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«A vingança ortográfica serve-se gelada» [por Fernando Venâncio (no Facebook)]

Quem não conhecer os autores do artigo suporá dois brasileiros apanhados, sem culpa pessoal rastreável, na onda da choldra (olá, João) ortográfica. Quem souber que eles são, também, os autores do mais conhecido «Vocabulário Ortográfico» português, o do ILTEC, concluirá foram apanhados, e de que maneira, na própria rede. Vamos a pormenores.

O volume colectivo «O Português no Século XXI» (Ed. Parábola, São Paulo, 2013) inclui o artigo «Dicionários e vocabulários ortográficos na constituição da norma», assinado pelos portugueses MARGARITA CORREIA e JOSÉ PEDRO FERREIRA. São 22 páginas interessantíssimas, e informadíssimas, que recomendo vivamente a interessados.

A impressão de tratar-se de autoria brasileira funda-se na ocorrência de formas como «cotidiano», «fato», «registrar», «registro», «usuário», de particularidades como «gênese», «fenômeno», «ingênuo», «polêmica», «sincrônico», «sinônimo», ou de grafias (acordizadas para Portugal) como «adoção», «ato», «correção», «correto», «fator», «objetivo», «refletir», «seleção». Mais brasileiras ainda são sequências como «Sua faceta normativa», «Seus autores propõem-se», «se analisarmos seu conteúdo». Há, ainda, as novidades acordísticas gerais «autorregulação», «heroico», «veem», mais as novidades acordísticas brasileiras «bilíngue», «monolíngue», «multilíngue».

No conjunto, porém, o texto apresenta suficientes traços de genuíno fabrico europeu. E, para quem delas precisasse, as informações no final do volume não enganam: a prof. Margarita Correia e o dr. José Pedro Ferreira são dois compatriotas nossos.

As perplexidades aumentam quando deparamos com as seguintes curiosidades (indicam-se as páginas):

300: confecção
302: aspectos, aspetos, caráter, aspecto
304: caraterísticas, perspectivas, acepções, caráter, concepção
306: conceções, conceções
309: perspetiva, perspectiva
310: perspetiva, conceção, conceção
312: perspectivas
313: acepções, aspectos, acepções
314: carácter, acepções, acepções, caráter, aspectos
316: confeção
317: perspectiva

Um «Lince» com tosse? Sabotagem do inimigo (e qual)? Efeitos atlânticos das manchas solares? Eu acredito em tudo. Já estou por tudo. Mas não posso tomar estes senhores a sério.

Fernando Venâncio

[Transcrição integral de “post” (público), da autoria de Fernando Venâncio, publicado na página “Acordo Ortográfico Não!” (Facebook) em 17.06.13 às 17:15 h. “Links” inseridos por nós. A imagem foi copiada do “post” original.]

«Escamotear os problemas» [por Vasco Graça Moura]

No seu artigo “O português na encruzilhada” (Expresso, 2 de Março de 2013), Margarita Correia procura caracterizar dois caminhos para a língua portuguesa.

Vejamos a caracterização que ela faz desses caminhos, começando por aquilo a que chama “via A”.

“A via A corporiza-se no desmembramento da unidade transnacional do português, através do afastamento progressivo (mais político que linguístico) das suas variedades nacionais, podendo conduzir ao surgimento de novas línguas.”

Nunca ninguém defendeu o desmembramento da unidade transnacional do português, nem o afastamento progressivo das suas variedades nacionais. O AO é que, ao não consagrar critérios para a incorporação de vocábulos das línguas nativas (africanas, por exemplo), adopta uma atitude neo-colonialista e abre a porta ao tal afastamento progressivo das variedades nacionais.

“a) a língua tem um país-dono, de onde é originária, a que compete em exclusivo a sua regulação”.
É absolutamente falso! Esta facticidade é fabricada para permitir a objecção. Ninguém defende que Portugal seja dono da língua nem que lhe compita o exclusivo da sua regulação. Os autores do AO é que consideraram Portugal e Brasil os únicos países-donos da língua, esquecendo todos os outros que a falam.

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«Intimação ao Professor Malaca» [VGM, DN]

Num esgar de arrogância despeitada, o Prof. João Malaca Casteleiro diz ao Expresso de sábado passado, sobre a minha tomada de posição contra o Acordo Ortográfico: “É um autêntico disparate e uma atitude mesquinha, revelando espírito de vingança. Quem vai pagar estes custos?”.

Tenho pouca paciência para os trejeitos do autor de um livro intitulado O Novo Acordo Ortográfico, que não li, não tenciono ler e achei, de resto, perfeitamente detestável. Num gesto largo e moscovita, deixo essa ocupação para a moleirinha ociosa do Dr. António José Seguro que decerto muito lucrará com isso.

O professor Malaca tem-se especializado em produções de medíocre qualidade, como o famigerado e redutor dicionário da Academia das Ciências, abominável exercício de encolhimento do português contemporâneo, de cuja revisão ele parece agora ter sido dispensado. Mas não vale a pena gastar cera com ruins defuntos. E quanto a quem paga custos e que custos, estamos conversados…

Também não vale a pena tratá-lo como interlocutor capaz quanto a questões jurídico-constitucionais relativas à recepção na ordem interna dos tratados e convenções internacionais. Prefiro poupá-lo aos custos desse ingente esforço intelectual.

Mas já vale a pena intimar o professor Malaca a responder muito concretamente aos pontos seguintes:

O art.º 2.º do AO dispõe: “Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.”

Sendo certo que o prazo inicialmente referido foi modificado, deve o professor Malaca responder sem subterfúgios onde é que está esse vocabulário comum.

Não existindo esse vocabulário comum, deve dizer sem subterfúgios onde é que está a plataforma ou instância formada por instituições e órgãos competentes dos Estados signatários, com o mandato e o objectivo de elaborá-lo, qual o seu calendário de reuniões e qual o teor daquilo que tenha deliberado.

Ainda quanto a este aspecto, deve responder, sempre sem subterfúgios, quais são, em Portugal e nos outros países as instituições e órgãos competentes para o efeito.

Caridosamente, informo-o de que não vale a pena fazer batota: em Portugal, a instituição competente é a Academia das Ciências, o que o Governo Sócrates esqueceu em patente violação da lei, e não o ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional), que é um simples instituto universitário e não tem qualquer competência formal ou institucional na matéria (tem financiamentos da FCT cujos montantes podem ser objecto de indagação, já que o professor Malaca se mostra tão preocupado com custos).

Supondo que ele respondeu correctamente às questões que antecedem, fica intimado a explicar também como é que entende que o AO de 1990 pode ser aplicado sem a verificação desse pressuposto.

A segunda ordem de questões prende-se com regras do próprio AO.

Diz a al. c) do n.º 1 da Base IV do AO que o c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt, se conservam ou eliminam “facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor; ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção”.

Sendo assim, é o professor Malaca intimado a esclarecer, imediatamente e sem subterfúgios, se a aplicação de uma ferramenta de conversão automática que elimine na prática a possibilidade de opção entre essas facultatividades corresponde a cumprir o AO.

E por fim é o professor Malaca intimado a identificar, localizar e caracterizar as pronúncias cultas dos sete países signatários do AO, de modo a que a base IV seja exequível.

Vasco Graça Moura

[Transcrição integral de crónica da autoria de Vasco Graça Moura no “Diário de Notícias” de hoje, 08.02.12.]

Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.

«Correspondência vira-lata com a Academia» [TRB, Brasil]

Enviei há dias a seguinte pergunta aos responsáveis pelo Portal da Língua Portuguesa:

São incontáveis (no sentido de “centenas, talvez milhares”) os casos em que é apresentada como brasileira uma grafia desconhecida no Brasil. Em que fonte se basearam para dizer que “extracto” é português do Brasil?

Os ditos responsáveis tiveram a gentileza de responder da seguinte maneira:

Caro utilizador

Obrigado pela sua mensagem e pelo seu interesse nos nossos recursos.

A nossa fonte para o português brasileiro foi o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, 5.ª ed., que atesta a forma ‘extracto’.

Ao seu dispor, com os melhores cumprimentos, A equipa do Portal da Língua Portuguesa

Enviei-lhes imediatamente a resposta que se segue, na qual, por polidez e cortesia, me abstive de comentar os dois ou três erros de português que conseguiram cometer em tão poucas e pouco úteis palavras.

Caros respondedores,

obrigado pela vossa resposta e obrigado pelo vosso interesse na minha pergunta.

Se a vossa fonte para o português brasileiro foi o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, 5.ª ed., talvez devessem levar em conta o fa(c)to de que o dito vocabulário diz-se “da língua portuguesa” e não “da língua portuguesa brasileira”, e que as moças e os rapazes da Academia Brasileira de Letras são, além de apreciadores de um bom chá na companhia dos seus pares, gente muito polida e cortês que faz questão de registrar todas as formas da língua chamada portuguesa, o que inclui também, talvez para a vossa estupefa(c)ta surpresa, algumas variantes ortográficas do país chamado Portugal..

Contudo, sendo as senhoras e os senhores da Academia Brasileira de Letras e sobretudo os rapazes e as moças que nela servem em funções menos excelsas que o tomar chá com os seus pares gente que, além de polida e cortês, é também falível e incompetente e alheia a questões rasteiras como o rigor e a coerência (o que se atesta com óbvia e cristalina clareza na lambança a que chamaram Acordo Ortográfico), as supramencionadas polidez e cortesia não os levam a extremos tais como o de ter o trabalho de incluir de fa(c)to todas as variantes utilizadas em Portugal, nem de – deusnoslivre! – remover do dito Vocabulário Ortográfico todas as formas registradas no vocabulário original de 1943, época em que o Brasil, vítima quiçá do irreprimível complexo de vira-lata que até hoje grassa nas suas (mal) chamadas elites, considerava elegante e culto grafar palavras de modo não imediatamente compreensível para o falante brasileiro comum.

Esta combinação desafortunada de polidez, preguiça, cortesia, incompetência e vira-latice resulta em um vocabulário cuja falta de rigor deveria ser uma ululante evidência para qualquer pessoa minimamente versada – no sentido de oficialmente alfabetizada – nos meandros da nossa ortografia (agora) comum, tornando-o inútil para um portal que se quer um “apoio a quem trabalha com a língua portuguesa”. Todavia, acaso contaminados pelo descaso dos seus cong(ê/é)neres brasileiros, os responsáveis pelo Portal da Língua Portuguesa preferem a via fácil da ado(p)ção acrítica de uma lista cujos autores nunca se deram o trabalho de conferir os usos correntes do idioma que pretendem inventariar, produzindo um corpus cuja utilidade para quem trabalha com a língua portuguesa tende a zero.

Ao seu dispor, com os melhores cumprimentos deste vosso humilde utilizador,

Tomás Rosa Bueno | Tradutor | Bariloche, Argentina

[Transcrição integral, autorizada pelo autor, de post publicado hoje, 20 de Julho, no blog Postanterous.]

É mentiroso e é coxo

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa em 1990, aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 43/91, ambos de 23 de Agosto, simplifica e sistematiza vários aspectos da ortografia e elimina algumas excepções ortográficas, garantindo uma maior harmonização ortográfica.

O Acordo Ortográfico visa dois objectivos: reforçar o papel da língua portuguesa como língua de comunicação internacional e garantir uma maior harmonização ortográfica entre os oito países que fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

[Extractos da “Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011“, de 25 de Janeiro.]

1. «maior harmonização ortográfica»
Não há grande “harmonização” quando existem pelo menos 69.000 duplas grafias no VOP.

2. «elimina algumas excepções ortográficas»
Mas cria muitas outras duplas grafias que até agora não existiam. Apenas alguns exemplos:

3. «reforçar a língua portuguesa como língua de comunicação internacional»
Em que versão de “língua unificada”, a portuguesa ou a brasileira? ‎

Nota 1: os números de totais resultantes de cada pesquisa podem variar ligeiramente, dependendo de uma série de factores técnicos.
Nota 2: a base-de-dados VOP/ILTEC/PLP está em processo de fabrico, por assim dizer; ou seja, os resultados das pesquisas aumentarão certamente com o tempo, tanto em número absoluto de resultados como em número de erros absolutos.