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«Nem Camões resiste no abandono da nossa identidade» [Castro Guedes, “Público”, 10.06.15]

publicoNem Camões resiste no abandono da nossa identidade

Castro Guedes

10/06/2015 – 05:07

Por acaso não venho falar do (des)acordo. Mas venho aproveitar o velho Dia de Camões para falar d’“Os Lusíadas”. Ou melhor: da loucura sagrada de um actor português (com carreira profissional há mais de 30 anos, o António Fonseca) que desde 2008 se meteu na epopeia de decorar e recitar os dez cantos do poema da nossa odisseia histórica.

Foi apresentando-os um a um, numa ciclópica tarefa, paciente, devotada e rigorosa, até chegar a completar o livrinho de Camões. Um acto que deveria, de há muito, ter sido devidamente assinalado pela comunicação social, e refiro-me, particularmente, ao silêncio impante das televisões, já que este e outros jornais não deixaram de o registar.

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«O bicho» [Afonso Reis Cabral, “Observador”, 09.06.15]

O bicho

Afonso Reis Cabral
9/6/2015, 8:07

Eu sei. Repudiar o bicho já cansa. Mas é preciso fazê-lo, sob pena de o bicho nos repudiar a nós. Neste momento cabe uma ressalva para que o retrato fique mais claro. Esquecia-me de esclarecer. Claro.

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Tudo se disse sobre o bicho. Todos bateram no bicho. O bicho foi ridicularizado, denunciado, acossado. Só não lhe espetaram uma faca porque não o encontraram sozinho num beco sem saída. Tornou-se um pária. Apesar disto, por incrível que pareça, não esquecendo os muitos defeitos e erros do bicho, precisamos de lhe gabar a resiliência: não só ainda não morreu, como se alojou bem impertinente na língua, um dos nossos locais mas íntimos. E aí vive como uma afta.

Nasceu já aleijadinho, resultado da soma de ideias erradas, ao estilo do monstro de Frankenstein (partes enjeitadas de corpos diferentes). Tinha tudo para correr mal, e de facto correu, ainda corre, e há-de correr.

Se fosse bicho de estimação – é-o apenas para uns quantos –, teria a desculpa da estima, descontando a parte do bicho. Acontece que, quando nos deparamos com ele, sentimos repulsa, não o queremos em casa. Preferimos mantê-lo distante, no máximo deitado à porta, como lembrança dos erros cometidos.

Talvez conseguíssemos adoptá-lo, ainda que seja repelente como um gato sem pêlo, se cumprisse a missão a que se propôs: unir a família. Mas a família nunca esteve desunida, mesmo usando grafias diferentes. Simplesmente trata-se disso mesmo, de uma família: entidades distintas partilhando o sangue à sua maneira.

Eu sei. Repudiar o bicho já cansa. Mas é preciso fazê-lo, sob pena de o bicho nos repudiar a nós. Neste momento cabe uma ressalva para que o retrato fique mais claro. Esquecia-me de esclarecer. Claro que «bicho» é a designação correcta para o malogro que dá pelo nome de Acordo Ortográfico.

Quero apenas realçar os traços da fisionomia do bicho que considero mais aberrantes.

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Declaração [de Pedro Barroso, Facebook, 25.05.15]


Declaração –

Eu, Pedro Barroso, autor, compositor, músico, poeta e homem de cultura, declaro não me responsabilizar pelas dívidas e prejuízos contraídos à minha revelia pelos criadores de um dito Acordo Ortográfico, que anda por aí a circular, cujo me repugna, insulta e maltrata diariamente e para o qual não contribui nem fui ouvido.

Mais declaro comparar este AO e os seus autores ao mesmo acto de vandalismo que os jhiadistas estão a perpetrar contra todo o Património cultural da Humanidade momentaneamente sob sua jurisdição.

Isto em nome de uma barbárie sem justificação nem consciência . Do mesmo modo sinto que um bando de fanáticos e tresloucados estão a matar a Língua Portuguesa, sentindo-me gravemente ofendido e insultado.

Mais entendo e defendo que a nossa Língua mãe é – ou era..- o nosso maior, o mais valioso, mais espalhado e valioso monumento cultural e está a ser dinamitado sem justificação!

Pelo acima exposto peço deferimento urgente e protecção às autoridades competentes.

(assinatura reconhecida)

Transcrição de: Pedro Barroso – Declaração – Eu, Pedro Barroso, autor, compositor,…

«Il portoghese si fa più brasiliano con l’accordo» [notícia Euronews – Itália]

Notizie

Il portoghese si fa ‘più brasiliano’ con l’accordo ortografico

14/05 11:26 CET

Nel 1968 il poeta brasiliano Vinicius de Moraes incontra a Lisbona Amália Rodrigues. Da quell’incontro nasce un album Amália/Vinicius.

Portogallo è entrato in vigore il nuovo accordo ortografico della lingua portoghese. Un evento importante perché a dicembre toccherà anche al Brasile.

La CPLP – Comunità dei Paesi di Lingua Portoghese – ha stabilito la creazione di vocabolari ortografici nazionali e, ulteriormente, un vocabolario ortografico comune che consoliderà tanto il lessico quanto le specificità di ogni Paese di lingua portoghese.

La vittoria delle telenovele brasiliane
In molti parlano della vittoria della telenovela brasiliana. Infatti, già da decenni i portoghesi si sono abituati all’accento dell’ex colonia, sui teleschermi per diverse ore al giorno.

La Comunità dei Paesi di Lingua Portoghese
La CPLP – Comunità dei Paesi di Lingua Portoghese – ha stabilito la creazione di vocabolari ortografici nazionali e, ulteriormente, un vocabolario ortografico comune che consoliderà tanto il lessico quanto le specificità di ogni Paese di lingua portoghese. Oggi sono 8 le nazioni che fanno parte della CPLC: Brasile, Portogallo, Angola, Capo Verde, Guinea Bissau, Mozambico, San Tomè e Principe e Timor Est.

I termini dell’accordo
L’accordo è frutto di un lungo lavoro dell’Accademia Brasiliana di Lettere e dell’Accademia di Scienze di Lisbona. È stato firmato nel 1990 ed è entrato in vigore, non in maniera definitiva, nel 2009 sia in Brasile che in Portogallo.

Entrambi i paesi hanno stabilito insieme un periodo di transizione in cui sarebbero valide le normative anteriore e quelle nuove. Questo periodo avrebbe dovuto essere di 3 anni in Brasile (per il Brasile scaduto nel 2012) e di 6 in Portogallo.

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Convite de Paris: traduções em Português de Portugal e português do Brasil

Convite da “Livraria Portuguesa e Brasileira” (Librairie Portugaise et Brésilienne), de Paris, França, para o lançamento – no dia 29 de Maio de 2015, às 19 h – da obra “Le Petit Prince“, de Antoine de Saint-Exupéry, das versões traduzidas para cinco “variantes” do Português: de Portugal, do Brasil, Mirandês (“lhéngua”), crioulo de Casamança e crioulo de Cabo Verde.

Le petit prince de Saint-Exupéry en portugais du Portugal, du Brésil, en mirandais, en casamançais, en créole cap-verdien le vendredi 29 mai à 19h dans le cadre de Quartier du livre Présentation du Petit Prince d’Antoine de Saint-Exupéry en portugais du Portugal, en portugais du Brésil, en mirandais (2° langue officielle du Portugal), en casamançais (créole portugais de Casamance) et en créole cap-verdien. en présence de Nicolas Quint et d’autres invités à Librairie Portugaise & Brésilienne – Michel Chandeigne 19/21 rue des Fossés Saint-Jacques (place de l’Estrapade) – 75005 PARIS Tel. 01 43 36 34 37 – www.librairieportugaise.fr Métros : Luxembourg (RER B), Cardinal Lemoine, Place Monge Bus (Panthéon) : 82, 84, 89, 21, 27 etc.

Fonte: Librairie Portugaise et Brésilienne – Article: Le petit prince de Saint-Exupéry en portugais du Portugal, du Brésil, en mirandais, en casamançais, en créole cap-verdien le vendredi 29 mai à 19h dans le cadre de Quartier du livre

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«Eu e a língua» [Ana Markl, jornal “i”, 16.05.15]

Ana Markl
16/05/2015 08:00:00

Eu e a língua

Muitas pessoas acham que corrigir os outros é uma forma de humilhação.

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Sinto que, com esta história mal contada do novo acordo ortográfico, a Edite Estrela dentro de mim deixou de brilhar. Sempre fui uma defensora apaixonada da língua, protegi com a minha vida a gramática dos pontapés dos “haviam” e de outros inimigos. Muitas pessoas acham que corrigir os outros é uma forma de humilhação. Eu sempre achei que, desde que não houvesse cagança, era um acto de amor.

E agora vejo a ortografia virar-se contra mim desta maneira, como num twist de filme de super-heróis. E quem se revela um dos meus arqui-inimigos? Malaca Casteleiro, o meu professor de Sintaxe e Semântica do Português na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

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Não estão à altura

Lemos e ouvimos que hoje, 17 de Maio de 2015, numa iniciativa conjunta, o Centro Nacional de Cultura (CNC) e o Centro Cultural de Belém (CCB) pretendem homenagear Vasco Graça Moura, que ocupou o cargo de director do CCB até ao dia 27 de Abril de 2014, data da sua morte, tendo tomado em Fevereiro de 2012 a corajosa decisão de não cumprir o acordo ortográfico de 90 na instituição que dirigia, argumentando que o mesmo, pelo facto de Angola e Moçambique não terem ratificado o acordo, não «estava nem podia estar em vigor».

Sabemos que homenagear Vasco Graça Moura implica lembrar forçosamente a obra que nos legou enquanto poeta e tradutor, numa sincera afeição e contínua homenagem à Língua Portuguesa que não pode dissociar-se da luta veemente que desencadeou contra a barbaridade do acordo ortográfico de 90 e que desenvolveu até aos seus últimos dias. Esse seu gesto de aturada resistência e de convicta desobediência marcou-nos e influenciou-nos profunda e beneficamente e será uma uma forma de o homenagear não esquecê-lo.

Numa mensagem que me dirigiu, a 13 de Janeiro de 2013, e que ouso tornar pública, porque o momento o exige, desabafava a propósito do AO: «Eu já estou exausto de tanto tratar do assunto…»

Porque sabemos que nem CNC nem CCB estarão à altura do gesto e do sacrifício de Vasco Graça Moura e do trabalho intenso por ele desenvolvido em prol da Língua Portuguesa, caber-nos-á continuar a sua luta, que é também a nossa, e sobre a qual tantas vezes nos fez reflectir, com a mesma resistência e desobediência que lhe conhecemos. Será uma verdadeira forma de o homenagearmos.

Com sinceridade e afeição!

Maria do Carmo Vieira

 

«Os apátridas da língua que nos governam» [Pacheco Pereira, “Público”, 16.05.15]

À memória do Vasco Graça Moura

Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.

Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.

Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.

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«Um património herdado» [Maria do Carmo Vieira, discurso, 13.05.15]

“Portugal no mundo: a língua portuguesa e os seus embaixadores”

O tema apresentado para debate implica forçosamente referir a Escola e o ensino da língua portuguesa, ensino que, obcecado pelo utilitário, pelo funcional e pelo «real», tem descurado, ao longo de anos, não só a Literatura, com destaque para a leitura da poesia e dos autores clássicos, mas também a História da Literatura, considerada «uma pura perda de tempo», bem como o ensino da Gramática, confundida com o «desastre» da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), mudanças profundamente agravadas com a imposição do AO de 90, «um monumento de incompetência e de ignorância», nas palavras do linguista António Emiliano. Compreender-se-á facilmente o porquê do desnorte na Escola, sob uma avalancha de mudanças que têm vindo a servir interesses e a desmotivar professores e alunos, contribuindo para a degradação do ensino da língua portuguesa, sendo de sublinhar, no entanto, e no que diz respeito ao AO, o parecer dado, em 1991, pela Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário no qual se lê: «Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos.»

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