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«Enquanto há língua há esperança» [Ana Cristina Leonardo, “Expresso”, 21.03.15]

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Enquanto há língua há esperança

Há coisas que de tão simples nos passam ao lado. Qual a forma mais eficaz de um Estado impor um disparate ou uma arbitrariedade? Não tem nada que saber. Anuncia que o disparate e/ou a arbitrariedade são obrigatórios. Claro como água. Transparente como papel celofane.

Evidentemente, decretá-los é sempre mais fácil em Estados totalitários. É assim que na China os monges budistas estão proibidos de reencarnar sem autorização do governo. Por cá, o emprego da ortografia pré-AO nem com o consentimento das autoridades. O MEC decidiu proibi-la.

Os alunos do 9º e do 12º anos, em breve sujeitos a exames nacionais, ver-se-ão penalizados (até 25%) se usarem a ortografia anterior ao Acordo (aquela que lhes ensinaram).

“Recepção” em vez de “receção”? Pim! Distinguir “pára” de “para”? Pim! Dois cês em “acção”? Pim-Pam-Pum! E assim sucessivamente…

Perante a decisão, contestada por muitos professores, alunos e encarregados de educação, a presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, não se pronunciou sobre a bondade do Acordo, mas foi firme ao sublinhar a bondade do exercício do poder: “Se [os professores] são funcionários do MEC e o MEC determina que o AO é para cumprir só têm de obedecer”. E se Edviges Ferreira fosse chinesa não seria mais diáfana.

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«Otimizar a recessão» [por Jorge Pacheco de Oliveira, comentário]

[cópia de comentário neste “site” em 17.11.14 às 00:36.]

«#2 | Escrito por Jorge Pacheco de Oliveira

Como se sabe, o semanário Expresso, que a si próprio se classifica como jornal de referência, foi um dos primeiros, senão o primeiro, a adoptar o AO90. Na edição digital de hoje, numa notícia sobre a sonda Philae que pousou no cometa 67P, pode ler-se o seguinte naco de prosa, atribuído a um dos cientistas da missão :
“Tivemos até de fazer uma rotação para otimizar a recessão de luz sobre os painéis solares”.
Ora aí está. Com o AO90, não é só o PIB que pode sofrer uma “recessão”. Obrigado Expresso, por nos dares essa “percessão”…
»

Confere. Imagem de ecrã (“printscreen”) da página da notícia no semanário “Expresso” em 17.11.14, cerca das 18 horas.

expresso.sapo.pt/philae-conseguiu-enviar-dados-do-cometa-antes-de-ficar-sem-bateria=f898392

“Devia ter vergonha”…


«A cedência ao Brasil é uma necessidade de quem tem 10 milhões de falantes contra 200 milhões. Se queremos manter o português como uma língua importante no panorama internacional com variantes que são próprias deste retângulo (e não apenas com as variantes brasileiras) temos de chegar a acordo com eles. Ficar orgulhosamente sós a escrever consoantes que ninguém lê, é o mesmo que dizer que o “verdadeiro português” era aquele usado do D. Diniz e que hoje, 99% das pessoas letradas não o consegue, pura e simplesmente, compreender.»
Henrique Monteiro, crónica do semanário “Expresso”, 03.02.14

«Ó Enrique, falta de sentido é a sua falta de dignidade, de orgulho. É a sua submissão a um acordo que não respeita a sua língua. É um acordo que nos humilha como povo e como pátria. É um acordo feito por vendilhões como você. Você, que tem a palavra como ferramenta de trabalho, devia ter vergonha de escrever com erros os textos que escreve.»
Joaquim Gonçalves de Oliveira (de S. Paulo, Brasil), em comentário ao artigo na página do “Expresso” no “Facebook”, 03.02.14

Crime! Vergonha! [crónica de Miguel Sousa Tavares, “Expresso”, 01.03.14]

5 A AR recusou, mais uma vez, rever a entrada em vigor do Acordo Ortográfico, escudando-se, em contrapartida, atrás de uma vaga resolução de efeito útil nulo. Já passou pela mão de todos os deputados e governantes uma lista impressionante de nomes de escritores, professores, académicos ou jornalistas – os que usam a língua profissionalmente – que não deixa qualquer dúvida de que apenas uma minoria, e já sem quaisquer argumentos válidos, continua a sustentar este crime. É como se, à revelia de médicos, Governo e deputados entendessem regulamentar as condições técnicas do exercício da medicina.

Mas a língua é ainda mais do que o instrumento de trabalho de quem escreve profissionalmente, pois é também um factor de unidade e identidade nacionais determinante. Há, pois, qualquer coisa de misterioso e estranho por trás da teimosia de governantes e deputados, de todos os partidos, em não ceder aos constantes apelos que de todos os lados recebem. Mais estranho ainda é nem sequer se darem ao trabalho de explicar quais as ponderosas razões de Estado que os levam a vender a língua que é a nossa. Como se isso não fosse importante. Ou como se não devessem qualquer explicação aos portugueses, mesmo depois de verem países como Angola, Brasil e Moçambique resistirem ao AO. É nestas alturas, e como último recurso, que eu gostava de ter um Presidente da República que, no uso da sua função de garante da independência nacional (de que a preservação da língua é parte indissociável), puxasse do artigo 120º da Constituição e matasse de vez esta vergonha. Mas, infelizmente, também não é o caso.

[Transcrição parcial de crónica, da autoria de Miguel Sousa Tavares, publicada no semanário “Expresso” (em papel, digitalização na imagem) de 01.02.14. Destaques e “links” inseridos por nós.]

«Os Tribunais e o AO90» [Expresso, 04.06.13]

Os Tribunais e o Acordo Ortográfico

Adelina Barradas de Oliveira | 12:32 Terça, 4 de Junho de 2013

“A observância do novo acordo ortográfico tem suscitado polémica em vários sectores da sociedade.

A matéria estende-se igualmente ao mundo do judiciário, no qual há juízes, procuradores e advogados que já adoptaram as novas regras, mas outros subsistem em manter-se nas anteriores.

Independentemente dos argumentos a favor ou contra o novo acordo, importa esclarecer que o mesmo só entra plenamente em vigor na ordem jurídica portuguesa a partir de 1 de Janeiro de 2016.

Actualmente, verifica-se apenas um período de transição que decorre desde 13 de Maio de 2009 até 31 de Dezembro de 2015, conforme estabelece a Resolução da Assembleia da República, n.º 35/2008.

Durante este período de transição, o Governo através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro, impôs a observância do novo acordo ortográfico para a Administração Pública (organismos e entidades tutelados pelo Governo).

Contudo, quer os demais órgãos de soberania (Tribunais incluídos), que não se encontram sob a tutela orgânica e funcional do Governo, quer as demais entidades privadas e cidadãos, não estão vinculados àquela Resolução, que apenas tem natureza obrigatória para os citados organismos tutelados pelo Governo.

Só a partir de 1 de Janeiro de 2016, se não houver entretanto qualquer alteração legislativa, todos os órgãos do Estado (Tribunais incluídos), bem como todas as entidades privadas e os cidadãos ficarão obrigadas a adaptar a grafia para o novo acordo.”

Joel Timóteo Ramos Pereira
( Juiz de Direito)

[Transcrição integral de artigo publicado em 04.06.13 no “site” do semanário Expresso (reproduzindo “post” do “blog” ‘Ré Em Causa Própria‘). “Links” e destaques inseridos por nós.]

O AO90 «do nosso descontentamento» [Ana C. Leonardo, “Expresso”, 01.06.13]

O Acordo Ortográfico do nosso descontentamento
Ana Cristina Leonardo
Expresso ATUAL (sic), 1 de Junho de 2013

Esta semana, pode o leitor desta crónica ser indulgente comigo e ler também o texto que escrevo sobre o livro “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico”. Como alguns já terão notado, estas linhas são impressas de acordo com o (des) Acordo Ortográfico. Distraída me confesso, só dei por isso passado algum tempo… e já não fui a tempo. Ao querer desfazer o erro, foi‐me dito que não se mudam as regras a meio do campeonato, o que estará certo, embora a mim mas tenham mudado a meio da vida, e isto sou eu a considerar, decerto com excessivo egocentrismo e atrevimento, a hipótese de igualar em longevidade Manoel de Oliveira. Dei então por mim à cata de palavras que não tivessem sofrido amputações, ou tão‐só figurações obtusas que me ferissem o ouvido ou a vista. Adjetivo sem “c” passava a atributo, apesar de me soar arcaizante, ótimo sem “p” passava a “bom”, opção tanto mais dolorosa quanto se sabe tratar‐se de dois vocábulos inimigos (confesso nunca me ter ocorrido substituir arquiteto sem “c” por desenhador de casas, como um dos opositores do AO citado no livro acima referido). Assim por diante… Trabalho inglório. Porque transforma a escrita em crochet, e porque é sempre chegado o dia em que temos de escrever aquela palavra e não outra. Como é hábito em Portugal, a discussão sobre o AO foi sendo desviada do essencial, com a irracionalidade a invadir o debate. Os contra eram uma cambada de retrógrados, os apoiantes davam provas de progressismo. O curioso é que, nesta matéria, o sonho imperial e saloio do cavaquismo linguístico deu as mãos ao deslumbramento modernaço e igualmente saloio do socratismo. Prova que ‘les beaux esprits se rencontrent’, mesmo em francês.

[Transcrição integral de artigo da autoria de Ana Cristina Leonardo publicado no suplemento “Actual” do semanário “Expresso” de 01.06.13. “Link” disponível apenas para assinantes do jornal.]

[Fonte da transcrição (PDF): documento alojado em ISSUU por João Roque Dias.]