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«O AO90 é uma obra irresponsável» [Fernando Paulo Baptista, “O Diabo”, 16.09.14]

UNIVERSIDADE DO MINHO (“Press Clipping“)

“O Acordo Ortográfico é uma obra irresponsável”
Diabo
terça-feira, 16.09.2014
BRUNO OLIVEIRA SANTOS

A língua portuguesa, como organismo vivo que é, jamais poderá fugir à sua transformação progressiva. Os povos que se expressam em português encarregar-se-ão de lhe comunicar vida e, portanto, alteração. Alterar, porém, não é destruir. Ora o Acordo Ortográfico (AO90) destrói mesmo, desfigura o idioma à força de encastelar asneiras sobre asneiras. Foi este o mote para uma conversa longa e agradável com o filólogo Fernando Paulo Baptista (FPB).

“O AO90 é uma obra de medíocres, não acha?” — disparei de chofre, para empolgar a entrevista. “Não quero classificá-la assim”, respondeu-me, “mas é claramente uma obra marcada pela irresponsabilidade, ao não medir as consequências negativas, sobretudo para os nossos jovens, na aprendizagem e uso da língua portuguesa.”
FPB fala como escreve, as frases saem redondas e polidas, prontas para a impressão. Natural de Viseu, foi novo com os pais para Barrelas, terra do Malhadinhas, aquele homem sobre o meanho e reles de figura, que Aquilino imortalizou. A escola distava, escondida atrás de montes e penedias. FPB levantava-se cedo, ainda o Sol não retouçava nas vidraças, e tomava a casa já tarde. O sacrifício garantiu-lhe a matrícula em Coimbra. Por esse então, naquele mundo rural e pobre, poucos o conseguiram. A maior parte teve que pegar numa enxada e cuspir às mãos.
Conhece pessoalmente os artífices do AO90, mas distingue os planos: “Tenho uma relação cordial com Malaca Casteleiro; não entendo, todavia, como é que alguém que sabe que se trata da regulamentação grafémica dos textos escritos vem utilizar o critério da pronúncia, para mais o da chamada pronúncia culta”. E prossegue o raciocínio: “O que é isso da pronúncia culta, tomada agora como referência ou padrão? Em que lugares a podemos encontrar? É a pronúncia culta à moda de Coimbra ou à moda de Lisboa? A do Porto ou a do Funchal? A de Luanda ou a do Rio de Janeiro?”
Certo que em todos esses lugares há pessoas cultas e informadas, sejam quais forem as suas prolações entoativas. Os autores do AO90 não apresentaram ainda uma definição rigorosa, um “critério epistemológico-linguisticamente fundamentado”, como diz FPB, além da mirífica alusão a uma pronúncia dita culta.

Um acordo feito à pressa
O AO90 é uma cancaborrada de lesa-língua. Em matéria assim crucial, poupo-me a imparcialidades. Uso substantivação e adjectivação certeiras, dentro da correcção e da propriedade da linguagem. Sigo o exemplo dos nossos antigos pregadores e moralistas: quando se tratava de rebater más inclinações e maus costumes, não usavam de cerimónias nem eufemismos, não traziam papas na língua. Aos acordistas, cegou-os a vaidade de associar o nome a uma reforma. Essa vaidade incutiu-lhes uma filologia para uso próprio, que trataram de impor a 250 milhões de falantes. É o tiquezinho totalitário de legislar em matéria ortográfica, votinhos a favor e contra, como se a língua pudesse ser despachada por decreto.
“O pior”, avança FPB, “é que o AO90 foi redigido à pressa entre 6 e 12 de Outubro de 1990 na Academia das Ciências de Lisboa!” Bonito serviço! Uma língua velha de séculos, assim alterada atabalhoadamente, no espaço de uma semana, por 21 representantes de sete delegações.

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«O negócio do acordo ortográfico» [semanário “O Diabo”, 24.06.14]

O português mais distraído talvez pense que um colégio de sábios bons e eminentes ter decidido um dia, após longos anos de estudo e investigação, proceder à reforma do sistema ortográfico da Língua Portuguesa – e que os governos dos países lusófonos, tendo-se debruçado sobre o assunto com o auxílio ponderado de gramáticos e lexicógrafos, terão conscienciosamente aprovado essa tão bem preparada reforma. Mas o português distraído estaria redondamente enganado.

Já se sabia que o acordo ortográfico foi preparado em cima do joelho, longe do debate público e do escrutínio do povo, dos mestres da Língua e dos especialistas da Gramática. Mas só agora começa a conhecer-se, em detalhe, todo o processo de promoção de um tratado internacional que, embora já esteja a ser aplicado em alguns países (como Portugal), só entrará plenamente em vigor, se algum dia entrar, quando todos os governos lusófonos o assinarem. E ainda falta um… [nota de ILC AO: dois, não um; Angola (governo e parlamento) e Moçambique (parlamento) não ratificaram o AO90]

Em Portugal, no Brasil e em Angola, o acordo suscita enormes polémicas e tem contra si uma parte considerável do mundo académico e literário. Não obstante, governos e parlamentos dos PALOP terem vindo a ratificar consecutivamente o tratado, na ilusão “politicamente correcta” (estranhamente adoptada em Portugal por Executivos de centro-direita) de que ele representa “progresso” e “igualdade”.

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«Devemos continuar a resistir…» [Pedro Correia, semanário “O Diabo”, 21.05.13]

A oposição ao Acordo Ortográfíco (AO) continua, demonstrando que esta imposição de um disparate linguístico não deixa os portugueses indiferentes. Desta vez, coube ao jornalista Pedro Correia a publicação de mais um livro que denuncia este atentado contra a Língua Portuguesa, intitulado “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico” e publicado pela Guerra e Paz. O DIABO, jornal que se opõe ao AO, entrevistou-o.
DUARTE BRANQUINHO

O DIABO – O que o levou a escrever um livro contra o AO?
Pedro Correia – A necessidade, que eu próprio senti, de enquadrar, contextualizar e de algum modo historiar toda a questão. Numa linguagem clara e acessível, sem linguajar académico nem aparentar uma erudição que aliás me falta pois não sou especialista no tema. Procurei informar-me, esclarecer-me, ler tudo quanto havia sido publicado sobre a matéria, e a partir daí dirigir-me ao cidadão comum que é confrontado com regras que lhe estão a ser impostas, enquanto utente da língua, e não faz ideia como tudo isto surgiu.

Há vários livros contra o AO, mas a favor nem por isso…
E um sinal evidente do absurdo de toda esta situação. Os defensores do acordo não se ouvem porque na verdade são em número muito diminuto. Basta folhearmos livros que vão sendo publicando de escritores das mais diversas tendências, das mais diversas escolas estéticas e de todas as gerações para se perceber que fazem questão em escrever as suas obras na ortografia anterior ao acordo ortográfico de 1990. O mesmo sucede nos jornais: mesmo naqueles que aplicam o acordo, aliás cada qual a seu modo, não faltam colunistas e articulistas que insistem em escrever na ortografia pré-AO. Em todos os sectores da sociedade portuguesa a rejeição das normas acordísticas é claríssima. E maior seria ainda se não houvesse a imposição de adoptá-las na administração pública, incluindo nas escolas, onde são largos milhares os professores que se opõem às regras ortográficas emanadas do AO. A estes professores, tal como a todos os utentes qualificados da língua portuguesa, devia ser garantido o estatuto de objecção de consciência.

É a prova que o AO foi feito contra a opinião de especialistas e “nas costas” dos portugueses?
É uma prova claríssima. As alterações ortográficas em quase todas as outras grandes línguas do mundo ocidental – inglês, francês, espanhol, alemão – resultam de alterações que vão sendo sedimentadas ao longo de gerações e de largos consensos sociais estabelecidos através das décadas. E são sempre pontuais, plasmadas em dicionários e não tomadas obrigatórias mediante portarias governamentais. Em Portugal passou-se tudo ao contrário: dúzia e meia de académicos, reunidos num salão de um velho edifício em Lisboa em poucos dias, tiveram a veleidade de modificar regras ortográficas que abrangem 200 milhões de pessoas em nome de uma “unificação” utópica do idioma na sua versão escrita. E chamo-lhe “utópica” porque jamais se alcançará.

Esta decisão política faz algum sentido?
A decisão procurou ser justificada em nome da “lusofonia”, uma entidade abstracta que permanece adormecida numa gaveta e que de vez em quando é tirada dessa gaveta quando dá jeito por algum motivo e volta a ser lá colocada na primeira oportunidade. Afirmou-se que ou haveria uma ortografia da língua portuguesa em Portugal que confluísse com a norma brasileira ou o nosso idioma jamais se conseguiria impor nas instâncias internacionais. Chama-se a isto tentar vender gato por lebre: a implantação da língua portuguesa no mundo, onde é já o quarto idioma de navegação na internet, em nada depende da “unicidade” ortográfica. De resto, britânicos e norte-americanos escrevem de forma diferente e esse facto nunca impediu o inglês de se expandir continuamente nos mais diversos domínios. As diferenças, em matéria cultural (e nenhuma matéria cultural é tão relevante como a língua), são enriquecedoras.

O actual Governo tem várias figuras que eram contra o AO, como Paulo Portas. Porque é que não há vontade de o suspender ou revogar?
Julgo ter-se criado uma situação de inércia: não se mexe no AO porque existem outros problemas, considerados prioritários. Mas o AO é, só por si, um problema. As alterações normativas contidas neste acordo, contrariando a esmagadora dos pareceres científicos, são um acto de lesa-património de consequências gravíssimas, que estão aliás à vista de todos até em documentos oficiais, até nas páginas do “Diário da República”, onde há palavras que são escritas de várias maneiras diferentes, como se a grafia passasse a depender do critério arbitrário de cada um. Ponho, no entanto, alguma esperança no relatório que resultará do grupo de trabalho entretanto constituído na Assembleia da República para avaliar eventuais alterações ao AO. E considero indispensável que seja aprovada uma moratória para a aplicação do AO com carácter obrigatório – isto é, para além da data já fixada, que é 2015. Recordo, aliás, que foi isso mesmo que já aconteceu no Brasil, onde também não faltam objectores ao acordo ortográfico.

[…]

[Transcrição parcial de entrevista publicada no semanário “O Diabo” de 21.05.13. “Links” inseridos por nós.]

«O AO90 é um monstro…» [João Roque Dias, jornal “O Diabo”]

[Entrevista de João Roque Dias ao semanário “O Diabo“, edição de 26.02.13.]

“O Acordo Ortográfico é um monstro de que ninguém quer assumir a paternidade”

João Roque Dias é tradutor certificado pela Associação Americana de Tradutores e uma das figuras que se tem destacado no combate contra o famigerado Acordo Ortográfico (AO), nomeadamente na internet, denunciando o caos ortográfico que este gerou.
O DIABO entrevistou-o.
DUARTE BRANQUINHO

Em que é que o Acordo Ortográfico (AO) alterou a área da tradução?
Para mim, pessoalmente, nada! Trabalho exclusivamente com empresas estrangeiras e, até hoje, nenhuma me pediu para traduzir utilizando a ortografia do AO de 1990. Se alguma me pedir, enviar-lhe-ei um texto já preparado, em que expresso alguns factos (para eles desconhecidos), nomeadamente o da falta de um vocabulário ortográfico comum (exigido pelo art.º 2 do AO, depois declarado inexistente pelo 1.º Protocolo Modificativo e, mais recentemente, declarado em preparação até 2014) e as discrepâncias ortográficas entre os vocabulários existentes. Cabe aqui perguntar para quê fazer, agora, um vocabulário comum, se 1.º Protocolo Modificativo diz que o tal vocabulário tinha deixado de existir, através de uma enviesada e trapaceira citação do texto original? No entanto, não tenhamos dúvidas, algumas empresas (de tradução e não só) sem escrúpulos tentarão obter uma tradução no Brasil (por ser mais barata) e utilizá-la, sem qualquer edição, em Portugal ou nos restantes países da CPLP. O resultado será o que já conhecemos hoje: não é possível, porque as principais diferenças entre o português euroa-fro-asiático e o português brasileiro não são ortográficas, mas lexicais e semânticas. E para essas, não há acordo que lhes possa valer.

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«O Futuro da Língua Portuguesa» [semanário “O Diabo”, 23.10.12]

 

Análise

Portugal deve assumir-se como natural referência de uma Língua que os nossos antepassados espalharam pelos novos mundos que deram ao mundo

O futuro da Língua portuguesa

Duarte Branquinho
O interesse na Língua portuguesa cresce no mundo. Muitos consideram o português como uma das novas línguas de comércio que está em franca expansão. Mas devemos perguntar-nos: de que língua estamos realmente a falar? Reflexão.

 

A edição de Outubro da “Monocle”, uma revista fundada em 2010 que se tornou uma referência no mundo dos negócios internacionais, tem como tema principal a “Geração Lusofonia” e explica porque é que o português é a nova língua do poder e dos negócios”. A revista faz uma volta ao mundo lusófono e vai ao Brasil, a Angola, a Moçambique e, obviamente, a Portugal. A revista nota que neste processo é o Brasil que está a liderar o caminho e que Angola tem também um papel cada vez mais importante. Notando que, em relação à Língua, Portugal assumiu um acordo que o obriga a aceitar um grande número de palavras com ortografia brasileira.

Apesar disso, numa das dez “dicas” apontadas para o mundo lusófono, surge a proposta de um canal de televisão internacional lusófono, que “utilize o sucesso das telenovelas brasileiras e da alta cultura portuguesa”. Parece que este último aspecto tem sido deveras ignorado no nosso país.

A importância da Língua de Camões é salientada no editorial de Steve Bloomfield, que conclui: “Está na hora do resto do mundo começar a aprender um pouco de português”.

Mas será que será assim tão simples?

Línguas portuguesas
Falar apenas em Língua portuguesa é ignorar que co-existem, segundo os termos técnicos utilizados pela Linguística hoje em dia, Português europeu e Português do Brasil. Qualquer leigo se apercebe da institucionalização de tal diferença fundamental, por exemplo, ao seleccionar uma língua num corrector ortográfico num computador. As diferenças não se resumem à ortografia e à sintaxe, mas também assentam um extenso vocabulário, com uma enorme variedade de termos que diferem de uma variante para a outra.

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«Um acordo que divide» [Teresa Cadete, semanário “O Diabo”, 25.09.12]

1. Quais as principais razões que levaram à condenação do AO pelo PEN Internacional?

Mais do que razões, foi todo um processo de debate e esclarecimento nos encontros do PEN Internacional, em que alertámos os colegas dos outros Centros e, mais especificamente, dos comités de Tradução e Direitos Linguísticos CTDL e de Escritores para a Paz. No Congresso e Assembleia Geral anual, em Belgrado, em Setembro de 2011, foi aprovado o Manifesto de Girona dos Direitos Linguísticos, reconhecendo a cada país ou grupo cultural o direito (aliás consignado na Constituição da República Portuguesa) de defender a língua materna como património comum. No encontro do CTDL em Barcelona, em Junho deste ano, após a intervenção da nossa Vice-presidente Maria do Sameiro Barroso foi decidida a elaboração de uma resolução a discutir e votar no Congresso anual do PEN Internacional em Gyeongju, Coreia do Sul, que ocorreu de 9 a 15 de Setembro. Todos estes documentos podem ser consultados no blog Proximidade do site do PEN Clube Português, em www.penclubeportugues.org

2. Como é que a comunidade linguística internacional vê o AO?

Presumo que se refere à comunidade do PEN Internacional, que conta com mais de 145 Centros em 104 países. Por aqui já se vê que nem sempre um Centro PEN corresponde a um país, mas a uma comunidade linguística com identidade própria. A incredulidade face ao AO foi tão grande que os redactores da resolução tiveram que apensar-lhe uma cronologia para que as 87 delegações presentes na Coreia percebessem como se tinha chegado a tal ponto, ou seja, como a população portuguesa tinha permitido que o AO fosse imposto como foi, à revelia das boas práticas linguísticas, não só aqui com o português europeu mas também no Brasil com a variante brasileira. Estamos no século XXI, na época da glocalização, do conhecimento global e aproximação mútua no respeito pela diferença local. A imposição de homogeneização (que, como vimos, não existe) é, no fundo, um anacronismo. No caso do AO, mais ainda, é uma mentira. Aconselho os leitores a lerem a resolução do PEN Internacional na sua íntegra. Enche-nos de vergonha face aos anglófonos, francófonos, hispanófonos.

3. Esta decisão do PEN Internacional é importante para a manutenção da actual ortografia?

Pelo menos dá ânimo a quem é guiado pelo mais elementar senso comum de manutenção de uma ortografia perfeitamente operacional e articulada com a família linguística europeia. E não seremos mais europeus do que brasileiros ou africanos? É uma questão de história e geografia elementares. Em plena igualdade com aqueles, atenção! As reacções contra o AO não são xenófobas, ao contrário do que se pretende dizer de má-fé. São manifestações de respeito mútuo.

4. O que diz aos que acham que ir contra o AO é uma causa perdida?

Depende de que ponto de vista falam. Num dos campos, os acordistas parecem muito seguros de si e da força daquilo a que chamam o facto consumado. Não deixa de ser curiosa a semelhança – mutatis mutandis – da acusação de “histeria” pelos acordistas a quem recusa deixar que a sua língua materna seja laminada e mutilada, com as atitudes de regimes totalitários que internavam os opositores em hospitais psiquiátricos, para não falar da “histeria” das mulheres confinadas ao papel de esposa e mãe, sem voz no espaço público. Mas tais discursos podem também ser vistos como sintoma do nervosismo de quem se torna violento (até agora só verbalmente) por insegurança de argumentação. De facto, ainda ninguém soube explicar as vantagens de um acordo que divide onde diz unificar.
No campo dos opositores ao AO, os argumentos em favor da manutenção das variantes como resultado de boas práticas são coerentes mas há sempre vozes derrotistas – o que não é de admirar devido à incipiente cultura política, no sentido mais nobre: de cuidar do que nos diz respeito a todos, fomentando o diálogo e procurando consensos. É difícil resistir quando está em causa o próprio posto de trabalho? Pois é, e já escrevi sobre isso com total compreensão. Mas há meios de resistência, como a criação de grupos de opinião e, é claro, a assinatura da ILC para fazer voltar a discussão e votação à AR. Tenho aqui uma palavra de louvor para as formas criativas de resistência, desde a correcção de manuais escolares passando pelo uso da caneta para acrescentar cs e ps em textos acordizados até à troca de impressões com as pessoas em qualquer espaço público. Por aí se vê também a amplitude da rejeição daquele grafolecto. Em todo o caso, sublinho que ninguém se deve sentir só nesta luta que tem uma base de apoio cada vez maior. E que a possibilidade de mudar esta situação vergonhosa depende mesmo de cada um.

5. Considera que tem havido oposição a um verdadeiro debate sobre o AO?

A correlação de forças muda a cada momento e é um fenómeno fascinante de observar. Podem bloquear aqui e além a discussão, mas quem rejeita visceralmente o AO não ficará sempre calado. Devo também frisar que o PEN é e será um forum aberto a todas as opiniões, embora a esmagadora maioria dos membros se tenha manifestado inequivocamente contra esse “atentado ao corpo escrito da língua”, nas palavras de Maria Velho da Costa.

6. Como é que o AO afectou o mundo da tradução e da edição?

Está a afectar. O feedback de escritores e tradutores à notícia sobre a resolução do PEN Internacional mostra que tínhamos razão ao alertar os colegas do PEN Internacional para as ameaças que pairam sobre escritores e tradutores que não queiram acordizar os seus textos. As causas do PEN tornaram-se diferenciadas. Criado em 1921 para dar assistência a escritores perseguidos e ameaçados, hoje o PEN também defende as línguas ameaçadas, em nome da diversidade linguística e cultural.

7. Muitas editoras acharam que o AO lhes abriria as portas do mercado brasileiro. Mas, de facto, continua a haver duas versões de cada livro…

Duas? Se quisesse ser cínica diria muitas, pois o AO escancarou a porta ao mau escrever, à ortografia desbragada e aleatória! E os editores portugueses acordizantes merecem ser escarnecidos com uma “receção” num Brasil onde se escreve e escreverá “recepção”. Que o resultado seja então como se pronuncia: uma recessão… Sempre disse aliás que o AO é um atestado de imbecilidade passado aos brasileiros que, coitados, acabam por ficar com a imagem de serem incapazes de ler acto, facto, acção…

8. Que acha das editoras nacionais que não adoptaram o AO?

Chapéu! Merecem que os cidadãos que não gostam do AO comprem os seus livros.

9. Também na imprensa há jornais que não adoptaram. O que acha daqueles, como “O Diabo”, que se opõem ao AO?

Idem, para os jornais.

10. Como é que o cidadão comum pode opor-se ao AO?

Atenção, há quem goste do AO, como há quem goste de salsichas… Quem se opõe visceralmente pode armar-se com os apetrechos da imaginação – é delicioso desobedecer a, e contrariar, normas imbecis! Não dou receitas de propósito: que cada pessoa descubra as suas. A resistência ao AO tem de passar por todos os momentos. Já falei da ILC, dos debates cívicos. Pode ser uma oportunidade para poupar dinheiro em livros e valorizar os que se tem em casa. E para cultivar as línguas estrangeiras, quanto mais não seja para sentir como somos europeus, com raízes greco-latinas comuns. Sobretudo, é muito importante que os editores acabem por verificar que os negócios chorudos com que estavam a contar eram como a fábula da leiteira e do pote partido: que brasileiros querem ler “perspetivas” de “aspetos”, quando têm e terão sempre outras percepções? E ainda não falámos dos países africanos…
A derradeira mensagem não pode deixar de ser esta: não deixemos que o diktat do AO continue a acontecer-nos. E isso começa por escrevermos como temos feito até aqui. Claro que me preocupa a geração dos nossos filhos e netos, massacrados com o eduquês, a TLEBS e agora o acordês. Mas é possível dar a volta a isso – e é um desafio à intensificação da cooperação intergeracional. E à redescoberta dos nossos autores que escrevem em bom português, desde os clássicos a um Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires… E o “Camões sem acção” – como vi escrito numa cinta, horror dos horrores – que vá para a reciclagem.
Os governos sucessivos, sempre tão afanosos em encomendar estudos, nunca se preocuparam em avaliar o custo real de uma implementação do AO que – ouso vaticinar – nunca acontecerá, pelo menos nas próximas décadas. O tenebroso argumento da modernização da língua – e aqui vem a “pharmácia” quase sempre à baila – equivale a dizer: Ponham de parte a comida tradicional portuguesa e comam no MacDonald’s! Aí também o cidadãoque não goste do AO tem uma palavra a dizer, não só, como já foi sugerido acima, solicitando nas livrarias que lhe forneçam livros em bom português, nas bancas de jornais comprando publicações não acordizadas (a redacção é sempre mais cuidada), mas de mil e uma maneiras. Por exemplo dizendo nas lojas: Não mude esta tabuleta (com “secção, p. ex.), pode voltar a precisar dela. Uma gota de humor corrosivo só ajuda. Disse aliás muitas vezes que gostaria de ver um novo outdoor dos Gato Fedorento no Marquês de Pombal, desta vez não contra um partido xenófobo mas contra a lapidação do nosso património comum. Mesmo que isso nunca venha a ser executado, as redes sociais podem ser rastilhos para acções interessantes – que estão em parte a decorrer já.

[Transcrição integral de entrevista a Teresa Cadete, Presidente do Pen Clube Português, realizada por Duarte Branquinho, Director de “O Diabo“, publicada por aquele semanário no dia 25.09.12. Sublinhados e “links” adicionados por nós.]

[Via “post” de Teresa Cadete no Facebook.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

NÃO ao “acordo ortográfico”: imprensa

Jornal “Público”
Tipo: generalista
Periodicidade: diário
Tiragem média: 43 mil
Sede: Lisboa

Posição sobre o AO90: Editorial de 30.12.09.

Jornal “Correio da Manhã”
Tipo: generalista
Periodicidade: diário
Tiragem média: 158 mil
Sede: Lisboa

Jornal “i”
Tipo: generalista
Periodicidade: diário
Tiragem média: 18 mil
Sede: Lisboa

Jornal “Sol”
Tipo: generalista
Periodicidade: semanário
Tiragem média: 55 mil
Sede: Lisboa

Jornal “O Diabo”
Tipo: generalista
Periodicidade: semanário
Tiragem média: (nd)
Sede: Lisboa

Posição sobre o AO90: Editorial de 17.01.12.

Revista “Sábado”
Tipo: generalista
Periodicidade: semanal
Tiragem média: 69 mil
Sede: Lisboa

“Jornal de Negócios”
Tipo: economia
Periodicidade: diário
Tiragem média: 15 mil
Sede: Lisboa

“Diário Económico”
Tipo: economia
Periodicidade: diário
Tiragem média: 18 mil
Sede: (online)

Jornal “Hoje Macau”
Tipo: generalista, Macau
Periodicidade: diário
Tiragem média: (nd)
Sede: Macau

Posição sobre o AO90: artigo de 13.03.12.

“Jornal de Angola”
Tipo: generalista, Angola
Periodicidade: diário
Tiragem média: (nd)
Sede: Luanda

Posição sobre o AO90: Editorial de 08.02.12.

“Jornal da Região”
Tipo: regional (todo o país)
Periodicidade: diário
Tiragem média: (nd)
Sede: Lisboa

Nota: grande parte (se não a maioria) da imprensa regional e local, independente por conseguinte dos grandes grupos económicos editoriais, não está contaminada pelo “acordês”. Por manifesta falta de disponibilidade e meios não nos é possível enumerar e incluir aqui todos os títulos dessas impolutas publicações, honra lhes seja feita.

[Dados das tiragens: APCT]

«Lusofonias» [Duarte Branquinho, semanário “O Diabo”, 14.08.12]

click na imagem para a ampliar

Fui este ano pela primeira vez ao Rio de Janeiro, cidade de uma beleza natural espantosa que já foi capital de Portugal. Observando as pessoas e os seus hábitos, houve algo que me deixou perplexo. Mesmo sabendo que o brasileiro comum não entende bem a nossa pronúncia, não deixei de ficar chocado – a palavra é mesmo esta – com o facto de a maioria deles não perceber sequer que língua é que falamos! Perguntaram-me se eu era italiano ou argentino e alguns responderam-me em espanhol (por este termo entenda-se o castelhano com sotaque e termos sul-americanos)!
Claro que basta abrir as vogais, mudar o tempo verbal para o gerúndio e usar alguns termos locais para se ser entendido. Mas a adaptação tem que ser nossa.
Estabelecida a comunicação, verifica-se que há um carinho e uma admiração por Portugal. Mas não nos deixemos iludir.
O cidadão comum conhece muito pouco do país que lhes levou a língua e onde um dia aportou uma corte europeia, algo único na História. Apesar de demonstrar curiosidade e interesse.
Esta experiência pessoal leva-me à questão de fundo da lusofonia. Conceito a partir do qual quase tudo se tem defendido. Incluindo o famigerado Acordo Ortográfico, que em nada aproximou, nem aproximará, os países lusófonos.
Este é um assunto de elevada importância que não deve ser descurado. A lusofonia é uma área de influência geopolítica natural de Portugal e que deve por nós ser utilizada na afirmação da nossa cultura e posição internacional, mas há que recordar que não pode ser deixada a outros. Nunca pela lusofonia devemos submeter-nos a interesses alheios. Pelo contrário, devemos ter sempre presente que a nossa gloriosa gesta lusa foi mais uma das projecções da Europa. Não podemos esquecer o poder e amplitude da forma como locámos o mundo, mas o que não podemos mesmo fazer é esquecer o nosso país e o nosso povo em nome dessa projecção.

Duarte Branquinho
“O Diabo”, 14 Agosto 2012

[Editorial da autoria de Duarte Branquinho no semanário “O Diabo” de 14.08.2012. Transcrição copiada do Facebook.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

Uma entrevista sobre o “acordo ortográfico”

[Nota prévia:

Não nos revemos em algumas das opiniões expressadas pelo entrevistado, nem no “timing” e nos métodos das acções que em função dessas opiniões o mesmo advoga no âmbito da luta contra o “acordo ortográfico”.

Agradecemos, no entanto, a referência que aquele subscritor faz à nossa iniciativa.]

Nota posterior (18.08.12): o conteúdo deste “post” foi apagado a pedido do entrevistado.


“O Acordo Ortográfico é inconstitucional”

Duarte Branquinho

Nota posterior (18.08.12): o conteúdo deste “post” foi apagado a pedido do entrevistado.

In semanário “O Diabo” de 14.08.12.

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

«À imprensa nacional que se respeita!» [por Maria José Abranches]

Ex.mos Senhores Directores das publicações:

Público, Correio da Manhã, Jornal i, Sol, Jornal de Negócios, Revista Sábado, O Diabo, Gazeta da Beira, Jornal da Região

Sou visceralmente contra o Acordo Ortográfico de 1990, porque o conheço e repetidamente analisei, desde que foi publicado no Diário da República (23-8-1991), e porque tenho lido e ouvido muito do que sobre ele se publicou e disse, a favor e contra, desde então. Também sobre ele me tenho publicamente pronunciado em diversas ocasiões, numa luta que encetei em Abril de 2008. Os meus textos, alguns publicados na imprensa, encontram-se quase todos no meu nome (Maria José Abranches), no sítio da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (http://cedilha.net/ilcao/), que subscrevi e a que activamente aderi, assim que dela tive conhecimento por uma notícia do jornal “Público”.

Porque as publicações que V.ªs Exc.ªs dirigem se respeitam e nos respeitam, ao respeitarem a língua de Portugal, permito-me chamar a V.ª atenção para o meu último texto, “A Herança”, publicado no sítio acima referido em 10 de Junho último, pois ouso acreditar que o empenho e cuidado com que me documentei para o escrever poderão contribuir para uma visão mais global do muito que, para nós portugueses, está neste momento em causa (http://cedilha.net/ilcao/?p=6272#comments).

Aproveito ainda a ocasião para formular algumas perguntas cuja resposta nos deveria interessar a todos, cabendo à comunicação social um papel determinante no sentido de forçar os políticos a definir-se, quebrando os “tabus” que estes, com maior ou menor subtileza, nos querem impor:

– Como se explica que, tendo havido tantas eleições desde 1990, o AO90 nunca tenha sido publicamente discutido no âmbito das campanhas eleitorais? Esta pergunta é ainda mais pertinente no que toca às últimas eleições, a partir de 2009: legislativas, autárquicas, presidenciais e de novo legislativas.

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