Bruna Scirea
18/08/2014 | 13h05

Um projeto para alterar (mais uma vez) as normas ortográficas da língua portuguesa está em elaboração pela Comissão de Educação do Senado. Se o novo acordo for aprovado, a partir de 2016 não vai mais existir “Homem” com “H” maiúsculo. Nem com minúsculo.

Entre as regras que devem ser apresentadas para avaliação no próximo mês, está o desaparecimento do “h” no início de palavras, e a abolição total do “ç”, do “ch” e do “ss”.

Confira abaixo a entrevista com o professor de português Ernani Pimentel, um dos coordenadores do grupo técnico da Comissão de Educação do Senado.

——————————————————

Zero Hora — Que mudanças devem ser propostas?

Ernani Pimentel — O hífen pode ser abolido. Ele não existia no latim. Antes do acordo, ninguém sabia as regras antigas. Agora, ninguém sabe as regras atuais também. Ponto. Significa que não funciona. Outro problema é o do “j” e do “g”. Esses dias vi duas placas em Genipabu, uma tinha a inicial “G” e a outra “J”. É uma confusão. Como se resolve isso? Transformando a letra “G” em “gue”. Todo som que tenha o “u” no meio, vai ser com “g”. O resto, como Genipabu, vai ser escrito com “J”.

ZH — E o “ch” e o “x”?

Pimentel — A regra do “x” e do “ch” é muito simples (ironia): as palavras indígenas, árabes e de origem africana são escritas com “x”. Agora, quem é que sabe das origens das palavras?

ZH — E o que esse projeto elaborado pelo grupo técnico pretende?

Pimentel — Fazer com que a escrita e a leitura sejam mais simples. As novas regras não vão mexer na língua. Tem muita gente mal informada em relação a isso. Se eu escrever “casa” com “z”, ela vai continuar sendo um substantivo, funcionando como objeto direto, como predicativo do sujeito, etc. A língua continua do jeito que é, só vai mudar a forma de escrever.

ZH — Por que a obrigatoriedade do acordo teve de ser adiada do fim de 2012 para 2016?

Pimentel — O acordo teve muitos problemas para ser implantanto. Vou te dar um exemplo. Não existe um professor que consiga dizer: “eu sei as regras ortográficas”. E se o professor não souber, ninguém vai saber. Esse projeto foi feito a portas fechadas, não houve discussão. A Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Academia das Ciências de Lisboa decidiram sozinhas, sendo que elas não têm conhecimento suficiente para isso. Cada uma tem apenas um filólogo, que é o que entende de língua. Então foram duas pessoas que definiram um acordo todo.

ZH — E os outros países de língua portuguesa?

Pimentel — Os outros países assinaram o acordo em uma semana em que estiveram em Portugal bebendo vinho, sem entender direito. Esse acordo foi assinado em 1990 e ficou parado um tempo. Dezoito anos depois, ele foi transformado em lei. Só que o pior ainda é que essas regras ortográficas haviam sido discutidas em 1975, o que significa dizer que você vai colocar em vigor uma maneira de pensar da época da ditadura, com base no “decoreba”.

ZH — E como o Senado entrou no processo?

Pimentel — O Senado ouviu reclamações de muitas pessoas da sociedade e acabou fazendo duas audiências públicas. A ABL foi chamada, assim como o Ministério da Educação (MEC). Nenhum dos dois foi. O governo se ausentou porque não tinha o contra argumento. A ortografia é um patrimônio de todo mundo e o debate aberto deve ser provocado.

ZH — Mas essas mudanças deverão encontrar uma enorme resistência…

Pimentel — Pergunto para você, o que você acha dessas ideias?

ZH — Bom, acho que teria medo de desaprender o pouco de gramática que já sei…

Pimentel — Você não vai desaprender o que sabe. Você vai é aprender o que nunca soube. Tudo vai ficar mais fácil, as pessoas vão optar pelo comodismo. Não temos dúvida de que a ortografia tem que ser simplificada para melhorar o ensino no Brasil e nos outros países também. As regras de hoje deixam os alunos com trauma de escrever e de ler. E se eles não sabem isso, não aprendem nada.

[Transcrição integral de notícia do jornal “Zero Hora” (de Porto Alegre, Brasil) publicada em 18.08.14. “Links” e destaques inseridos por nós.]

Agradecimentos a Marcelo Soriano, do Brasil, pela indicação da notícia.

«Senadores querem nova reforma ortográfica» [notícia do Senado brasileiro, 07.08.14]

Ora aí está de novo o “projeto” mas desta vez de forma não apenas oficial, visto que é o próprio Senado brasileiro quem publica a notícia, como também já temos o dito “projeto” calendarizado, estão nomeados os respectivos intervenientes, estabelecidos os passos a seguir e os “objetivos” a prosseguir: podendo entrar em vigor “já em 2016” nos oito países da CPLP, de que Portugal faz parte, irá ser produzida uma “nova reforma ortográfica” porque o AO90 não foi “suficientemente longe” na “simplificação” da Língua Portuguesa.

Em suma, é isto.

Em que consiste esta “reforma da reforma“, no que à Ortografia diz respeito, é algo que o próprio texto da notícia “esclarece”. Sabendo-se agora que este novo acordo ortográfico (AO16?) será feito “em cima” do anterior acordo ortográfico (AO90) e que será “votado” por tele-conferência (não, não é brincadeira, ou, melhor dizendo, é mas está na notícia), então pelos vistos a sua “aprovação” estará por essa via dada por garantida pelos autores “disto”.

Já quanto ao que significa “isto” para todos nós, portugueses (e angolanos e moçambicanos e cabo-verdianos e guineenses e são-tomenses e timorenses), o que significa “isto” em termos históricos, culturais e identitários para sete das oito nações de Língua oficial portuguesa, bom, digamos que “isto” significa…

Se calhar é melhor não dizer. Toda a gente sabe.

Notícia

Senadores querem nova reforma ortográfica

07/08/2014
Cristiane Britto

Projeto propõe a extinção da letra “h” no início das palavras e a troca de todas as expressões com “ch” pelo “x”

SENADOR CYRO MIRANDA disse que serão realizadas videoconferências com professores de países como Portugal e Angola para depois colocar o projeto em votação.
LEONARDO SUSSUARANA

A Comissão de Educação do Senado está desenvolvendo um projeto que pretende trazer mudanças nas atuais regras da língua portuguesa. Por meio de um grupo técnico de trabalho, os senadores vão propor novas regras para simplificar a ortografia e facilitar o ensino e a aprendizagem da escrita.

De acordo com algumas propostas do projeto, haveria a exclusão do “h” inicial, passando palavras como homem e hoje, por exemplo, a serem escritas omem e oje.

Continuar a ler«Senadores querem nova reforma ortográfica» [notícia do Senado brasileiro, 07.08.14]

28 de Fevereiro de 2014: «O dia mais triste» [deputado Mendes Bota, 14.03.14]

CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO

Mendes Bota reiterou publicamente a sua oposição à continuidade do processo de aplicação do Acordo Ortográfico. Tudo tentou para que o seu grupo parlamentar, o PSD, assumisse uma posição diferente. Consequentemente, e a propósito da votação dos projectos de resolução nºs 196/XII/3ª, 890/XII/3ª e 965/XII/3ª, Mendes Bota exprimiu a sua discordância, a 28 de Fevereiro de 2014, em declaração de voto, considerando este o “dia mais triste” do seu percurso parlamentar”.

[Mensagem recebida por email, em “newsletter” com data de 14.03.14. “Links” inseridos por nós.]

No rescaldo do 28F

Passada a tempestade, passada a chuva de artigos de opinião sobre o que aconteceu na Assembleia da República no dia 28 de Fevereiro, é chegada a altura de reflectir com calma e ponderação.

O que se passou, exactamente, naquela fatídica sessão parlamentar?

O PCP e o um grupo de três deputados do PSD/CDS parecem ter sido os únicos a interpretar a vontade da esmagadora maioria da população, apresentando Projectos de Resolução que poderiam levar, em última análise, ao fim do desastre ortográfico em Portugal. Em rigor, a proposta do PCP era a única consequente e coerente, que não só retirava as devidas conclusões do relatório do Grupo de Trabalho sobre o AO (VIII Comissão) como propunha soluções para o futuro.

O deputado Mendes Bota interveio junto do seu grupo parlamentar e, aparentemente, propôs alterações ao Projecto do PSD/CDS, no sentido de o tornar mais eficaz. Infelizmente, com o passar das horas, o que aconteceu foi exactamente o contrário: a proposta do PSD/CDS foi-se diluindo numa rede de compromissos e de negociações à porta fechada, acabando aquele Projecto de Resolução por se transformar num articulado inócuo. Na prática, limita-se a recomendar ao Governo a constituição de um Grupo de Trabalho de acompanhamento da implementação do AO, sem poderes para criticar e muito menos para propor a suspensão essa mesma implementação.

Entre os argumentos invocados para que não se equacionasse a suspensão do AO, vários deputados referiram o compromisso assumido por Portugal com a subscrição de um Tratado Internacional. É um argumento curioso, porquanto assistimos placidamente ao funcionamento de uma Comissão do Senado Brasileiro que tem como função específica a alteração desse mesmo Tratado.

Em resumo, os deputados do chamado “arco governativo” demonstraram que, pelo menos nesta matéria, não representam os eleitores que neles votaram — e assim se passou ao lado de uma excelente oportunidade para resolver de imediato um problema criado por quem, há mais de vinte anos, teve a infeliz ideia do “acordo” que o AO90 personifica.

Continuar a lerNo rescaldo do 28F

«O (des)acordo ortográfico?» [Feliciano Barreiras Duarte, jornal “i”, 05.03.14]

Nota prévia de ILC AO
Feliciano Barreiras Duarte foi o deputado que produziu o relatório final sobre a Petição/Manifesto de Vasco Graça Moura e outros, há quase 5 anos.
Neste texto vem expor mais uma vez a já velha e gasta rapsódia da “revisão” do AO90, essa “curiosa” mania de alguns, mas mesmo assim lá vai dizendo algumas coisas de interesse.

O (des)acordo ortográfico?

Por Feliciano Barreiras Duarte
publicado em 5 Mar 2014 – 05:00

“É longo o caminho do projecto à coisa” – Molière

Ao debater-se e fazer-se a avaliação da aplicação do Acordo Ortográfico em Portugal e nos demais estados do espaço lusófono, devemos fazê-lo sem abusar do generalismo e da ironia. Independentemente de sermos a favor ou contra, não só da sua aprovação, mas acima de tudo da sua suspensão e ou alteração e melhoria. Porquanto se trata de uma matéria respeitante apenas ao Estado e à soberania. E nessa discussão não nos devemos deixar (salvo melhor opinião) iludir com a “doutrina da inevitabilidade” a que alguns, por desconhecimento, nos querem fazer resignar. Sabendo-se, infelizmente, que nos tempos em que vivemos, para muitos, esta é matéria é aborrecida, densa e que dá trabalho perceber, estudar, compreender. Aliás, muitos dos que emitem opinião sobre matérias desta natureza acham mais normal colocar um post num blogue ou fazer comentários no facebook, em brevíssimos minutos, que pegar de caras uma matéria que mexe com a reserva não escrita não só da nossa soberania, mas sobretudo no baú único e imaterial da nossa genética e evolução linguística, dentro e fora de portas. Não é por acaso que mesmo depois da aprovação formal do Acordo Ortográfico em Portugal e fora de Portugal passamos a vida a falar do Acordo Ortográfico. Entre as múltiplas razões para essa discussão permanente, sobressai, quanto a mim, uma que é lapidar. Na forma e no conteúdo, o Acordo foi aprovado à pressa, não fazendo parte do seu conteúdo vários aspectos “técnicos” que o tempo veio a provar que eram (são) pontos fracos graves. Mesmo para alguns dos seus principais defensores, como o professor Carlos Reis (que realizou um excelente estudo sobre a importância económica da língua portuguesa), que já fez saber da necessidade de se proceder a várias alterações. Por forma a que a língua portuguesa tenha condições, por via do Acordo Ortográfico, para se assumir como um dos instrumentos mais estruturantes e integradores de todo o espaço lusófono. Por isso devem-se aproveitar todos os contributos para que assim seja. Em particular os contributos de quem discorda do mesmo, e que tantas sugestões têm feito para que se transforme num instrumento positivo do reforço da lusofonia, a vários níveis. Só critérios político-diplomáticos, fundamentados na observância estrita de compromissos de Estado ao mais alto nível e critérios jurídico linguísticos nos devem fazer não aceitar a suspensão, por si só, deste acordo interno e internacional no âmbito da CPLP. Não fora isso, a conversa seria outra. Sobretudo para alguns membros de órgãos de soberania, que persistem em não dedicar mais do que o tempo de um post, de um clique, a matérias desta natureza. É por isso que nas coisas sérias e importantes é longo o  caminho de se teorizar sobre um projecto, estruturá-lo bem, estabilizar a metodologia correcta para a sua aplicação e obter resultados positivos. Mas isso é só para alguns. Que vão estando em minoria. Mas que não se importam.

[Transcrição parcial de crónica, da autoria de Feliciano Barreiras Duarte, publicada no jornal “i” de 05.03.14.

«Mendes Bota insta grupo parlamentar do PSD a debater AO90» [notícia “i”, 26.02.14]

Actualização da notícia às 22:30 h (26.02.14):
«Numa carta que enviou a todos os deputados do PSD e a que o PÚBLICO teve acesso, o deputado propõe que o grupo parlamentar apresente um projecto de resolução propondo a revogação do acordo ortográfico e desencadeie um novo processo de revisão do acordo ou então que proponha simplesmente a suspensão do acordo. Mendes Bota diz mesmo preferir esta última.»
Público

Ora bem. Como dissemos na primeira versão deste “post”, “poderá ter existido nesta notícia um tratamento jornalístico tendencioso, por parte da agência Lusa, continuaremos, por conseguinte, na expectativa de que o senhor deputado Mendes Bota venha a ter o maior sucesso quanto à iniciativa (essa sim, uma solução) que apresentou aos seus colegas de bancada”.

Confirma-se, assim sendo: não “poderá ter existido” um tratamento jornalístico tendencioso da Lusa, o que aliás já vai sendo hábito no “trabalho” daquela agência de propaganda acordista; houve mesmo um tratamento tendencioso, como se vê.


Mendes Bota sublinha ainda que o Brasil “acaba de adiar o fim do período de transição” para 31 de Dezembro de 2015

O deputado social-democrata José Mendes Bota enviou uma carta ao grupo parlamentar do PSD, a defender que o partido debata a questão do Acordo Ortográfico, que, na sua opinião, deve ser suspenso.

Numa carta enviada em meados de Fevereiro ao grupo parlamentar, a que a Lusa teve hoje acesso, Mendes Bota considera que, no âmbito do debate e votação em plenário dos projectos de resolução sobre o Acordo Ortográfico, agendada para sexta-feira, o tema deve ser discutido pelo grupo parlamentar do PSD.

“Contrariamente àquilo que todos nós pensávamos, o Acordo não conduz a uma verdadeira unificação ortográfica entre todos os países de língua oficial portuguesa, mas sim a um distanciamento entre ortografias do português costumeiro e do português do Brasil, o que, em si, é uma grave violação dos objectivos a que se propunha o próprio tratado”, refere Mendes Bota na carta.

O deputado alerta que “Portugal corre o risco de, em 2016, vir a ser o único país a aplicar obrigatoriamente uma ortografia ‘abrasileirada’, que nem era a sua”, recordando que países como Angola e Moçambique “não ratificaram sequer o segundo protocolo modificativo” e que Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste “não estão a aplicar” o Acordo Ortográfico.

Mendes Bota sublinha ainda que o Brasil “acaba de adiar o fim do período de transição” para 31 de Dezembro de 2015, apontando que, a 01 de Outubro do ano passado, a comissão da Cultura, Educação e Esporte do Senado brasileiro “criou um grupo de trabalho técnico para rever as 21 bases” do Acordo e “propor outra reforma ortográfica“.

Continuar a ler«Mendes Bota insta grupo parlamentar do PSD a debater AO90» [notícia “i”, 26.02.14]

Vox Populi

Ficaram concluídos no passado dia 19 de Junho de 2013 os trabalhos do Grupo de Trabalho parlamentar sobre o Acordo Ortográfico de 1990 (GT AO90), tendo sido publicado ontem o respectivo relatório final.

Sobre os conteúdos e sobre as conclusões plasmadas neste relatório, as opiniões dividem-se: alguns acham que os resultados são ou foram afinal poucos (ou mesmo nenhuns), enquanto que outras pessoas consideram que de facto valeu a pena todo o trabalho, toda esta já longa luta, visto que do dito relatório resulta uma recomendação ou sugestão implícita («ficando reservada a cada Grupo Parlamentar a tomada das iniciativas que entender convenientes») que não deixará certamente de ter os seus efeitos práticos no sentido por todos nós pretendido, ou seja, no accionamento de mecanismos de reanálise de todo o processo que conduziu à entrada em vigor do malfadado “acordo” e, portanto, de reversão desse mesmo processo.

Não nos esqueçamos, porém, de que tanto a formação deste GT como os seus resultados não seriam jamais, em qualquer dos casos, o fim da luta, isto é, a revogação pura e simples da entrada em vigor do AO90. Esta foi apenas uma etapa, agora ultrapassada, de facto, mas que deixou uma marca indelével, social, mediática e política, e que além disso cumpriu efectivamente as suas funções primordiais: o AO90 deixou de ser um “facto consumado”, por um lado, a opinião pública foi finalmente ouvida sobre uma matéria que lhe diz exclusivamente respeito, por outro lado, e, por fim e por consequência das premissas anteriores, foram criadas as condições políticas para uma tomada de posição concreta por parte dos Deputados, enquanto representantes de todos os portugueses, mas desta vez em conformidade com aquilo que é a vontade expressa destes e não a mera conjuntura política ou os interesses partidários daqueles.

Existem pelo menos três formas de dar seguimento a este (agora sim, imparável) processo de reversão, conforme aliás aventámos em diversas reuniões e contactos com Deputados (de dois Partidos de sinal político contrário), durante os anos de 2011 e 2012.

  1. A apresentação, por parte de um único Deputado ou de vários, de um projecto de lei de conteúdo e objectivos similares aos da nossa ILC, conforme previsto na alínea b) do Art.º 156.º da CRP. Isto evidentemente, desde que fique garantida a liberdade de voto, ou seja, que em sede de reunião de líderes de grupos parlamentares se convencione a abolição da “disciplina de voto” neste projecto de lei em concreto.
  2. A constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (cf. Art.º 178.º – 4 CRP), requerida por 46 Deputados, com a finalidade de investigar todos os procedimentos do processo legislativo que conduziu à aprovação da RAR 35/2008 (II Protocolo Modificativo) e tendo por (óbvia) consequência a apresentação de uma iniciativa legislativa em conformidade.
  3. A apresentação de um pedido de fiscalização da constitucionalidade e da legalidade da RAR 35/2008, do II Protocolo Modificativo e/ou do próprio AO90, por parte de (pelo menos) 23 deputados de todas ou de pelo menos duas bancadas parlamentares. (cf. Art.º 281.º – f) CRP).

E assim, com o concurso não apenas de simples cidadãos como também de deputados de todos os Partidos, teríamos de uma assentada a correcção de um erro colossal e uma saída airosa, em qualquer dos três casos, para o imbróglio político (ou para o beco sem saída a que nos pretende condenar o “statu quo” político-partidário), já que todas as forças políticas seriam solidariamente responsáveis pela anulação do seu próprio erro colectivo. Sem responsabilizações nem culpas nem ónus nem custos de qualquer espécie para qualquer deles.

Pois se não é para interpretar fielmente o sentir do povo, se não é para o representar nas suas aspirações, então para que servem os deputados da Nação? O que estão afinal ali a fazer?

Confiemos, pois, agora que estão criadas as condições para tal, em que haja finalmente a “vontade política”, o bom-senso que antes faltou quanto a esta matéria.

Seja de que forma for, independentemente da solução prosseguida, nós outros continuaremos como até aqui, com a mesma determinação inabalável. Esta ILC continuará o seu caminho de resistência activa até que o monstro ortográfico seja atirado para o lugar que merece, isto é, o arquivo morto.

[Ver artigos da Constituição citados neste texto.]

Ainda a audiência de Vasco Teixeira: questões dos deputados

Dada a sua extraordinária relevância, transcrevemos de seguida – a partir de gravação – as questões e observações colocadas pelos deputados durante a audição do Director da Porto Editora perante o Grupo de Trabalho Parlamentar sobre o AO90.

O depoimento de Vasco Teixeira já aqui foi anteriormente transcrito, bem como foi reproduzido o documento entregue pelo próprio na ocasião.

Perguntas dos deputados

[Gravação das intervenções dos/as deputados/as Miguel Tiago, Rosa Arezes, Gabriela Canavilhas e Carlos Enes.]
[audio: http://cedilha.net/ilcao/imagens/GTAO90VTdebate1.mp3]
[Atenção: entre os minutos 34:35 e 38:54 há um espaço “em branco” de 4 minutos e 20’ na gravação.]

Continuar a lerAinda a audiência de Vasco Teixeira: questões dos deputados

«Resistamos à ignorância» [por Maria do Carmo Vieira]

Sobre o acordo ortográfico

Entranhou-se em nós este gosto mórbido de reverenciar a ignorância e assistir ao absurdo, amplamente apregoados por fervorosos militantes que defendem o indefensável e optam também por silenciar críticas, consideradas perigosas, porque capazes de despertar incautos ou resignados. Outros há que, usando um discurso oco e de características labirínticas, tendem a confundir os mais ingénuos e pouco habituados a reflectir. Passa-se isto não só no campo político, mas também cultural. O Acordo Ortográfico é um entre muitos exemplos. Vejamos apenas alguns aspectos:

1. Lendo os discursos do ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, e do presidente de Portugal, Cavaco Silva, proferidos no Rio de Janeiro, a 7 de Março de 2008, neles encontramos subjacente a ideia da «projecção internacional da língua portuguesa» na base do Acordo Ortográfico, fortemente justificado pelo número de falantes brasileiros, num colonialismo linguístico inaceitável para Portugal e para os países africanos de expressão portuguesa. Num faz-de-conta de cultura, refere-se o nome de Fernando Pessoa e a sua frase escrita por Bernardo Soares, «Minha pátria é a língua portuguesa», ignorando que a mesma, no contexto em que se integra, se associa a uma outra frase que defende vigorosamente a vertente etimológica da língua, posta tão em causa pelo referido AO – «Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha». Num outro passo do discurso, Lula da Silva retoma a literatura portuguesa e foca o conceito de «Quinto Império» de Vieira, de novo evidenciando desconhecer o seu significado, mas sentindo sem dúvida o agradável cheiro a poder que depois mascara com pozinhos de «solidariedade entre povos e de justiça universal».

Continuar a ler«Resistamos à ignorância» [por Maria do Carmo Vieira]