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“Óoauêaió”? Boa pergunta.

movimento2014

“Óoauêaió!” Para onde vai a língua portuguesa?

João Manuel Rocha

05/05/2015 – 22:02

Se em países africanos o português é factor de “unidade”, em Timor se se falar apenas português os jornalistas “não vão perceber”, foi dito no debate “O futuro da língua portuguesa”.

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“Óoauêaió!” A expressão, sem consoantes, usada por surfistas brasileiros para dizer “Olha o barulho aí ó você!”, foi o exemplo dado por Paulo Motta, editor executivo d’ O Globo, para lançar uma questão sem resposta: “Que português falaremos no futuro?”. O que o debate entre directores e editores de jornais de todos os países lusófonos permitiu, esta terça-feira, em Lisboa, foi antes a discussão sobre problemas de afirmação e potencial da língua comum.

Se a pergunta sobre o português do futuro era meramente retórica e a resposta exigiria dotes de adivinhação, os participantes não se furtaram ao desafio lançado pelo moderador, Nuno Pacheco, director-adjunto do PÚBLICO, e disseram como vêem o presente e “O futuro da língua portuguesa”  – tema do debate organizado pelo Movimento 2014 – 800 anos da língua portuguesa.

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«Restauração do português europeu» [Resolução do PEN Internacional, 02.10.14]

A Assembleia de Delegados do PEN Internacional, reunida no seu 80º Congresso Mundial em Bishkek, Quirguistão, de 29 de Setembro a 2 de Outubro de 2014:

Referindo-se à Resolução do PEN Internacional de 2012, que expressava um desapontamento pelo facto de as autoridades portuguesas “intentarem uma limitação do português pela imposição de regras artificiais” (pela estandardização da língua portuguesa); Reiterando a resolução do PEN Internacional de 2013, que apelava às autoridades portuguesas para “tomarem medidas imediatas para permitir uma restauração do português europeu na administração pública e nas escolas” e para “ter em conta… as opiniões de especialistas em Linguística… e garantir que os editores cessem de impor condições abusivas e restritivas para a criação literária”;

Preocupado com o facto de, apesar destas objecções, o Parlamento português ter aprovado, em 28 de Fevereiro de 2014, uma resolução apresentada pelos partidos do governo no sentido de formar um grupo de trabalho para monitorizar a implementação do Acordo Ortográfico, O PEN Internacional nota o seguinte: A experiência dos últimos três anos demonstrou a resistência dos países lusófonos ao Acordo Ortográfico. Enquanto o governo brasileiro adiou a implementação desse Acordo até 2016, outros países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste ou não o ratificaram ou não se vêem em condições para implementá-lo. Apesar disso, as autoridades portuguesas mantiveram a imposição inconstitucional do Acordo. Segundo a Constituição da República Portuguesa (Artigo. 43.º – 2) “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”. Para além disso, o Acordo foi implementado apesar do facto de o seu próprio texto prever um período de transição até 2016.

Adicionalmente, o PEN Internacional refuta o argumento segundo o qual esse Acordo conduzirá a uma simplificação da língua com benefícios no plano da educação. A nova relevância dada à ortografia segundo critérios orais e não etimológicos distancia a língua portuguesa das suas raízes gregas e latinas, limitando a capacidade de os estudantes entenderem a evolução da língua e as relações entre as línguas. Entretanto, vários editores impuseram o Acordo a escritores e tradutores, o que viola a liberdade de expressão destes últimos, bem como o Código dos Direitos de Autor da Sociedade Portuguesa de Autores.

Assim, o PEN Internacional reitera as seguintes recomendações às autoridades portuguesas no sentido de:

Tomarem medidas imediatas para permitir a restauração do português europeu na administração pública e nas escolas e instituições educacionais;

Respeitarem a herança cultural comum, bem como a relação entre o português e outras línguas europeias, em concordância com a Constituição da República Portuguesa (Artigo 43.º – 2).

Além disso, o PEN Internacional apela às autoridades portuguesas para que:

• Reconheçam publicamente a existência de problemas significativos na implementação do Acordo Ortográfico, tal como foi acima assinalado;

• Respeitem a liberdade dos escritores e tradutores para escolherem a opção ortográfica mais apropriada para o seu trabalho.

NOTA: A resolução foi aprovada por unanimidade pelos delegados dos 58 Centros presentes no Congresso.

[Transcrição integral de Resolução #22: Língua Portuguesa. Apresentada pelo Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional » Pen Clube Português. Documento publicado em 06.10.14. “Links” e destaques nossos.]

Ensaio sobre a loucura

Governo cria grupo para simplificar língua portuguesa

Depois de ver as novas regras para ortografia da língua portuguesa, adotadas, via decreto, somente pelo Brasil, e de ter sido sinalizado pela sociedade civil sobre a necessidade de maior simplificação em vários pontos, o governo federal não só prorrogou a implementação para 2016 como também, através da Comissão de Educação do Senado criou o Grupo de Trabalho Técnico (GTT) para simplificar e aperfeiçoar a ortografia. O objetivo é de reduzir a quantidade de regras e exceções, tornando-as mais objetivas e de fácil entendimento.

De acordo com o professor Ernani Pimentel, que, ao lado do professor Pasquale Cipro, foi escolhido para coordenar o GTT, professores e estudantes de todos os países que têm como língua oficial o português têm até 20 de julho para sugerir mudanças. Todas as propostas serão avaliadas e apresentadas no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, que será realizado em Brasília, em setembro.

O professor Ernani Pimentel participou do CBN Santos por telefone, onde falou sobre a simplificação da ortografia e possibilidade de não adoção do novo acordo ortográfico.

Reportagem: Guilherme Pradella.

[citações]

– Existe um site chamado “simplificando a ortografia ponto com” [http://simplificandoaortografia.com/]. Não tem “ponto BR” [simplificandoaortografia.BR] porque é para todos os países de língua portuguesa.

– Nós não precisamos do “cê agá” [CH]. O “xis” [X] sozinho já resolve p’ra fazer esse som. P’ra escrever esse som. Então, se elimina o “cê agá”, ninguém vai ter dúvida entre o “xis” e o “cê agá”.

– Como é que você resolve o problema do “gê” [G] e do “jota” [J]? As outras línguas já resolveram isso. Por exemplo, o alemão, as línguas nórdicas, o inglês, a letra “gê” não é “gê”, é “guê” [G]! É “ânguêlá” [Angela], “volquiseváguen” [Volkswagen], não é verdade? “Ai guéte” [I get].

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«Senadores querem nova reforma ortográfica» [notícia do Senado brasileiro, 07.08.14]

Ora aí está de novo o “projeto” mas desta vez de forma não apenas oficial, visto que é o próprio Senado brasileiro quem publica a notícia, como também já temos o dito “projeto” calendarizado, estão nomeados os respectivos intervenientes, estabelecidos os passos a seguir e os “objetivos” a prosseguir: podendo entrar em vigor “já em 2016” nos oito países da CPLP, de que Portugal faz parte, irá ser produzida uma “nova reforma ortográfica” porque o AO90 não foi “suficientemente longe” na “simplificação” da Língua Portuguesa.

Em suma, é isto.

Em que consiste esta “reforma da reforma“, no que à Ortografia diz respeito, é algo que o próprio texto da notícia “esclarece”. Sabendo-se agora que este novo acordo ortográfico (AO16?) será feito “em cima” do anterior acordo ortográfico (AO90) e que será “votado” por tele-conferência (não, não é brincadeira, ou, melhor dizendo, é mas está na notícia), então pelos vistos a sua “aprovação” estará por essa via dada por garantida pelos autores “disto”.

Já quanto ao que significa “isto” para todos nós, portugueses (e angolanos e moçambicanos e cabo-verdianos e guineenses e são-tomenses e timorenses), o que significa “isto” em termos históricos, culturais e identitários para sete das oito nações de Língua oficial portuguesa, bom, digamos que “isto” significa…

Se calhar é melhor não dizer. Toda a gente sabe.

Notícia

Senadores querem nova reforma ortográfica

07/08/2014
Cristiane Britto

Projeto propõe a extinção da letra “h” no início das palavras e a troca de todas as expressões com “ch” pelo “x”

SENADOR CYRO MIRANDA disse que serão realizadas videoconferências com professores de países como Portugal e Angola para depois colocar o projeto em votação.
LEONARDO SUSSUARANA

A Comissão de Educação do Senado está desenvolvendo um projeto que pretende trazer mudanças nas atuais regras da língua portuguesa. Por meio de um grupo técnico de trabalho, os senadores vão propor novas regras para simplificar a ortografia e facilitar o ensino e a aprendizagem da escrita.

De acordo com algumas propostas do projeto, haveria a exclusão do “h” inicial, passando palavras como homem e hoje, por exemplo, a serem escritas omem e oje.

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«Como vê o futuro da língua portuguesa?» [jornal “Nô Pintcha” (Guiné-Bissau)]

Como vê o futuro da língua portuguesa hoje falada por 244 milhões de pessoas?

No dia 27 de Junho comemorou-se os 800 anos da língua portuguesa. 27 de Junho de 1214 é simbolicamente considerado dia do nascimento da língua portuguesa por ser o dia do documento mais antigo que se conhece escrito em português. Relativamente a efeméride o “Nô Pintcha” auscultou as opiniões de alguns cidadãos nacionais:

Odete Semedo – Escritora
Acho que, a situação, o lugar e as expectativas criadas a volta duma língua têm sempre a ver com a política linguística do país. Ora bem, temos a língua portuguesa como a língua oficial e materna para um vasto número de guineenses, pelo que não deixa de ser um idioma que utilizamos na comunicação com o mundo.

Portanto, a nossa política linguística deve ser mais clara, sobre que engajamento o Ministério da Educação, enquanto sector da cultura, prioriza para com a língua portuguesa, embora, o que os responsáveis da área têm vindo a fazer em prol do desenvolvimento da referida língua, não nos ajuda, no sentido de termos, por exemplo, um professor com um bom domínio do português falado e escrito.

Neste sentido vejo o futuro da língua portuguesa como algo dependente da política linguística que a Guiné-Bissau irá assumir nos próximos tempos.

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«Património comum para evoluir ou para expandir?» [jornal “Última Hora” (Guiné-Bissau)]

«Sobre o Acordo Ortográfico que para mim o debate tem sido no campo acessório. O principal nunca foi debatido. Portugal, talvez por falta de argumentos humanos e financeiros deixou-se levar, por uma iniciativa arrogante que compromete quase tudo. O Acordo Ortográfico, está provado, vai limitar ainda mais a expansão do português. É daí que defendo que, Portugal, enquanto dono da língua, responsável pelo património comum, não podia nunca ir atrás das aberrantes, controversas, desnecessárias e inexplicáveis iniciativas brasileiras de melhorar, senão piorar o português. O Acordo Ortográfico na minha opinião, para além de ser uma questão de pormenor muito insignificante, é um atentado contra a aprendizagem de todos.»

Língua Portuguesa: um Património comum para evoluir ou para expandir?

Quando recebi o prestigiante convite do Jornal ‘Público’ para, em português emitir a minha modesta opinião sobre ‘Os 800 anos da língua portuguesa’, vieram-me a mente muitas coisas. Uma delas é que iria emitir a minha desactualizada e provavelmente desnecessária opinião sobre o património comum de Estados e bem de milhões de pessoas.

Mas a primeira coisa que me veio a mente e quase pulei da cadeira em que me encontrava sentado quando abri o convite, é que se tratava de uma indisperdiçável oportunidade de poder homenagear, Vasco Graça Moura, não por ser para mim, depois de Luís Camões, o maior e mais declarado lutador pela causa do português. Lutador por um património comum, que certos quiseram branquear (para ser mais suave), em nome da intelectualidade. Foi professor, foi jornalista, foi deputado em que o instrumento do trabalho em tudo foi o português que aprendeu como nativo português, mas a particularidade da homenagem está ligada a sua opinião e a sua posição contra ‘o Acordo Ortográfico’.

A tal decisão assumida pelos Estados membros da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) que até aqui, só contribuiu para desarrumar um português, que, comparando com as outras línguas parece o mais organizado de todos.

Graça Moura lutou na defesa do português puro. Vasco Graça Moura acha que o português antes do ‘Acordo Ortográfico’ estava melhor e também acho o mesmo. E logo dessa conclusão fiz uma analogia entre o que ele pensava sobre o Português e aquilo que Portugal tem feito para o português, como língua de milhões de humanos. A conclusão que cheguei é que, contrariamente a certas mentes e alguns estudiosos, Vasco Graça Moura queria a expansão em vez da evolução.

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A Cimeira da CPLP (Díli, Julho de 2014)

«3. Reafirmaram a plena validade do compromisso histórico consagrado na Declaração Constitutiva da CPLP, com a progressiva afirmação internacional do conjunto dos Estados membros, que constitui um espaço geograficamente descontínuo, mas identificado pelo idioma comum, e pelos primados da paz, da democracia, do Estado de direito, dos direitos humanos e da justiça social.»
[InDeclaração de Díli“, X Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, 23 de Julho de 2014.]

Bartoon (jornal Público)

Composição, imagens originais de:
– semanário Expresso
– “blog” Lao Hamatuk
– “post” de Fernando Ventura (Facebook)
– canal TVI24

«O aniversário da nossa língua» [“Jornal de Angola”, 27.06.14]

Neste dia em que se celebram os 800 anos da Língua Portuguesa o Jornal de Angola associa-se à iniciativa de jornais de diversos países que publicam um texto sobre o futuro da nossa língua comum.

Os órgãos de comunicação social são instrumentos fundamentais de defesa da Língua Portuguesa e o Jornal de Angola tem feito um grande esforço para cumprir essa missão exaltante que é preservar um património cultural e vital que convive connosco pelo menos desde 1486, ano em que a armada de Diogo Cão subiu o rio Zaire até Matadi e iniciou relações oficiais com o Reino do Congo.

Quando os nossos antepassados tomaram contacto com a Língua Portuguesa ela era uma jovem de 272 anos. E foram os contactos com os diversos povos de África, Ásia, América e Oceânia que a que a mantiveram jovem, até aos dias de hoje. Angola dá um contributo especial a essa juventude perene, à sua renovação permanente, que a torna cada vez mais viva e especial.

Os primeiros vestígios do chamado “português tabeliónico” foram confirmados no galaico-português, veículo da mais bela e pura poesia trovadoresca, as Cantigas de Amigo. Desde então, a Língua Portuguesa ganhou personalidade própria e foi ferramenta fundamental de Bernardim, mestre Gil Vicente ou Camões, quando compôs aqueles que são dos mais belos poemas da Literatura Universal, na doce medida velha, para usarmos a feliz expressão do poeta, na definição da poesia que mergulhava as suas raízes nas cantigas de trovadores e jograis.

A maravilhosa aventura da Língua Portuguesa cruzou mares, subiu montanhas e soou nas “sete partidas”. O estádio supremo de uma cultura é o edifício da língua que lhe serve de veículo. O Português entrou há seis séculos em nossa casa e tornou-se membro da família. Ao chegar a África e logo a seguir à América (Brasil) e ao Oriente, encontrou o elixir da eterna juventude. É hoje falada por milhões de seres humanos em todo o mundo e adquiriu o perfume especial de cada povo que a fala e a adoptou como língua oficial.

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«24 jornais escrevem sobre futuro do português» [“Público”, 27.06.14]

O PÚBLICO desafiou jornais dos sete países de língua oficial portuguesa a juntarem-se num debate global sobre o futuro do português, publicando um texto nos seus jornais no dia em que se celebram os 800 anos da língua portuguesa.

27 de Junho de 1214 é simbolicamente considerado o nascimento da nossa língua por ser o dia do documento mais antigo que se conhece escrito em português, o testamento do terceiro rei de Portugal, Dom Afonso II. Vinte e quatro jornais aceitaram a proposta. Os textos são assinados por directores, chefes de redacção e jornalistas especialistas na questão da língua. Sugerimos textos francos, com opinião e uma visão própria sobre a língua. Em breve, no PÚBLICO, publicaremos o conjunto no nosso site. A visão portuguesa é certamente diferente da brasileira, da timorense, da angolana, da moçambicana… O debate vai ser estimulante. Esta é a lista dos jornais que se juntaram à iniciativa: Angola: Jornal de Angola; Jornal da Cultura; Jornal de Economia e Finanças, O País; Semanário Angolense. Brasil: Folha de São Paulo; Zero Hora; Veja. Cabo Verde: A Semana; A Nação; Expresso das Ilhas. Guiné-Bissau: Nô Pintcha; O Democrata; Última Hora. Moçambique: Canal de Moçambique; O País; Jornal Notícias; Savana; A Verdade. São Tomé e Príncipe: Jornal de S. Tomé; Téla Nón. Timor: Independente; Lusa; Suara Timor Loro Sa’e.
A Direcção

[Nota da Direcção Editorial do jornal “Público” de 27.06.14.]

Evidentemente, aqui daremos conta, no “site” da ILC AO, dos textos produzidos no âmbito desta iniciativa do jornal “Público”, desde que se insiram nos nossos próprios critérios de (re-)publicação.

«A velhíssima mãe e os seus diferentes filhos» [Nuno Pacheco, “Público”, 27.06.14]

É sempre ingrato falar de algo tão usual como a língua, mas talvez seja por muito falarmos dela, com euforia e sem tino, que a ela sempre voltamos, como náufragos sem madeiros que nos valham num mar imenso. Vamos, pois, à língua e aos seus futuros.

Mas é impossível falar em futuro sem relembrar, ainda que brevemente, o passado. O tempo do galego-português (ou galaico-português, se preferirem), nascido do latim no ângulo noroeste da Península Ibérica, depois da presença romana iniciada em 218 a.C. Outras invasões e conquistas trouxeram outros falares. E se o latim escrito continuava como língua de cultura e transmissão de conhecimento, o português nascido de uma das línguas peninsulares (galego-português, castelhano e catalão; os bascos não haviam abraçado o latim e assim se mantiveram) viu o seu vocabulário, latino e grego na origem, enriquecer-se com palavras de origem germânica (menos) ou árabe (mais). O Testamento de D. Afonso II, que está na origem da mais recente euforia celebrativa, está datado de 27 de Junho de 1214 (faz agora exactamente 800 anos) e é, a nível oficial, o mais antigo documento escrito em língua portuguesa de que há registo. Mas o português não parou por aí, e às influências da proximidade com o castelhano (que chegou a ser usado como segundo língua falada e escrita, inclusive por Gil Vicente e Camões) veio depois a ser influenciado, a partir do século XVIII, pela língua francesa. Gramática, Ortografia e Lexicografia iam-se desenvolvendo desde o século XVI. E iam surgindo os dicionários e vocabulários, com realce para os de Bluteau e de Morais e Silva (ambos escritos e publicados já no séc. XVIII). Por onde andava o português falado, já então?

A crescer e a modificar-se, mas em caminhos diversos consoante as geografias. Portugal e Brasil, mantendo unidade ortográfica até aos últimos tempos da monarquia portuguesa (já o Brasil se tornara independente em 1822), caminhavam para uma óbvia e natural separação em termos de expressão linguística. A velhíssima mãe-língua, ela própria com ainda mais antigos progenitores e parentes, via os filhos crescer, sem contudo prestar atenção suficiente às suas necessidades e diferenças. África, neste campo, também por via da colonização, viu-se a braços com o português como língua oficial (de ensino, de administração) mas não de uso. Porque nesse papel estavam as línguas maternas, não as do colonizador. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe tinham crioulos próprios (ainda hoje de uso comum no dia-a-dia), Guiné-Bissau, Angola e Moçambique tinham (e têm) várias línguas, correspondentes a etnias. E se os movimentos de libertação africanos optaram pelo português no momento de escolher uma língua oficial, isso deveu-se à necessidade de evitar divisões (escolher uma língua em detrimento de outra acirraria tribalismos) e ao mesmo tempo de aproveitar o esteio do conhecimento já semeado pelo português.

Depois disso? O vazio, ou quase. Quando, após as independências, os países africanos clamaram por professores, por ajuda no ensino, a resposta foi fraca ou nula. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau quiseram incentivar o português em finais dos anos 1970, mas com parco sucesso. Manuel Ferreira (1917-1992), professor e africanista célebre, autor de livros como Hora Di Bai ou A Aventura Crioula, escreveu em 1988 num livro intitulado Que Futuro Para a Língua Portuguesa em África? (curiosamente, a mesma pergunta que hoje repetimos mas com os olhos postos em ambições maiores) o seguinte: “Houve um período em que esses três países procuraram, insistentemente, socorrer-se de Portugal para a contratação de professores cooperantes, mas sabe-se de quanto os sucessivos Governos portugueses, socialistas ou social-democratas, mostraram estranhamente um soberano desdém pelos continuados apelos dos Governos desses países.” Agostinho Neto terá dito, então, que ia bater a outra porta: a do Brasil.

Pois foi exactamente no Brasil que a língua portuguesa tomou forma distinta, falada e escrita e isso deveria constituir motivo de orgulho. Ao contrário do desprezo a que foi votada África. Cuidou-se excessivamente da ideia de língua oficial, descuidando a língua de uso. Artifício útil para palestras, mas máscara de enorme incompetência. Quando hoje se levanta a bandeira dos “250 milhões de falantes”, Brasil e Portugal são contados na íntegra mas África e o Oriente (Índia, Macau e Timor) são esquecidos na realidade dos seus dias, das suas populações, mesmo que sejam lembrados num punhado de intelectuais, governantes e funcionários. Temos, por incompetência e cobiça, os olhos postos nas altas esferas do poder, mas esquecemos a aldeia, a sanzala, a tabanca. Não nos importamos de mentir quando, alardeando o português como “língua de negócios”, tratamos desses negócios naturalmente em inglês, não só no estrangeiro mas também em Portugal, como se o nosso idioma nos envergonhasse, subservientes como sempre ao que nos vem de fora e achamos mais capaz e mais útil. Como queremos que o português seja língua de trabalho no estrangeiro quando nem em Portugal o é? Quem queremos enganar com tais sonhos de expansão, quando os esforços têm sido contrários, no sentido de fechar, minguar, menorizar o português perante outros idiomas, esses verdadeiramente internacionais porque, em lugar de se auto-elogiarem, impõem-se, fazem-se ouvir. Os ingleses não falam da língua, falam a língua. Assim o deviam fazer os portugueses.

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