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«Enjoados do português» [Fernando Dacosta, “iOnline”, 11.09.14]

logotipojornaliPor Fernando Dacosta
publicado em 11 Set 2014 – 05:00

Enquanto a língua portuguesa se expande pelo mundo (já é a quinta mais falada), em Portugal encolhe. Pior: desvaloriza-se. Pior ainda: são os próprios portugueses a menosprezá-la. Enjoados dos seus elementos identitários, cada vez maior número deles debita línguas alheias – avassaladoramente o inglês. As avalanches de tecnocratas, economistas, políticos, intelectuais, gestores, comunicadores que nos submergem são os que, na snobeira de se dizerem “cidadãos do mundo”, mais o exibem.

Responsáveis a falar inglês em actos oficiais (internos) virou, com efeito, pretensiosíssimo e desrespeitosíssimo; não traduzir títulos de filmes, de peças de teatro, de livros, de programas televisivos, nem folhetos de instruções de electrodomésticos, de computadores é ultrajante – como ultrajante se revela a SATA ao emitir bilhetes electrónicos em inglês; a RTP ao transmitir, a seco, programas estrangeiros, caso da noite dos Óscares; como cantores ao ignoraram a sua língua, caso de várias bandas. Amália construiu a sua carreira em português; Pessoa fez o mesmo.

Escrever e falar bem era no passado exigência de estatuto cultural; hoje não passa de excrescência. O património mais valioso que possuímos está a ser grosseiramente vandalizado, como fazemos, aliás, com tudo o que podia dignificar-nos, engrandecer-nos. “O novo acordo ortográfico”, alerta a professora Maria do Carmo Vieira, “impede as pessoas de pensar.” Razão tinha José Craveirinha, que, em debate lusófono sobre a ameaça do inglês no seu país, ironizou: “Ora, quem está a ser colonizado por ele não somos nós, são os portugueses. Vejam as ementas dos restaurantes, as tabuletas públicas, os livros técnicos, as canções, etc., quase tudo em inglês. Tenhamos é orgulho na nossa língua!”

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Fernando Dacosta, publicado no jornal “i” em 11.09.14. “Links” adicionados por nós.]

«O mito lusófono» [José Gil, entrevista, jornal “Plataforma Macau”]

O filósofo português José Gil rejeita o conceito actual da lusofonia, das decisões da instituição que lhe dá nome e de acordos para a ortografia portuguesa. Nada disto, diz, atribui dignidade à nobreza da língua. “Não há que formar um império da língua porque isso não existe. É para mim um mito”, diz o autor português, considerado pela revista francesa Le Nouvel Observateur um dos 25 grandes pensadores do mundo. Em entrevista ao Plataforma Macau, José Gil explica ainda o que o traz a Macau já no próximo mês. O medo de existir.

PLATAFORMA MACAU – Que leitura faz deste conceito de que tanto se fala, a lusofonia?
JOSÉ GIL – Sobre isso teríamos de falar muito. Eu acho a lusofonia, tal como ela é expressa, muito mal formulada e um grande mito. A prova de que é um mito é o que está a acontecer à lusofonia e à instituição que a suporta que é a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), com a entrada da Guiné Equatorial no espaço da lusofonia, que é um escândalo do mais vergonhoso que se pode imaginar. Eu rejeito a lusofonia, e em todo o caso a instituição que promove a lusofonia em nome disso. Não posso apoiar um ditador que entra [referindo-se à entrada da Guiné Equatorial nesta comunidade]. Não tem nada a ver com a lusofonia, com a nobreza da língua. Antes disso mesmo, é um mito por que a língua é diferente e desenvolve-se por ela própria em múltiplas outras línguas dentro da língua e tem de se desenvolver, tem de se deixar desenvolver. É uma riqueza maior. O português do Brasil é diferente e tem que se desenvolver, não com acordos ortográficos.

P.M. – Diz não ao acordo.
J.G. – Sou contra o acordo ortográfico. Assinei, escrevi contra isso e acho uma infelicidade enorme. Repare que ele ainda não foi aceite por uma série de países da lusofonia importantes, como o Brasil ou Angola. Mas nós já praticamos a lusofonia ali, e já praticamos oficialmente. Isto é outra vez uma vergonha para nós. A língua tem uma vida própria, a língua portuguesa em Portugal é diferente da língua portuguesa em Moçambique, como basta comparar um Mia Couto com um Rui Nunes, por exemplo. E vemos diferenças em expressões da língua. Não há que formar um império da língua, por que isso não existe. É para mim um mito, mas que haja cada vez mais falantes da sua língua portuguesa e que ela se desenvolva nas suas direcções próprias em Angola, em Moçambique, no Brasil ou em Portugal, isso é óptimo. E é o que vai ser se não entrarmos em acordos ortográficos ou rígidos. A maior parte dos grandes escritores portugueses rejeitaram o acordo ortográfico e escrevem sem as normas do acordo, o que acho muito bem.

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Ensaio sobre a loucura

Governo cria grupo para simplificar língua portuguesa

Depois de ver as novas regras para ortografia da língua portuguesa, adotadas, via decreto, somente pelo Brasil, e de ter sido sinalizado pela sociedade civil sobre a necessidade de maior simplificação em vários pontos, o governo federal não só prorrogou a implementação para 2016 como também, através da Comissão de Educação do Senado criou o Grupo de Trabalho Técnico (GTT) para simplificar e aperfeiçoar a ortografia. O objetivo é de reduzir a quantidade de regras e exceções, tornando-as mais objetivas e de fácil entendimento.

De acordo com o professor Ernani Pimentel, que, ao lado do professor Pasquale Cipro, foi escolhido para coordenar o GTT, professores e estudantes de todos os países que têm como língua oficial o português têm até 20 de julho para sugerir mudanças. Todas as propostas serão avaliadas e apresentadas no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, que será realizado em Brasília, em setembro.

O professor Ernani Pimentel participou do CBN Santos por telefone, onde falou sobre a simplificação da ortografia e possibilidade de não adoção do novo acordo ortográfico.

Reportagem: Guilherme Pradella.

[citações]

– Existe um site chamado “simplificando a ortografia ponto com” [http://simplificandoaortografia.com/]. Não tem “ponto BR” [simplificandoaortografia.BR] porque é para todos os países de língua portuguesa.

– Nós não precisamos do “cê agá” [CH]. O “xis” [X] sozinho já resolve p’ra fazer esse som. P’ra escrever esse som. Então, se elimina o “cê agá”, ninguém vai ter dúvida entre o “xis” e o “cê agá”.

– Como é que você resolve o problema do “gê” [G] e do “jota” [J]? As outras línguas já resolveram isso. Por exemplo, o alemão, as línguas nórdicas, o inglês, a letra “gê” não é “gê”, é “guê” [G]! É “ânguêlá” [Angela], “volquiseváguen” [Volkswagen], não é verdade? “Ai guéte” [I get].

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«Senadores querem nova reforma ortográfica» [notícia do Senado brasileiro, 07.08.14]

Ora aí está de novo o “projeto” mas desta vez de forma não apenas oficial, visto que é o próprio Senado brasileiro quem publica a notícia, como também já temos o dito “projeto” calendarizado, estão nomeados os respectivos intervenientes, estabelecidos os passos a seguir e os “objetivos” a prosseguir: podendo entrar em vigor “já em 2016” nos oito países da CPLP, de que Portugal faz parte, irá ser produzida uma “nova reforma ortográfica” porque o AO90 não foi “suficientemente longe” na “simplificação” da Língua Portuguesa.

Em suma, é isto.

Em que consiste esta “reforma da reforma“, no que à Ortografia diz respeito, é algo que o próprio texto da notícia “esclarece”. Sabendo-se agora que este novo acordo ortográfico (AO16?) será feito “em cima” do anterior acordo ortográfico (AO90) e que será “votado” por tele-conferência (não, não é brincadeira, ou, melhor dizendo, é mas está na notícia), então pelos vistos a sua “aprovação” estará por essa via dada por garantida pelos autores “disto”.

Já quanto ao que significa “isto” para todos nós, portugueses (e angolanos e moçambicanos e cabo-verdianos e guineenses e são-tomenses e timorenses), o que significa “isto” em termos históricos, culturais e identitários para sete das oito nações de Língua oficial portuguesa, bom, digamos que “isto” significa…

Se calhar é melhor não dizer. Toda a gente sabe.

Notícia

Senadores querem nova reforma ortográfica

07/08/2014
Cristiane Britto

Projeto propõe a extinção da letra “h” no início das palavras e a troca de todas as expressões com “ch” pelo “x”

SENADOR CYRO MIRANDA disse que serão realizadas videoconferências com professores de países como Portugal e Angola para depois colocar o projeto em votação.
LEONARDO SUSSUARANA

A Comissão de Educação do Senado está desenvolvendo um projeto que pretende trazer mudanças nas atuais regras da língua portuguesa. Por meio de um grupo técnico de trabalho, os senadores vão propor novas regras para simplificar a ortografia e facilitar o ensino e a aprendizagem da escrita.

De acordo com algumas propostas do projeto, haveria a exclusão do “h” inicial, passando palavras como homem e hoje, por exemplo, a serem escritas omem e oje.

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«Língua Portuguesa: Da dominação à cumplicidade» [jornal “notícias” (Moçambique)]

Uma língua nasce de processos diversos, simples e/ou complexos, resultando no veículo de comunicação – e de afirmação, em muitos casos – para estados e povos.

Nessa toada, o latim, que de Lácio se espalhou pela Europa ao ritmo das conquistas do Império Romano, deu origem (e continuidade) a processos que resultaram, mais ou menos à medida do declínio daquele, no surgimento de cerca de dez línguas, entre elas o Português que hoje é também o nosso veículo oficial de comunicação. Também nosso porque para além dos portugueses o idioma passou a pertencer igualmente a nós e aos angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses e timorenses.

O Português nasceu naquele século, mais precisamente a 27 de Junho de 1214 – fez há cerca de um mês precisamente 800 anos –, apenas do ponto de vista formal, já que antes disso já era falado, obviamente pelos portugueses e, não menos óbvio, em Portugal. Nessa data, o rei de Portugal D. Afonso II registou o seu testamento, sendo recordado por ser o mais antigo documento oficial redigido neste idioma.

A história da afirmação do Português é epopeica, cantada por Portugal ao longo dos séculos em que os desígnios da dominação eram o vento-querido. Actualmente, é a sétima língua mais falada dentre as 6000 usadas no mundo. Aquilatou-se ao ultrapassar territórios poder ser adoptada como língua de comunicação em eventos internacionais, ao mesmo tempo que irrompeu para territórios que lhe são “estranhos”. A anglófona e multi-bantu na África do Sul, por exemplo, alberga no continente africano a terceira maior comunidade falante de Português, depois de Moçambique e Angola.

Na nossa contemporaneidade olhamos para a língua Portuguesa como uma herança, como a ponte que nos aproxima de nós mesmos e dos outros, os outros que, como nós, por ela estão unidos. O Português aproxima os moçambicanos de si mesmo porque, desde que conquistámos a independência, em 1975, a nação que se quis una adoptou-o como uma espécie de carris por que se pode percorrer cada pedaço do nosso Moçambique.

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«A propósito dos 800 anos da Língua Portuguesa» [jornal “Canal de Moçambique”]

«Ao quererem impor-nos um novo acordo ortográfico, quando milhões de nós ainda só estão à procura de uma forma de comunicação, porque ainda nem na língua materna sabemos escrever, o que se poderá pensar dos interesses que estão por detrás disso?

Que viva então a Língua Portuguesa como cada um a quer falar para nos entendermos, embora se possa e deva cultivar que ela se possa falar e escrever cada vez melhor todos os dias por cada vez mais cidadãos. Mas que deixe de ser apenas um exercício Norte-Sul.»

O “Canal de Moçambique” foi convidado pelo prestigiado jornal “Público”, da terra de Camões, a associar-se à celebração dos 800 anos da Língua Portuguesa e imediatamente aceitámos aderir.

Aceitámos porque somos uma publicação que sem esse instrumento de comunicação não existiria, e também porque somos de um país em que esta mesma Língua é constitucionalmente (Artigo 10) a Língua Oficial. E assim sendo, permite, sem se ferir a importância das línguas nacionais, que a diversidade étnico-linguística possa entrar num processo de osmose mais fluido e tendente a permitir-nos chegar a um patamar em que a Unidade Nacional deixe de ser um mero exercício de retórica, se bem que a Língua seja apenas um dos segmentos da construção desse objectivo.

“27 de Junho de 1214 é simbolicamente considerado o dia do nascimento da nossa língua por ser o dia do documento mais antigo que se conhece escrito em português. É o testamento do terceiro rei de Portugal, Dom Afonso II”, refere Bárbara Reis, directora do “Público”, no e-mail em que nos propôs que aderíssemos a este simpático projecto de celebração que abrange vários quadrantes deste nosso planeta cada vez mais global, em que também outras línguas, que nem Luís de Camões soube que existiam, participam na construção desta aldeia global para a qual também a Língua Portuguesa acabará por contribuir – nem que seja o nosso Português, o dos que quis a História que nos irmanássemos por via dela.

Não nos atrevemos a eleger o Português como “A Língua”. Somos todos, afinal – na nossa Redacção – apenas uns modestos cultores da Língua que nos permite comunicar. Para muitos de nós, neste pequeno grupo que tem a Língua Portuguesa como uma das suas principais ferramentas, esta nem é a primeira Língua, se bem que cada vez mais em Moçambique haja casais de raiz bantu cujos filhos já nem falam as línguas maternas dos seus progenitores e, por isso, nos pareça que nos encaminharemos rapidamente para que o Português seja cada vez mais uma língua materna do que uma Língua Oficial.

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«A ortografia no Senado» [editorial do jornal “O Estado de S. Paulo” (Brasil), 27.07.14]

Desde 2009, o Brasil convive com uma situação anômala: possui duas normas ortográficas. De janeiro de 2009 a dezembro de 2015, o País está oficialmente num período de transição, no qual coexistem a norma antiga e a nova, estabelecida pelo Acordo Ortográfico de Lisboa, assinado em 1990. Para complicar a situação, há atualmente um grupo de trabalho no Senado que quer mudar o acordo, com a intenção de definir um “idioma claro e acessível a todos”. Sem uma proposta definida e descumprindo os caminhos legais previstos, a atuação desse grupo é motivo de preocupação. Com a língua não se brinca.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado pela Academia das Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras (ABL), além das delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Posteriormente, cada país o ratificou internamente(1). No Brasil, o Congresso Nacional o aprovou em abril de 1995, e a sua regulamentação veio por um decreto presidencial, de setembro de 2008, no qual se definiu a sua obrigatoriedade a partir de 2013. Em dezembro de 2012, a presidente Dilma Rousseff estendeu o prazo para janeiro de 2016, acolhendo em parte o pedido de senadores que queriam adiar sua obrigatoriedade para 2018. Durante a transição, valem as duas normas.

Houve protestos. Por exemplo, o gramático Evanildo Bechara, membro da ABL, comentando a importância de uma uniformização da língua portuguesa, afirmou que adiar a obrigatoriedade era um ato sem sentido, que significava passar um “atestado de ignorância” para professores e alunos que já dominam as novas regras.

Aproveitando o novo prazo, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado aprovou a criação de um grupo de trabalho para estudar e apresentar uma proposta para “aperfeiçoar o Acordo Ortográfico”. A ideia do grupo foi do presidente da Comissão, senador Cyro Miranda (PSDB-GO), um dos maiores articuladores para que se atrasasse a obrigatoriedade do Acordo.

O grupo de trabalho reúne algumas entidades e um site (Simplificando a Ortografia), do professor Ernani Pimentel. Na internet, ele promove um abaixo-assinado pela “racionalização e simplificação da ortografia”, sem especificar, no entanto, o que deseja mudar. Especifica, no entanto, postular uma redução da carga horária de aulas de ortografia. Segundo o professor, hoje são ministradas 400 horas/aula desde o início do fundamental até o fim do ensino médio, e ele deseja que sejam utilizadas em torno de 150 horas. O grupo prevê recolher, até o fim de julho, sugestões de professores, estudantes e público em geral para uma nova ortografia, cuja proposta seria elaborada durante o Seminário Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, em setembro.

Surpreende que toda essa movimentação para uma nova ortografia seja feita à margem da Academia Brasileira de Letras, que é, por lei, a guardiã da língua portuguesa. Tanto é que foi a ABL quem assinou, em Lisboa, em 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Nesse mesmo escopo, a ABL também é responsável pela atualização do Vocabulário Comum, a organização do Vocabulário Onomástico e a publicação do Pequeno Vocabulário da Língua Portuguesa, tarefas que são cumpridas exemplarmente.

Além do desrespeito à lei no que tange à ABL, preocupa o enfoque dado para essa possível nova ortografia. Por exemplo, segundo o professor Ernani Pimentel, “a simplificação ortográfica é a porta para a eliminação do analfabetismo”. Pelo que se sabe, esse grave problema se combate com educação de qualidade, não com diminuição de conteúdo. O grupo de trabalho defende também “a necessidade de uma língua mais abrangente e democrática que promova a inclusão social”. Coitada da ortografia! Agora, ela é a culpada pelos problemas sociais brasileiros.

A língua portuguesa é um inestimável patrimônio cultural, e alterações exigem criterioso estudo prévio. Por quem tem – por lei – competência para fazê-lo.

[Transcrição integral de Editorial do jornal “O Estado de S. Paulo” (Brasil) de 27.07.14, reproduzido pelo “site” Observatório da Imprensa em 29.07.14. Nesta transcrição foi (obviamente) respeitada a norma ortográfica (Pt-Br) do original. “Links” e destaques nossos.]


(1) Não é verdade. Nem Angola nem Moçambique ratificaram o AO90.

CPLP: «lavandaria de dinheiros ilícitos» [Noé Nhantumbo, “Canal Moz” (Moçambique), 24.07.14]

Politização de créditos e distribuição de favores já é cultura na CPLP

Ninguém está admirado que as engenharias financeiras entre Portugal e Angola tenham trazido à tona uma situação de sujeira institucional gritante.

As compras de mansões e de andares em zonas nobres portuguesas por generais angolanos já foi documentada e denunciada por activistas políticos de Angola.

O processo de desintegração económico e financeiro português colocou aquele país na rota das lavandarias internacionais de fundos ilícitos.

Os “vistos de ouro” são uma forma de aliviar uma economia deprimida e estagnada.

Agora que se vai da ex-Metrópole para a África numa corrente migratória jamais vista, fica a impressão de que os tempos mudaram. Na verdade, nada é como antes. A economia e as relações internacionais não são feitas de piedade e nem se resumem a sentimentalismos.

O que é interessante verificar é que os “lobbies” do petróleo, sejam eles angolanos, sejam eles da Guiné Equatorial, encontram terreno fértil em Lisboa. A capital portuguesa não resiste, quando lhe acenam com novos dólares.

A cimeira da CPLP em Díli vem mostrar que as relações políticas são profundamente condicionadas por imperativos ou considerações político-económicas dos Governos.

É inútil esperar que se abracem atitudes democratizantes por Governos que aceitam acolher no seu seio um ditador com marca registada em África.

Se as economias de países produtores de gás e petróleo ou carvão não conseguem valorizar os seus recursos e, de forma transparente, precaverem-se contra a sua extinção, construindo alternativas e investindo criteriosamente, são os povos dos seus países que sofrerão as consequências. Com governantes que aderem à cleptocracia, constituindo fundos soberanos dirigidos pelos seus filhos, e empresas de credibilidade manchada dirigidas pelos seus colaboradores, não se pode augurar um bom futuro para as economias destes países.

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A Cimeira da CPLP (Díli, Julho de 2014)

«3. Reafirmaram a plena validade do compromisso histórico consagrado na Declaração Constitutiva da CPLP, com a progressiva afirmação internacional do conjunto dos Estados membros, que constitui um espaço geograficamente descontínuo, mas identificado pelo idioma comum, e pelos primados da paz, da democracia, do Estado de direito, dos direitos humanos e da justiça social.»
[InDeclaração de Díli“, X Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, 23 de Julho de 2014.]

Bartoon (jornal Público)

Composição, imagens originais de:
– semanário Expresso
– “blog” Lao Hamatuk
– “post” de Fernando Ventura (Facebook)
– canal TVI24

«Nenhum acordo nunca unificará» [Daniel Deusdado, “JN”, 03.07.14]

1. Talvez interesse ao meu amigo leitor do nosso JN saber que me deu, Deus, a maravilhosa oportunidade de visitar muitas cidades do Mundo e em todas elas procurar os seus museus e assim descobrir a alma das pessoas e dos espaços. Nenhum me marcou tanto como o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. E lá encontrei um sonho. Porque vi as Palavras nas paredes, grandes, gigantescas, belas, artísticas, ou pequenas e coloridas, em formato de poemas, em formato de quebra-luz, em todas as formas e feitios. Quadros para ler com as melhores palavras do meu português querido, do nosso português brasileiro, africano de qualquer outra derivação.

Numa das instalações artísticas do Museu, um maravilhoso céu de palavras e vozes, as melhores vozes, liam, em quase escuridão, poemas e frases-monumentos. Algumas estão dentro de nós, na memória, e já nem sabemos que estão lá. De Camões a Vinicius ou Mia Couto, Pessoa e seus heterónimos e outros tantos, é absolutamente extraordinário esse momento em que sentimos as palavras a correrem-nos pelas veias, não porque entram pelos olhos e nos provocam um arrebatamento do coração, mas sim porque entram pelos ouvidos e vão direitas ao sangue – e ele ferve de emoção.

No Museu da Língua, as Palavras são música porque as vozes que as interpretam nos esmagam de beleza. E de todas as vozes da língua portuguesa, nenhuma voz me arrebata mais do que ouvir Gal Costa com aquele tom de Primavera com que sempre canta ou diz – Gal lendo português seja-ele-qual-for. Não me lembro já se foi ela quem leu este poema de Sophia Mello Breyner Andresen que me pôs em paz com este dilema: como gostar mais de ouvi-los a eles, adoptivos, que a nós, originais portugueses da língua de Portugal?

“Gosto de ouvir o português do Brasil / Onde as palavras recuperam a sua substância total / Concretas como frutos nítidas como pássaros / Gosto de ouvir a palavra com as suas sílabas todas / Sem perder sequer um quinto de vogal / – Quando Helena Lanari dizia “o coqueiro” / O coqueiro ficava muito mais vegetal”.

É esta maravilhosa diferença entre nós e eles que nenhum acordo nunca unificará.

[Transcrição parcial de crónica, da autoria de Daniel Deusdado, publicada no “Jornal de Notícias” de 03.07.14. “Links” inseridos por nós. Este texto foi transcrito com a ajuda da extensão Chrome “Desacordo ortográfico”. Agradecimentos a Hélder Magueta pelo apontador que nos enviou via Facebook.]