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Convite de Paris: traduções em Português de Portugal e português do Brasil

Convite da “Livraria Portuguesa e Brasileira” (Librairie Portugaise et Brésilienne), de Paris, França, para o lançamento – no dia 29 de Maio de 2015, às 19 h – da obra “Le Petit Prince“, de Antoine de Saint-Exupéry, das versões traduzidas para cinco “variantes” do Português: de Portugal, do Brasil, Mirandês (“lhéngua”), crioulo de Casamança e crioulo de Cabo Verde.

Le petit prince de Saint-Exupéry en portugais du Portugal, du Brésil, en mirandais, en casamançais, en créole cap-verdien le vendredi 29 mai à 19h dans le cadre de Quartier du livre Présentation du Petit Prince d’Antoine de Saint-Exupéry en portugais du Portugal, en portugais du Brésil, en mirandais (2° langue officielle du Portugal), en casamançais (créole portugais de Casamance) et en créole cap-verdien. en présence de Nicolas Quint et d’autres invités à Librairie Portugaise & Brésilienne – Michel Chandeigne 19/21 rue des Fossés Saint-Jacques (place de l’Estrapade) – 75005 PARIS Tel. 01 43 36 34 37 – www.librairieportugaise.fr Métros : Luxembourg (RER B), Cardinal Lemoine, Place Monge Bus (Panthéon) : 82, 84, 89, 21, 27 etc.

Fonte: Librairie Portugaise et Brésilienne – Article: Le petit prince de Saint-Exupéry en portugais du Portugal, du Brésil, en mirandais, en casamançais, en créole cap-verdien le vendredi 29 mai à 19h dans le cadre de Quartier du livre

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AO90: «uma agenda oculta» [A. F. Augusto, jornal “O País” (Angola), 08.05.15]

O (Des)Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: uma agenda oculta (I) (uma abordagem na perspectiva da Ideologia Linguística e Análise Crítica do Discurso)

8 Maio 2015

António Filipe Augusto

No meu artigo publicado em 21 de Novembro de 2014, pelo Semanário O País, começo por sublinhar que “ a decisão acerca de adopção e/ou adaptação de um sistema ortográfico com fins de grafização de uma determinada língua ou conjunto de línguas é, e foi sempre, um processo de uma profunda investigação e aturados debates académicos, políticos e sociais e constitui um elemento preponderante entre os três pilares que sustentam o processo de Planificação Linguística, sendo por sinal, o elemento ‘sine qua non’ para a implementação da Política Linguística de um Estado”. No mesmo texto deixei claro que a “Política Linguística de um Estado sério e responsável”, e aqui acrescento, que se diz ser independente, “é concebida por uma equipa criada de forma transdisciplinar e inclusiva”, e aqui acrescento, e é de inteira responsabilidade desse Estado. A Planificação Ortográfica, por sua vez, constitui um elemento crucial, pois, ela é um dos três pilares do processo da Planificação Linguística.

Porém, nos primórdios da última década do século passado, Portugal e Brasil entenderam conceber e liderar um processo de planificação linguística, e mais precisamente uma reforma ortográfica da língua portuguesa a que denominaram por Acordo Ortográfico Unificado da Língua Portuguesa, cujo “objectivo explicito”, alegam, “é de pôr fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes”. Com esta planificação linguística, os protagonistas da referida reforma ortográfica advogam que o pretérito “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 pretende instituir uma ortografia oficial unificada da língua portuguesa” e “actualizar o sistema ortográfico que data desde o Acordo do ano de1945”.

Os proponentes da política impõem esta ortografia, de uma forma implícita, a todos os países falantes do português como língua oficial, mesmo não fazendo parte do processo inicialmente, ‘ipso facto’, sentiram-se na obrigação de “persuadir” as lideranças políticas dos países africanos que têm o português como língua oficial para aderir ao acordo, o que parcialmente acabaram “cegamente” fazendo. Este facto, leva os analistas de políticas linguísticas a uma perturbação, não somente académico, como político-social. Esta perturbação pode traduzir-se em várias inquietações, tais como: com que legitimidade podem Portugal e Brasil conceber a política linguística para os países africanos que se dizem independentes? Que tipo de independência clamam estes países ter se ainda são linguisticamente dependentes da sua potência colonizadora? Aqui, é preciso salientar que segundo a Ideologia Linguística, a independência de um Estado começa pela independência linguística, pois, a língua é um potente instrumento de controlo, de poder e de manipulação.

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«A minha pátria já não é a língua portuguesa» [Octávio dos Santos, revista “Nova Águia” 14]

A minha pátria já não é a língua portuguesa

Octávio dos Santos

No meu livro «Um Novo Portugal – Ideias de, e para, um País», colectânea de artigos escritos e publicados durante 25 anos e publicado em 2012 pela Fronteira do Caos, um tema recorrente tão importante como a política é a cultura. Dentro desta, a língua – falada e escrita – ocupa, obviamente, um lugar central. Nos últimos cinco anos ela tem sido cada vez mais um motivo de acesa discussão, de controvérsia, de polémica… devido ao denominado «Acordo Ortográfico de 1990». Algo de que eu discordo e combato incondicionalmente, naquela minha obra e não só…

… E é inevitável invocar, mais tarde ou mais cedo, um dos nossos maiores poetas e aquela que é talvez a sua frase mais famosa. Em «Setembro de 2011, mais concretamente a 1 e a 12, devido a documentos legislativos com essas datas, assinala(ra)m-se os 100 anos de mais uma catástrofe decorrente da insurreição republicana de 5 de Outubro de 1910: a reforma ortográfica de 1911, que constituiu uma autêntica “Caixa de Pandora”, o “pecado original” para todos os problemas e discussões neste âmbito que desde então se sucederam e que ainda hoje, e cada vez mais – por causa do abominável “aborto (acordo) ortográfico” de 1990 – nos atormentam. Não serão muitos os que sabem que foi em contestação a este (agora centenário) crime contra a cultura que Fernando Pessoa escreveu que “a minha pátria é a língua portuguesa”. (…) Neste último século muito se tem discutido e escrito sobre a educação em Portugal, os seus sucessos e fracassos, os seus progressos e regressões. Frequentemente ainda, fala-se do “condicionamento escolar” do Estado Novo e do elevado analfabetismo que permitiu ou até que incentivou. Porém, é raro apontar-se a culpa aos primeiros republicanos, que, preconizando uma revolução (mais uma…) no ensino no sentido da sua massificação, acabaram por fracassar, também, neste domínio. Disso uma causa é hoje indiscutível: a hostilização, através de perseguições individuais e de expropriações patrimoniais, da Igreja Católica, que dispunha de uma presença e de uma influência determinantes em toda a infra-estrutura lectiva. Mas há outra causa primordial para o nosso atraso educativo e cultural: precisamente, a reforma ortográfica de 1911, que, pelo seu radicalismo, pelas súbitas e generalizadas alterações que introduziu, pela confusão que inevitavelmente espalhou, pela inutilização (tornando-os “antiquados”, “obsoletos”, “ultrapassados”) de tantos livros, jornais, revistas e outros materiais impressos então existentes, condicionou decisivamente… e negativamente esta área – fulcral, fundamental – nas décadas seguintes. Quem é que é capaz de provar que as sucessivas acções de “simplificação” da ortografia realizadas durante o último século, e o cada vez menor grau de exigência resultante daquelas, não foram factores de constrangimento do nosso desenvolvimento intelectual, tanto individual como colectivo? (…)» («Da pátria, a língua», 2011)

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«A desistência da Língua» [Inês Pedrosa, “Sol”, 16.12.14]


«Em vez de cuidar do reforço do ensino da Língua no mundo, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem passado as últimas décadas entretida com um acordo impossível.»

Inês Pedrosa

A desistência da Língua

A desistência da Língua

16/12/2014 22:34:38

Numa das últimas vezes em que escrevi um artigo contra o chamado Acordo Ortográfico, um amigo aconselhou-me a abandonar o assunto porque, estando já prestes a entrar em vigor no Brasil, seria inútil contestá-lo. Acrescentou que a não-adesão criaria problemas económicos a Portugal.

Este modelo argumentativo diz muito sobre o tempo em que vivemos: os espertos são os que seguem o rebanho e desistem de pensar pela própria cabeça, para não levantar ondas. Em caso de resistência, apela-se ao incontestável Deus da Economia, que suspende qualquer explicação.

Sucede que aquilo a que se convencionou chamar Acordo Ortográfico é uma fraude, porque:

a) Não estabelece nenhum acordo (a palavra recepção continuará a escrever-se com ‘p’ no Brasil e perde o ‘p’ em Portugal, porque o fundamento da ortografia passa a ser a pronúncia – e ainda por cima o texto refere a “pronúncia culta”, o que agrava o patético do tema);

b) Confunde os utilizadores, dado que a etimologia das palavras, que esclarecia as dúvidas, deixa de se aplicar. Sintoma de uma época que despreza a memória e vive em esquecimento acelerado, este ‘acordo’ ignora voluntariamente a história e o trajecto da Língua. É mais um passo no caminho do desprezo pela riqueza e pela força da Língua Portuguesa.

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“Em vez de se tratar a febre, muda-se de termómetro” [Bruno Dewaele, jornal “Libération” (França)]

O que se segue é uma transcrição de texto original em Francês. Para ler em Português, coloque o “pointer” do seu “rato” em cima de cada parágrafo e verá o respectivo texto traduzido.

Notation des dictées : «On ne s’attaque pas à la maladie, on change juste de thermomètre»

AUDE DERAEDT 11 AVRIL 2014 À 18:33

INTERVIEW
Le champion du monde d’orthographe estime qu’un nouveau barème de notation n’est pas la solution.
Le ministère de l’Education nationale a présenté jeudi un nouveau système de notation pour les dictées. Moins sévère, il tiendrait compte des bonnes réponses des élèves et non plus seulement des fautes. Bruno Dewaele, champion du monde d’orthographe et professeur de Lettres dans un lycée du Nord, nous explique pourquoi il ne croit pas en ce barème, malgré la prise de conscience des Français de l’importance de l’orthographe.

Le ministère de l’Education nationale a dévoilé jeudi un nouveau barème de notation pour les dictées. Qu’en pensez-vous?
Je suis d’accord pour qu’on y réfléchisse, qu’on n’ait plus recours à la notation punitive. Surtout si l’orthographe traumatise autant qu’on le dit. Mais je ne suis pas sûr qu’un nouveau barème fasse faire des progrès aux élèves. L’Education nationale cherche surtout à masquer un déficit. Déjà en 1990, le gouvernement avait entamé une réforme de l’orthographe, pour la simplifier, au lieu de l’apprendre telle qu’elle était. Ce n’est pas ça qui va aider les élèves, quand on sait qu’ils confondent encore en seconde un futur avec un imparfait. Ça me fait toujours penser à l’histoire du piano. En France, quand on n’y arrive pas, on rapproche le piano plutôt que d’avancer le tabouret. Pour l’orthographe, c’est la même chose. On ne s’attaque pas à la maladie, on change juste de thermomètre.

En tant que professeur de lettres en lycée, avez-vous observé une évolution du niveau des jeunes en orthographe?
Le niveau est mauvais, il faut dire les choses comme elles sont. Quand on compare des copies d’aujourd’hui à celles d’il y a trente ans, il y a une baisse évidente. Mais c’est sans solution. Le temps qu’on consacrait naguère à l’orthographe n’a rien à voir avec celui qu’on lui consacre aujourd’hui. Si le niveau ne baissait pas dans de telles conditions, nos élèves seraient tous des génies.

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«Guiné Equatorial membro da CPLP» [rádio “RFI” (França), 23.07.14]

A X Cimeira de chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) estiveram reunidos em Díli para a admissão da Guiné Equatorial como membro da CPLP. Dez anos depois de uma espera movimentada por avanços e recuos.

A Guiné Equatorial, liderada pelo Presidente Teodoro Obiang Nguema, aplicou as exigências para a adesão do país, apesar da oposição de várias organizações da sociedade civil dos países lusófonos acusar o regime de cometer violações dos direitos humanos.

O director da organização EG Justice, Tutu Alicante, radicado nos Estados Unidos da América acusou o presidente da Guiné Equatorial de usar a CPLP para branquear a imagem do país junto da comunidade internacional. O activista guineense lamentou que a CPLP “tenha tacitamente permitido deixar-se usar para lavar a imagem do mais antigo chefe de Estado do mundo, um autocrata que não respeita os direitos humanos e governa uma das corruptas nações do mundo”.

Este foi o primeiro alargamento na história dos 18 anos da organização que passa, a partir de hoje, a incluir um país não lusófono, conta a jornalista da lusa em Díli, Joana Haderer.

A antiga Guiné espanhola teve de materializar uma moratória à aplicação da pena de morte para poder fazer parte da CPLP. A Guiné Equatorial vive num clima de medo que bloqueia qualquer tentativa de derrubar o regime, exemplo disso é a existência de um único partido da oposição, o Convergência para a Democracia Social, cujo líder tem assento parlamentar, num total de cem eleitos.

À saída de encontros que teve em Lisboa, o advogado e crítico do regime da Guiné Equatorial, Ponciano Mbomio Nvó, mostrou-se preocupado pela situação política que vive a Guiné Equatorial.

Segundo o intelectual português, Adriano Moreira, o novo membro permanente da organização muda a concepção do que é a CPLP, nomeadamente, “o trabalho que deu a organizar a CPLP e o conjunto de valores que reúne”. A Guiné Equatorial não corresponde a nenhum destes pressupostos, e por isso mudou a estratégia da CPLP”, acrescentou Adriano Moreira.

À chegada do presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, ao salão nobre do Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi aplaudido pelos chefes de Estado e de governo presentes. Entre eles fizeram-se ouvir aplausos do primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho, mas o mesmo não aconteceu com o presidente Aníbal Cavaco Silva.

A entrada da Guiné Equatorial já era esperada, contudo a forma como aconteceu era inesperada para os líderes políticos. “Fomos surpreendidos, mas o que nós queríamos acima de tudo era ajudar Timor-Leste para que esta cimeira fosse um sucesso” disse o presidente português, Aníbal Cavaco Silva. 

«Por consenso dos Estados-membros da CPLP, aprovou outorgar à República da Guiné Equatorial o estatuto de país membro de pleno direito no seio da comunidade, integrada até a data por um total de oito nações, cinco delas no continente africano. O nosso país passará a ser o sexto de África e o nono em ordem cronológica de adesão a esta comunidade, criada no ano de 1996», foi desta forma que o governo da Guiné Equatorial anunciou a sua adesão à CPLP no seu sítio oficial na Internet.

[Transcrição integral de colagem de diversos artigos publicados (quatro deles com gravações de emissões áudio, ouvir no “site” da RFI) pela Radio France Internationale (RFI) em 23.07.14. “Links” inseridos por nós. Destaques a “bold” conforme o original. Imagem de Reuters/RFI]

Entrevista de Isabelle Oliveira ao jornal “i”, 07.06.14

Isabelle Oliveira. “Temos de abandonar complexo de inferioridade da língua portuguesa”

Por Marta Cerqueira
publicado em 7 Jun 2014 – 05:00

Investigadora lidera uma das faculdades da Sorbonne. E é partir de Paris que quer fazer com que a lusofonia chegue mais longe

Isabelle Oliveira viveu apenas um ano em Portugal, mas defende como poucos a língua portuguesa. A investigadora é directora da Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas da Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, cargo que ocupa desde 2011. Ter um papel de liderança numa das maiores instituições de ensino superior do mundo não a assusta e até tira partido do estatuto para executar ideias que passam sempre pela promoção do português no estrangeiro. Critica os políticos que falam inglês em cimeiras internacionais, mas está convencida de que o poder da língua não vem da sua uniformização. Daí ser contra a aplicação do acordo ortográfico. Aos 37 anos, Isabelle conta que tem “grandes planos para a língua portuguesa”, a prioridade dos muitos projectos em que se envolve. Até porque, avisa, está na hora de a lusofonia ir mais longe.

Tendo ido com os seus pais para França ainda bebé, de onde vem essa paixão pela língua portuguesa?

Em minha casa sempre se falou francês mas eu sempre tive um carinho especial pelo português. Considero-me franco- -portuguesa mas não me revejo de maneira nenhuma no conceito de luso-descendente. É preciso que percebam que os portugueses em França são muito mais exigentes agora do que eram na década de 60.

A nova vaga de emigração não tem alterado a imagem dos portugueses em França?

Não vejo isso. Ainda há muito a fazer para quebrar estereótipos. Os portugueses chegam com altos níveis de qualificação mas não estão integrados na sociedade. Em Portugal não há uma noção real da precariedade em que os portugueses vivem em França. Há dois ou três casos de êxito, mas a maior parte passa muito mal, principalmente aqueles que têm formação nas áreas sociais e humanas. E acabam por se sujeitar a trabalhos menores. Além disso, os portugueses de segunda e terceira geração já se consideram franceses e não têm a noção de solidariedade com os que chegam de novo. Penso que é preciso uma integração bem pensada para conseguir, a longo prazo, implementar uma nova imagem da emigração portuguesa.

E os luso-descendentes que querem voltar para Portugal, têm abertura?

Nem por isso. Tive muitos problemas com os estudantes da Sorbonne que vieram estagiar para Portugal, porque enfrentaram situações de discriminação. Em Portugal, o sotaque francês não traz prestígio, mas se falarmos do inglês, ou seja, um sotaque com poder económico, já não há problema.

Existem estereótipos a quebrar nos dois países?

Sim, muito fortes. O inglês é a língua dominante devido ao poder económico dos Estados Unidos. O latim já o foi e o francês também já teve a sua idade de ouro. Está na hora de a lusofonia ir mais longe. Na Sorbonne temos cada vez mais franceses, chineses e árabes a quererem aprender português. São pessoas com visão de futuro.

O português é uma língua muito procurada na Sorbonne?

É o terceiro idioma com mais procura, a seguir ao inglês e ao espanhol, mas muito por mérito da universidade. Vamos aos liceus e organizamos jornadas, não ficamos à espera dos governantes para fazer promoção.

E é fácil para os estrangeiros aprender português?

Damos a opção de aprenderem a norma brasileira ou portuguesa. Normalmente, dizem que a fonética brasileira é mais fácil de aprender.

As universidades têm um papel de defesa da língua?

O português está realmente em decadência em França. São as universidades, por serem autónomas, que têm o poder de projectar a língua. Eu aproveito o cargo de chefia que ocupo para implementar as minhas ideias, que passam sempre pela promoção do português. Mas no ensino secundário esse trabalho está nas mãos dos governantes.

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«mas nunca uniformizá-las em tarefa impossível» [R.M. Rosado Fernandes]

Ortografia significa a “grafia correcta, certa” que reproduza em todas as suas particularidades as características fonéticas e  morfológicas de uma língua. Ora nos países lusófonos e em muitos outros, tal é impossível, por haver variantes fonéticas, e muitas, morfológicas e até semânticas e vocabulares. Basta ler “Chiquinho” ou qualquer livro brasileiro, para vermos a irredutível impossibilidade de uniformização. Não é por acaso que países mais pragmáticos, como a Inglaterra, a França e mesmo a Espanha, com as inúmeras variedades de pronúncia e de vocábulos que, como colonizadores, deixaram pelo mundo fora, para verificarmos que apesar das diferenças, tentam conhecê-las, mas nunca uniformizá-las em tarefa impossível, até porque o orgulho nacional e político o impede, digamos mesmo, o proíbe, pois em nadas acrescentaria. R.M.Rosado Fernandes

[Transcrição integral (e literal) da resposta do Professor Rosado Fernandes a um pedido de informação da CECC (Comissão de Educação, Ciência e Cultura).]

«Contra a língua única» [Serge Halimi, “Le Monde diplomatique”, Junho 2013]

Contra a língua única

por Serge Halimi

Mercado único, moeda única, língua única? As portas e as pontes que ilustram as notas europeias já representam a fluidez das trocas entre comerciantes sem raízes nem história. Será que os estudantes também vão ter de sair do seu país sem dicionário, tendo como único passaporte linguístico um inglês de aeroporto, utilizável por toda a parte, em particular nas universidades francesas?

É que parece que estas continuam a estar demasiado «desajustadas à realidade» – tal como o resto do país. Imagine-se, ali continua-se a falar… francês! Geneviève Fioraso, ministra do Ensino Superior e da Investigação, quer eliminar este «obstáculo da língua». Ele estaria a desencorajar «os estudantes dos países emergentes, da Coreia do Sul, da Índia, do Brasil» de irem para França formar-se.

No entanto, há vinte e nove Estados que têm como língua oficial a de Molière (cinquenta e seis a de Shakespeare) e o número de falantes de francês não pára de crescer, em particular em África. Mas, a julgar pelo árduo percurso que em França são obrigados a percorrer, não serão estes os estudantes que o país quer atrair. Eles não são suficientemente ricos, não são suficientemente susceptíveis de pagar as (elevadas) propinas de uma escola de comércio ou de engenheiros.

Nas universidades norte-americanas, onde a percentagem de estudantes estrangeiros (3,7%) continua a ser muito inferior à que existe nos estabelecimentos de ensino franceses (13%), nunca ninguém imaginou resolver este «atraso» ensinando em mandarim ou em português. «Se não autorizarmos as aulas em inglês, seremos cinco a discutir Proust à volta de uma mesa», ironizou, ao menos, Geneviève Fioraso. Nicolas Sarkozy preferia mostrar o seu desprezo pelas humanidades lamentando os estudantes condenados a ler A Princesa de Clèves em vez de estudarem Direito ou Gestão.

A Lei Toubon, aprovada em 1994, determina que «a língua do ensino, dos exames e dos concursos, bem como das teses e dissertações nos estabelecimentos públicos e privados de ensino é o francês». Opondo-se a esta regra «que data do século passado», um punhado de prestigiados universitários entendem que a defesa do multilinguismo (ainda bem viva, neste século, na maioria das organizações internacionais…) estaria a dissuadir os anglófonos de irem estudar para Paris [1].

Mas a «atractividade» de uma língua não se resume à venda de formações aos países emergentes. Ela afirma-se nos intercâmbios com outros, pensando o mundo, incluindo o mundo que aí vem. Poderá a França, que lutou para defender o seu cinema e a sua excepção cultural, aceitar que um dia a investigação científica e a ciência se exprimam unicamente no idioma, aliás muitas vezes maltratado, da superpotência?

«O paradoxo actual», salienta o linguista Claude Hagège, «é que a americanização, a promoção do inglês, é feita por outros que não os americanos». Outros que não os franceses – em particular em África e no Quebeque – permitiram a resistência do pluralismo linguístico. A sua persistência merecia que os responsáveis políticos se inspirassem mais nela do que no fatalismo totalitário de um pequeno número de universitários.

[Transcrição integral (versão para impressão) de Editorial do jornal “Le Monde diplomatique” de Junho 2013.]

[Via “blog” Delito de Opinião.]

E que tal um Acordo Legislativo?

Comentário em Indignação cívica [M.J. Abranches “versus” TIAC] por Maria Fernanda Pinto
Sun, 30 Jun 2013 11:56:49
Não acredito que ainda haja gente dentro de Portugal que manifeste uma total desenvoltura, quanto ao futuro da língua portuguesa! Desenvoltura ou ignorância? Vivo há 40 e tal anos em Paris, nunca tendo deixado de “empregar” a minha língua. Assisto aqui, no ramo do ensino, às mais trágicas explicações sobre o tal A.O. recusado por Angola, Moçambique e pelo Brasil se tiver “tento na bola”!!!Tive a ocasião de dizer em público, este mês, a um senhor responsável pelas “Kólturas” linguísticas, que para exemplo, quando aprendi francês em Lisboa, não me ensinaram nem o francês do Québec, nem do Mali, etc; mas o francês de França (que teve a inteligência de registar o dicionário, não fosse algum “taradinho moderno” querer “negociá-la” a troco de um bem monetário). Disse também que as duas línguas latinas que nós temos é a portuguesa e a francesa. Nesta última ninguém toca, porque protegida. Na portuguesa, os “chicos espertos e modernistas”, querem fazer algo de…indefinido!

Troca por…vamos saber tudo dentro em pouco, muito pouco, e então vai ser bonito, caros compatriotas vendedores!!!

O Ministério da Educação foi totalmente contrário à aplicação do AO e a T.I.A.C. (?) não está ao corrente? Safa!!! Vive numa ilha sózinha?

[Imagem: “Bartoon”, de Luís Afonso,  jornal “Público” de 29.06.13.]

[No comentário transcrito foram por nós acrescentados (separação por) parágrafos, destaques a “bold” e “links.]