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AO90: «uma agenda oculta» [A. F. Augusto, jornal “O País” (Angola), 08.05.15]

O (Des)Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: uma agenda oculta (I) (uma abordagem na perspectiva da Ideologia Linguística e Análise Crítica do Discurso)

8 Maio 2015

António Filipe Augusto

No meu artigo publicado em 21 de Novembro de 2014, pelo Semanário O País, começo por sublinhar que “ a decisão acerca de adopção e/ou adaptação de um sistema ortográfico com fins de grafização de uma determinada língua ou conjunto de línguas é, e foi sempre, um processo de uma profunda investigação e aturados debates académicos, políticos e sociais e constitui um elemento preponderante entre os três pilares que sustentam o processo de Planificação Linguística, sendo por sinal, o elemento ‘sine qua non’ para a implementação da Política Linguística de um Estado”. No mesmo texto deixei claro que a “Política Linguística de um Estado sério e responsável”, e aqui acrescento, que se diz ser independente, “é concebida por uma equipa criada de forma transdisciplinar e inclusiva”, e aqui acrescento, e é de inteira responsabilidade desse Estado. A Planificação Ortográfica, por sua vez, constitui um elemento crucial, pois, ela é um dos três pilares do processo da Planificação Linguística.

Porém, nos primórdios da última década do século passado, Portugal e Brasil entenderam conceber e liderar um processo de planificação linguística, e mais precisamente uma reforma ortográfica da língua portuguesa a que denominaram por Acordo Ortográfico Unificado da Língua Portuguesa, cujo “objectivo explicito”, alegam, “é de pôr fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes”. Com esta planificação linguística, os protagonistas da referida reforma ortográfica advogam que o pretérito “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 pretende instituir uma ortografia oficial unificada da língua portuguesa” e “actualizar o sistema ortográfico que data desde o Acordo do ano de1945”.

Os proponentes da política impõem esta ortografia, de uma forma implícita, a todos os países falantes do português como língua oficial, mesmo não fazendo parte do processo inicialmente, ‘ipso facto’, sentiram-se na obrigação de “persuadir” as lideranças políticas dos países africanos que têm o português como língua oficial para aderir ao acordo, o que parcialmente acabaram “cegamente” fazendo. Este facto, leva os analistas de políticas linguísticas a uma perturbação, não somente académico, como político-social. Esta perturbação pode traduzir-se em várias inquietações, tais como: com que legitimidade podem Portugal e Brasil conceber a política linguística para os países africanos que se dizem independentes? Que tipo de independência clamam estes países ter se ainda são linguisticamente dependentes da sua potência colonizadora? Aqui, é preciso salientar que segundo a Ideologia Linguística, a independência de um Estado começa pela independência linguística, pois, a língua é um potente instrumento de controlo, de poder e de manipulação.

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Mil Novecentos e Noventa

It’s a beautiful thing, the Destruction of words. Of course the great wastage is in the verbs and adjectives, but there are hundreds of nouns that can be got rid of as well.

 

E de que é que te serviu isso?
Não serviu de nada, porque o deitei fora ao fim de uns minutos. Mas se hoje acontecesse a mesma coisa, guardava o papel.
— Olha, eu não! — disse Júlia. — Estou disposta a correr riscos, mas só se for por alguma coisa que valha a pena, não é cá por recortes de jornais velhos. Se tivesses guardado o papel, que é que podias ter feito com ele?
— Talvez não pudesse ter feito grande coisa. Mas tratava-se de uma prova. Podia ter semeado a dúvida aqui e ali, partindo do princípio de que teria coragem para mostrá-lo a alguém. Não acredito que haja hipótese de alterar o que quer que seja durante o nosso tempo de vida. Mas podemos imaginar pequenos focos de resistência a nascer aqui e ali… pequenos grupos de pessoas que se organizam, que vão crescendo a pouco e pouco, deixando talvez até um testemunho, de forma a que a próxima geração possa partir do ponto em que nós ficámos.
Quero lá saber da próxima geração, querido. O que me interessa somos nós.
Só és rebelde da cintura para baixo disse ele.

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«A desistência da Língua» [Inês Pedrosa, “Sol”, 16.12.14]


«Em vez de cuidar do reforço do ensino da Língua no mundo, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem passado as últimas décadas entretida com um acordo impossível.»

Inês Pedrosa

A desistência da Língua

A desistência da Língua

16/12/2014 22:34:38

Numa das últimas vezes em que escrevi um artigo contra o chamado Acordo Ortográfico, um amigo aconselhou-me a abandonar o assunto porque, estando já prestes a entrar em vigor no Brasil, seria inútil contestá-lo. Acrescentou que a não-adesão criaria problemas económicos a Portugal.

Este modelo argumentativo diz muito sobre o tempo em que vivemos: os espertos são os que seguem o rebanho e desistem de pensar pela própria cabeça, para não levantar ondas. Em caso de resistência, apela-se ao incontestável Deus da Economia, que suspende qualquer explicação.

Sucede que aquilo a que se convencionou chamar Acordo Ortográfico é uma fraude, porque:

a) Não estabelece nenhum acordo (a palavra recepção continuará a escrever-se com ‘p’ no Brasil e perde o ‘p’ em Portugal, porque o fundamento da ortografia passa a ser a pronúncia – e ainda por cima o texto refere a “pronúncia culta”, o que agrava o patético do tema);

b) Confunde os utilizadores, dado que a etimologia das palavras, que esclarecia as dúvidas, deixa de se aplicar. Sintoma de uma época que despreza a memória e vive em esquecimento acelerado, este ‘acordo’ ignora voluntariamente a história e o trajecto da Língua. É mais um passo no caminho do desprezo pela riqueza e pela força da Língua Portuguesa.

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Duas assinaturas a menos…

No meio de tantas cartas é natural que surjam também casos deste género.

Esta é, claramente, uma situação de falta de informação. A estas duas subscritoras não chegou toda a informação necessária para bem subscrever a ILC. A morada está correcta, a forma de subscrição — em papel — também. A falha dá-se ao nível dos dados que devem forçosamente acompanhar a subscrição: nome completo, nº de BI ou CC, nº de eleitor e Freguesia e Concelho de recenseamento.

A melhor maneira de não nos esquecermos de nada é fazer donwload do formulário de subscrição, que pode ser encontrado aqui. Se o preenchermos correctamente, podemos ter a certeza de que não falta dado nenhum. Depois é só enviar esse mesmo formulário para a morada indicada — a mesma que estas duas subscritoras utilizaram e que consta no próprio formulário. Aqui fica o alerta para todos quantos ainda não subscreveram a ILC.

A Língua Portuguesa agradece.

«Portugal e o latim» [Susana Marta Pereira, “Público”, 11.04.14]

SUSANA MARTA PEREIRA 11/04/2014 – 01:49

O latim representa mais de dois mil anos de cultura. Foi nele que o mundo ocidental produziu, até ao século XVIII, a sua ciência, filosofia, religião; a sua história é a matriz das línguas românicas, tendo significativos ecos em línguas como o inglês e o alemão. Aprender esta língua é ter acesso a uma cultura milenar que fundou, juntamente com o grego, a sociedade moderna e cujos valores transportam saberes, desde a área jurídica à educação e à medicina.

Países como Inglaterra, Alemanha e Espanha colocam, actualmente, nos seus curricula o ensino do Latim, por perceberem a sua relevância na aprendizagem de matérias tão diversas que vão desde a matemática à biologia, à filosofia, à literatura e à aprendizagem das línguas, entre elas o inglês e o alemão. Em Portugal segue-se o caminho oposto.

Aos poucos, a aprendizagem do latim tem vindo a morrer, sendo vários os factores que estão na génese desta lenta agonia; os principais são a ignorância e o desconhecimento da importância desta língua por parte de quem decide. Num país onde se aplica um acordo ortográfico que renega a matriz do português, não é de espantar que se olhe para o latim como uma língua menor.

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«mas nunca uniformizá-las em tarefa impossível» [R.M. Rosado Fernandes]

Ortografia significa a “grafia correcta, certa” que reproduza em todas as suas particularidades as características fonéticas e  morfológicas de uma língua. Ora nos países lusófonos e em muitos outros, tal é impossível, por haver variantes fonéticas, e muitas, morfológicas e até semânticas e vocabulares. Basta ler “Chiquinho” ou qualquer livro brasileiro, para vermos a irredutível impossibilidade de uniformização. Não é por acaso que países mais pragmáticos, como a Inglaterra, a França e mesmo a Espanha, com as inúmeras variedades de pronúncia e de vocábulos que, como colonizadores, deixaram pelo mundo fora, para verificarmos que apesar das diferenças, tentam conhecê-las, mas nunca uniformizá-las em tarefa impossível, até porque o orgulho nacional e político o impede, digamos mesmo, o proíbe, pois em nadas acrescentaria. R.M.Rosado Fernandes

[Transcrição integral (e literal) da resposta do Professor Rosado Fernandes a um pedido de informação da CECC (Comissão de Educação, Ciência e Cultura).]

Traduções de Português para “brasileiro” (“ao abrigo do AO90”, é claro)

All Portuguese language editions of Saída de Emergência will be further translated into Brazilian to accommodate differences in the written word between Portugal and Brazil, prior to publication.

[trad.]
“Todas as edições da ‘Saída de Emergência’ em Língua Portuguesa serão adicionalmente traduzidas para Brasileiro [sic] por forma a adaptar as diferenças de escrita entre Portugal e Brasil antes da publicação.”
[/trad.]

[Imagem e citação de SFcrowsnest.]

[Via Octávio dos Santos.]

Actualização (17:22)
Através de informação de Octávio dos Santos constatámos ter sido entretanto alterado o “post” original aqui citado. No entanto, Hermínia Castro tinha guardado uma cópia em PDF que, depois de convertida para formato “Word”, mostra (e demonstra) sem qualquer sombra de dúvida que o excerto aqui transcrito confere rigorosamente com o que lá estava. E que estava lá também um comentário do próprio Octávio dos Santos, igualmente apagado posteriormente pelos administradores daquele “site” inglês.

Um depoimento comentado (2ª parte)

O que se segue é uma transcrição anotada (2.ª parte, ver anterior AQUI) do depoimento de José António Pinto Ribeiro, advogado, ex-Ministro da Cultura, perante o Grupo de Trabalho parlamentar sobre o AO90 em audição realizada em 23 de Maio de 2013.

A transcrição (de gravação áudio) foi realizada por Hermínia Castro e as anotações, comentários e “links” são da autoria de Maria José Abranches.

E portanto acho que, aquilo que aqui se exprime é, digamos, ainda essa resistência. [Resistência que não é só de “sectores relevantes” da sociedade, mas também da larga maioria dos cidadãos comuns.]

Isto não significa que o acordo ortográfico seja perfeito, primeiro, que a gente não possa sair dele, segundo, que seja perfeito e que não possa ser modificado ou que não deva ser modificado e que não deva ser alterado e que não deva ser, em muitos pontos, melhorado ou não melhorado, ou seja, o que entenderem, não me sei pronunciar sobre isso. Sim, conheço, sim, li, sim, estudei, mas é assim. O que é que gostava de dizer? Tem a ver com há ou não há justificação, é ou não importante que exista um acordo ortográfico? Sobre o conteúdo do acordo ortográfico, sobre a sua função, eu gostava de me [inaudível] apenas em diplomas que existem publicados, o Anexo II ao acordo ortográfico de 90 tem uma explicação, uma explanação sobre os antecedentes do acordo ortográfico, os acordos ortográficos ou as regulamentações ortográficas anteriores, e porque é que foram ou não foram um êxito, o que é que deu e o que é que não deu.

Mas, digamos, eu diria que aquilo que é hoje mais ou menos aceite [por quem?], é que a língua portuguesa, e Portugal, e portanto o interesse do país e o interesse da língua portuguesa levam a que haja e que se defenda a existência de um acordo ortográfico, de uma norma, de um instrumento normativo, de natureza legal, o que seja[qualquer coisa, conteúdo e qualidade não interessam!], que permita fixar a ortografia da língua portuguesa, aproximar a ortografia da língua portuguesa, fazer com que a língua portuguesa tenha uma ortografia única [Como disse? (*)]. Ou tanto quanto possível aproximada [Os resultados desta “unificação” estão à vista…].  As tentativas de fazer uma uniformização a 100% goraram-se, [em] 75, as tentativas de 86 de fazer uma aproximação a 95% ou 99,5% também se goraram e portanto escolheu-se aqui uma solução que foi a de ver se se aproximava uns 98% da grafia e se havia eventualmente umas grafias que se mantinham com alguma divergência. Foi uma solução tomada, a única coisa que quero dizer é que acho que é pacífica a existência da necessidade de um acordo ortográfico entre oito países que falam a língua portuguesa como língua oficial [desses oito países, sete têm (“tinham”?) uma ortografia comum, desde sempre, e é essa coesão ortográfica que o AO90 vem romper; apenas um, o Brasil, tinha optado, desde 1907, por ter uma ortografia diferente], entre um conjunto de pessoas que formam comunidades significativas de falantes do português, entre pessoas que falam a língua portuguesa e a escrevem, mesmo que seja como segunda língua, que vivem mais dispersas, entre pessoas que trabalham com a língua portuguesa porque são professores de Português, porque querem dar aulas de Português, porque ensinam Português nos mais variados sítios, sejam eles naturais portugueses, de nacionalidade portuguesa, de qualquer outro país de língua oficial portuguesa ou não, e portanto eu diria que é bastante pacífico isso. [Não, de todo, isso não é nada pacífico, não passa de simples falácia. Mais uma. (*)]

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«Primeiro Ato (e depois desato?)» [Nuno Pacheco, “Revista 2”, 02.06.13]

Todos os pretextos são bons para falar dos irmãos Gershwin e este é tão bom como qualquer outro. Lembram-se da canção Let”s Call The Whole Thing Off? No filme Shall We Dance (Vamos Dançar?, 1937), coube a Fred Astaire e Ginger Rogers cantá-la, em dueto. Era (foneticamente) assim: “You say eether and I say eyether, You say neether and I say nyther (…), You like potato and I like potahto, You like tomato and I like tomahto (…) You say laughter and I say lawfter, You say after and I say awfter.” Ira Gershwin (o letrista, a música fê-la o irmão George) brincava com a pronúncia para colocar um casal em desavença: se um gosta de “putéitóu” e “tuméitóu” e outro de “putatu” e “tumatu” como haviam de se entender, hã? Enquanto pensam, experimentem ouvir a versão, também em dueto, que deste tema fizeram Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Absolutamente impagável.

Gershwin à parte, “divergências” destas também se encontram noutros ramos. Na política, por exemplo. Eça de Queirós, nas suas Farpas (que reuniu em 1890 num livro intitulado ‘Uma Campanha Alegre’, cuja leitura vivamente se aconselha), já notava “divergências” assim entre os partidos da monarquia constitucional. Uns defendiam as “liberdades públicas”, outros as “públicas liberdades”. Como haviam de se entender, nesse intransponível abismo? Muitas décadas depois, também os partidos da extrema-esquerda portuguesa se combateram como inimigos por defenderem coisas absolutamente inconciliáveis. Um queria Paz, Pão e Liberdade; outro Liberdade, Paz e Pão; e outro, finalmente, Pão, Liberdade e Paz. O preço destas “diferenças” era um ódio vertido em escaramuças constantes.

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Da “ignorância” [por Helena Langford, comentário Facebook]

Sou tradutora/intérprete profissional, trabalho há quase 30 anos neste ramo, primeiro em Portugal, de onde sou natural, e de há 10 anos a esta parte no Reino Unido onde hoje resido. Especializei-me nas línguas inglesa (indiferenciadamente GB, USA, Australiana, NZ, Canadiana, Queniana, Sul Africana, Indiana, Jamaicana… etc…), e, na língua portuguesa, ou seja na fatia dela muito recentemente restrita à designação: “de Portugal” ou “UE” pela comunidade anglófona.

Esta última fatia do Português UE, cada vez está mais difícil de definir… Será a que aprendi na escola, e na qual fiz os meus estudos, inclusivamente os superiores, que me têm valido sempre sem sobressalto até à data presente… aquela com que sempre trabalhei ao longo dos anos sem problemas… a que abrangia o Brasil, Moçambique Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola, Timor e Macau?… Ou aquela do recente “Acordo” Ortográfico para o qual comprei dicionário especializado, e à qual já não sei quem adere, nem o que é que abrange? Convenhamos que é profundamente triste, ridículo e embaraçoso quando os clientes, ao fim de tantos anos de vida profissional, agora me interpelam: “Mas a Sra trabalha com brasileiro?” “Haaa… então vai-me desculpar mas não serve, vamos procurar outra pessoa… é que nós só queremos brasileiro, não estamos interessados em português…

Por muito que eu lhes tente explicar que a língua é só uma, embora utilizada com as devidas adaptações culturais e de localização que qualquer língua exige de um bom tradutor, não há maneira de os convencer. E até compreendo… pois na óptica deles quem sou eu afinal, ali a querer contrariar o óbvio tão recentemente confirmado preto no branco à comunidade internacional?? Olham para mim como que a dizer: “A mulher passou-se! Está desactualizada…” Profissionalmente até me prejudico com esta imagem de “ignorância”!

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