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«Carta aberta a Malaca Casteleiro» [Duarte Afonso, “Jornal da Madeira”, 15.03.15]

Carta aberta ao professor João Malaca Casteleiro

ARTIGO | | POR DUARTE AFONSO

No programa de televisão da TVI, conduzido pela jornalista Fátima Lopes, V. Exª aproveitou a nota explicativa para se dirigir a quem está contra o acordo de forma pouco elegante.

Disse V.Exª:
“É o primeiro acordo ortográfico em que aparece uma nota explicativa.
Não sei se aqueles que se opõem ao acordo ortográfico leram a nota explicativa que o acompanha.
A nota explicativa contém todas as explicações”.

Eu li e analisei o acordo ortográfico e a nota explicativa. Infelizmente cheguei à triste conclusão que o acordo é um monte de lixo. A nota explicativa é um hino à iliteracia.

V.Exª disse ainda que temos de ter uma ortografia comum; mas o acordo ortográfico que cozinharam nas costas do povo desmente-o, porque demonstra o contrário.

A língua inglesa nunca teve um acordo ortográfico, mas mantem-se como a principal língua de referência.

Ao longo do tempo, sempre foram feitos ajustamentos na nossa língua, mas foram feitos com rigor e inteligência por especialistas competentes, e não com acordos inúteis nem com leis abusivas.

O Estado não tinha nem tem o direito de legislar sobre matérias que dele não dependem nem lhe competem. A língua é do povo, não lhe pertence, por isso não tinha o direito de se meter onde não é chamado.

O português proveio do latim popular. Era o latim que os soldados, os funcionários, os trabalhadores, e os comerciantes falavam, quando os romanos invadiram a Península Ibérica. O nosso povo foi-se afeiçoando a ela, modificando-a de harmonia com factores geográfico-sociológicos e tornou-a numa das línguas mais ricas do mundo.

A palavra chuva veio do latim popular (pluvia). Foi o nosso povo que a transformou no que é hoje. A palavra agulha a mesma coisa, veio do latim (acucula) etc.

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Um “caminhão” “antibateriano” para “compatação”

«Em particular, isso significa lidar com carro e caminhão bombas e dispositivos de beira de estrada, bem como habilidades básicas de infantaria.»

Observador


«analgésico, anódino, antibateriano, antiparasítico, antiespasmódico, (…)»

Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (R.A. Madeira)


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«O Acordo ortográfico e a iliteracia» [Duarte Afonso, “Jornal da Madeira”, 08.02.15]

O Acordo ortográfico e a iliteracia

ARTIGO | | POR DUARTE AFONSO

Passados alguns anos após a entrada em vigor do acordo ortográfico, importa reflectir na utilidade desse monstro.

Antes porém, vale a pena recordar o que foi escrito no preâmbulo do mesmo: “O projecto de texto de ortografia unificada de língua portuguesa aprovado em Lisboa em 12 de Outubro de 1990, constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”.

Ao contrário da unificação como afirmam os autores do acordo, a desunificação é total e a trapalhada não tem fim.

Há uns jornais que escrevem de acordo com as regras anteriores e outros em consonância com o monstro. Há textos escritos com e sem o acordo. Há zonas cinzentas onde se mistura tudo.

Agora, temos o português correcto que é o que se escreve em Angola, o português brasileiro, e o acordês, que é a trapalhada que se escreve em Portugal.

Na nota explicativa do acordo está escrito o seguinte: “Casos de dupla grafia (base IV)”. “Admitem as duas alternativas: cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição, facto e fato etc.”

Por um lado, falam em texto de ortografia unificada. Por outro, impõem a dupla grafia. Os autores de tão iluminada trapalhada, deviam saber que a dupla grafia não une, afasta, que é bem diferente.

Outra trapalhada.

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(Diário de) Notícias da Madeira

Neste artigo, o Maestro António Victorino de Almeida critica o “acordo ortográfico” e o Coordenador do jornal explicita a (o)posição do “Diário de Notícias – Madeira” ao AO90.

«Victorino D’Almeida homenageado na Madeira elogia Orquestra Clássica, Conservatório e Funchal | DNOTICIAS.PT»
[extracto da notícia]
«Ainda houve tempo para falar do aspecto de ligação da música e a palavra, considerando que “a música ajuda a aprender as línguas”, criticando o acordo ortográfico que faz com que o “espetáculo” tenha um “aspeto”, acentuando ao nível fonético a palavra “espeto”.»[/extracto]

[comentários à notícia]
josé madeira
Por falar em acordo ortográfico… Porque é que o DN escreve de acordo com esse malfadado acordo?… Como é possível, senhor Director (do DN-Madeira)?!!!… Tenha a coragem de dar aqui uma explicação. É uma mancha nos pergaminhos do Diário, que só o empobrece. É uma tontice, como diz o AJJ.
———————————————————————————————————
João
Bom dia sr. josé madeira
Os jornalistas do DIÁRIO escrevem de acordo com o anterior acordo ortográfico.
Penso que deve estar a fazer confusão com o facto de haver, no espaço dedicado à Opinião, opinadores que escrevem, voluntariamente, de acordo com o novo acordo ortográfico.
Grato pela compreensão.
João Filipe Pestana
Coordenador

[Extracto de notícia e reprodução de comentários à mesma em publicação do “Diário de Notícias – Madeira” (versão “online”) em 17.10.14.]

«Que ridículo!» [“Jornal da Madeira” (via Lusa), citando Alberto João Jardim, 16.03.14]

Francamente que nunca entendi a insistência e a desmedida despesa com o chamado «acordo ortográfico» para a Língua Portuguesa.

A verdade é que nos encontramos numa situação de colapso, em que os países mais populosos de língua portuguesa não o aplicam.

Eu também não. A evolução de uma língua tem a ver com a identidade e a criatividade cultural de um povo, até com o seu engenho fonético-morfológico ante as realidades que o tempo lhe vai deparando ou alterando. Reparem a riqueza vocabular e a beleza estética que a língua portuguesa ganhou no Brasil, na minha opinião porque mais livre de espartilhos do que os rigores gramaticais impostos pela administração escolar dos portugueses.

Portanto, não me venham agora obrigar a escrever ou a falar diferente, só porque por decreto. Que ridículo!…

Quando o falar e o escrever de cada um de nós, resulta de uma expressão livre ante a vida, regulada por regras gramaticais apreendidas desde a mais tenra meninice. E em que cada um ginasticou livremente a sua tradução do mundo e a maneira de comunicá-la, também contribuindo assim, individualmente, para a formação de uma Cultura que é Identidade.

É preciso mesmo se ter uma tonta visão burocrática do que é o tão diversificado mundo de língua portuguesa, em tantas e tão diferentes latitudes e costumes, para passar pela cabeça unificar o que não é unificável, graças a Deus e à Liberdade!

E ainda por cima, por decreto!…

Alberto João

[Transcrição integral de texto publicado na edição impressa do Jornal da Madeira de 16.03.14. A fonte referida pelo jornal é a agência de notícias Lusa e a autoria do texto é atribuída à página oficial de Alberto João Jardim, Presidente do Governo regional da Madeira, na rede social Facebook.]

Esta notícia chegou ao nosso conhecimento através da seguinte mensagem, enviada por Maria Fernanda Afonso, numa das nossas páginas do Facebook.

[citação]
Está provado e demonstrado que acordo ortográfico é ilegal, inconstitucional, e está cheio de erros grosseiros e disparates escandalosos.
Apesar de toda esta pouca vergonha, os nossos governantes e o Presidente da República, continuam a proteger esse monstro que está a destruir a nossa língua e a envergonhar o país.
Hoje saiu um artigo de opinião no jornal da Madeira, assinado pelo Presidente do Governo Regional, Dr. Alberto João Jardim, relacionado com o monstro.
Leiam, passem a mensagem e não se esqueçam de assinar a ILC, porque estão a matar a nossa língua com esse monte de lixo a que chamam acordo ortográfico, e temos de nos unir urgentemente, homens e mulheres de boa-vontade, para salvar a nossa língua, dignificar o nosso país e honrar a memória dos nossos antepassados.
Duarte Afonso (romancista)

[/citação]

«Carta aberta ao Sr. Presidente da República» [Duarte Afonso, J.M., 28.09.13]

A nossa língua está a ser atacada, mutilada e destruída por um monstro a que chamam acordo ortográfico, introduzido no nosso país pelo anterior governo e carinhosamente tratado pelo actual, com o beneplácito de V.Exª que o promulgou, e até hoje nada foi feito para evitar essa tragédia.

Nem os conselhos e alertas que têm surgido de todo o lado a chamar a atenção para a inutilidade do acordo, vindos de linguistas, escritores, juízes, historiadores, deputados, autarcas, professores, tradutores, jornalistas, etc., produziram qualquer efeito.

Infelizmente, já se ouve ao longe o som das trombetas anunciar o fim da estrada da nossa língua, e já começa a sentir-se o martelar no caixão da desgraça, que há-de servir para o funeral do nosso idioma, se não forem tomadas as medidas urgentes que se impõem para acabar com esse monstro.

O Estado não tinha nem tem o direito de legislar sobre matérias que dele não dependem, nem a ele competem, como é o caso da evolução da nossa língua em qualquer das suas vertentes, sendo a ortografia uma dessas vertentes.

A evolução da nossa língua foi-se adquirindo ao longo do tempo, com a introdução de alguns ajustamentos, mas foram feitos com rigor, com inteligência, por especialistas competentes, com conhecimento profundo do nosso idioma, e não com acordos inúteis e prejudiciais para o nosso país, nem com leis autoritárias e decretos abusivos.

Sr. Presidente. Os próprios responsáveis pelo acordo não estavam preparados para cumprir a sua missão, e demonstraram claramente quer no próprio acordo, quer na nota explicativa a sua impreparação, onde escreveram pérolas literárias dignas de registo. Vejamos uma pequenina passagem de uma dessas pérolas:
“Considerando que tais casos se encontram perfeitamente delimitados, como se referiu atrás, sendo assim possível enunciar a regra de aplicação, optou-se por fixar a dupla acentuação gráfica como a solução menos onerosa para a unificação ortográfica da língua portuguesa.” (5.2.4)

Esta explicação absurda, ignorante e inadmissível, só por si, reflecte de forma clara e objectiva a impreparação dos autores do acordo, porque demonstra claramente o contrário daquilo que defendem.

A dupla grafia não une, afasta, duplica, que é bem diferente. A consagração da grafia dupla reflecte a impossibilidade efectiva e incontornável de unificação.

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«Porquê esta mutilação» [J. C. Mota Torres]

Não sei porquê, fiquei com a impressão, que se mantém, – e já lá vão mais de vinte anos –, de que, uma noite bem passada, acompanhada de umas caipirinhas e de uns copos de tinto, em ambiente de elitista concupiscência, “tutelada” por grémios, associações, clubes literários, linguísticos e outros, foi suficiente para dar força à ideia de que, verdadeiramente, o que a Portugal, ao Brasil e a todos os outros países de expressão oficial portuguesa, fazia mesmo falta, era um “acordo ortográfico”. Resolveria problemas identitários, sociais, históricos e, até, económicos.

Daí até ao “acordo” e à assunção da sua imprescindibilidade, foi um ápice; e cá está ele, impante, a tentar explicar-nos que somos uns analfabetos incorrigíveis, marcadamente pusilânimes, sem sensibilidade, nem preparação para entender aquele que é o real interesse de Portugal e dos portugueses e, portanto, incapazes dessa grande associação com o progresso, com o futuro, com a modernidade e com a portugalidade. Passe o tom tendencialmente irónico deste parágrafo, importa, realmente, é dizer-lhes, sobretudo ao poder político, que alinhou, sob o meu ponto de vista, levianamente, em todo este diletante processo, que nos sentimos amputados daquela que era – e, desejamos, volte a ser – a nossa maior referência nacional e identitária: a língua portuguesa. A bandeira e o hino já sofreram alterações correspondentes a alterações políticas concretas; a língua portuguesa permaneceu, por acção prudente de todos, como sendo o cimento com que se constrói Portugal no País, na Europa e no Mundo. A razão primeira do orgulho nacional!

A agressão que se sente quando o serviço público de televisão – e outros órgãos de comunicação social de indiscutível zelo – nos obriga, permanentemente, a corrigir os “seus” insistentes erros ortográficos. A sensação de impotência que resulta de não se dispor de meios que permitam pôr-lhes fim. A angustiante contrariedade de se ser cúmplice na divulgação e na propaganda de semelhante malfeitoria.

Ser obrigado a cumprir o acordo, é uma violência! E, portanto, pela parte que me toca, não o cumprirei. Esta minha – cidadão em fim de linha – desobediência é, no entanto, inócua; cumpro-a como um símbolo para mim mesmo e desejoso de que muitos dos meus concidadãos o façam também, reivindicando o direito à opinião de que, em circunstância alguma podem ser privados.

Porque as nossas acções, individualmente consideradas, são imprescindíveis, mas são também insuficientes, constitui uma reconfortante satisfação perceber que a ILC reclama a nossa adesão, colhe e organiza o nosso inconformismo, instiga a nossa consciência e, até, a nossa “militância” contra o AO, adiciona os nossos descontentamentos e alimenta a esperança no bom senso, na cidadania, no rigor cívico e na exigência que é ser português em Portugal e no Mundo.

A Bem da Língua Portuguesa

Funchal, 28 de Setembro de 2011

José Carlos Mota Torres

José Carlos Mota Torres foi Deputado à Assembleia da República entre 1983 e 2002. Vive no Funchal, Madeira. Subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.