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Prémio Vasco Graça Moura (sem AO90, claro) [“TSF”, 08.10.14]

Vasco Graça Moura

Prémio de poesia Vasco Graça Moura em 2015

O Prémio Vasco Graça Moura destina-se a autores consagrados ou que estejam a dar os primeiros passos na escrita. Será atribuído no próximo ano, pela editora Modo de Ler, que em 2015 assinala 40 anos sobre o primeiro livro que publicou do escritor, poeta e ensaísta.

José da Cruz Santos, editor da Modo de Ler, considera que este prémio é uma boa oportunidade para descobrir bons originais e ajudar alguém a publicar uma obra.

Podem concorrer escritores de qualquer nacionalidade, a única condição é que a obra tem que ser escrita em português, mas não de acordo com o novo acordo ortográfico. Vasco Graça Moura, que morreu no passado dia 27 de Abril, vítima de cancro, era presidente do Centro Cultural de Belém, desde Janeiro de 2012.

Romancista, poeta, ensaísta, tradutor, ex-deputado europeu e ex-secretário de Estado, Vasco Graça Moura foi alvo de várias homenagens este ano, nomeadamente pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Recebeu os prémios Pessoa e Vergílio Ferreira e ainda o de Poesia do PEN Clube Português e da Associação Portuguesa de Escritores, que também lhe atribuiu o Grande Prémio de Romance e Novela.

Autor de romances como “Quatro últimas canções” (1987), “A morte de ninguém” (1998), “Meu amor, era de noite” (2001), “O enigma de Zulmira” (2002), “Por detrás da magnólia” (2004), foi uma das vozes mais críticas do Acordo Ortográfico.

[Transcrição integral de notícia da rádio TSF, 08.10.14. “Links” (e destaque) adicionados por nós.]

«Restauração do português europeu» [Resolução do PEN Internacional, 02.10.14]

A Assembleia de Delegados do PEN Internacional, reunida no seu 80º Congresso Mundial em Bishkek, Quirguistão, de 29 de Setembro a 2 de Outubro de 2014:

Referindo-se à Resolução do PEN Internacional de 2012, que expressava um desapontamento pelo facto de as autoridades portuguesas “intentarem uma limitação do português pela imposição de regras artificiais” (pela estandardização da língua portuguesa); Reiterando a resolução do PEN Internacional de 2013, que apelava às autoridades portuguesas para “tomarem medidas imediatas para permitir uma restauração do português europeu na administração pública e nas escolas” e para “ter em conta… as opiniões de especialistas em Linguística… e garantir que os editores cessem de impor condições abusivas e restritivas para a criação literária”;

Preocupado com o facto de, apesar destas objecções, o Parlamento português ter aprovado, em 28 de Fevereiro de 2014, uma resolução apresentada pelos partidos do governo no sentido de formar um grupo de trabalho para monitorizar a implementação do Acordo Ortográfico, O PEN Internacional nota o seguinte: A experiência dos últimos três anos demonstrou a resistência dos países lusófonos ao Acordo Ortográfico. Enquanto o governo brasileiro adiou a implementação desse Acordo até 2016, outros países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste ou não o ratificaram ou não se vêem em condições para implementá-lo. Apesar disso, as autoridades portuguesas mantiveram a imposição inconstitucional do Acordo. Segundo a Constituição da República Portuguesa (Artigo. 43.º – 2) “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”. Para além disso, o Acordo foi implementado apesar do facto de o seu próprio texto prever um período de transição até 2016.

Adicionalmente, o PEN Internacional refuta o argumento segundo o qual esse Acordo conduzirá a uma simplificação da língua com benefícios no plano da educação. A nova relevância dada à ortografia segundo critérios orais e não etimológicos distancia a língua portuguesa das suas raízes gregas e latinas, limitando a capacidade de os estudantes entenderem a evolução da língua e as relações entre as línguas. Entretanto, vários editores impuseram o Acordo a escritores e tradutores, o que viola a liberdade de expressão destes últimos, bem como o Código dos Direitos de Autor da Sociedade Portuguesa de Autores.

Assim, o PEN Internacional reitera as seguintes recomendações às autoridades portuguesas no sentido de:

Tomarem medidas imediatas para permitir a restauração do português europeu na administração pública e nas escolas e instituições educacionais;

Respeitarem a herança cultural comum, bem como a relação entre o português e outras línguas europeias, em concordância com a Constituição da República Portuguesa (Artigo 43.º – 2).

Além disso, o PEN Internacional apela às autoridades portuguesas para que:

• Reconheçam publicamente a existência de problemas significativos na implementação do Acordo Ortográfico, tal como foi acima assinalado;

• Respeitem a liberdade dos escritores e tradutores para escolherem a opção ortográfica mais apropriada para o seu trabalho.

NOTA: A resolução foi aprovada por unanimidade pelos delegados dos 58 Centros presentes no Congresso.

[Transcrição integral de Resolução #22: Língua Portuguesa. Apresentada pelo Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional » Pen Clube Português. Documento publicado em 06.10.14. “Links” e destaques nossos.]

«No Dia Internacional da Língua Materna»… [Teresa Cadete, “Público”, 21.02.14]

No Dia Internacional da Língua Materna: o sustentável peso da língua, casa comum

Quem passar pelas bandas da Cidade Universitária, por exemplo para se dirigir à zona das piscinas ou à Faculdade de Ciências contornando pelo poente a Aula Magna e a Faculdade de Letras, deparará com um curioso letreiro adicionado ao conhecido sinal de trânsito proibido: “EXETO UNIVERSIDADE.” Que quererá dizer esta mensagem e a quem se destina ela? Talvez a estudantes inseridos no programa Erasmus ou a professores visitantes, que comunicam nas aulas na língua de Shakespeare e que agradecerão que lhes indiquem uma saída do labiríntico campus ao fim de um dia de aulas? Mesmo com uma letra trocada, em princípio entende-se.

Ou haverá aqui outras razões e significações que toda a razoabilidade desconhece? Coloquemos algumas hipóteses absurdas. Por exemplo: talvez a confecção do letreiro tenha sido entregue a alguém que se excedeu na aplicação do programa Lince, austero depurador das facultatividades previstas no Acordo Ortográfico de 1990, ou, conspirativamente, a alguém empenhado em mostrar a absurdidade de um des-acordo que nunca cessará de dividir a população falante, escrevente e pensante, a menos que seja suspenso por decisão sensata, pragmática e soberana? Ou, ainda e algo simploriamente, terá porventura alguém mais lincesco que o Lince e, em dúvida quanto à pronúncia correcta da palavra EXCEPTO, resolvido cortar empiricamente o C e o P, por assim dizer deitando fora a criança com a água do banho?

Esta foto nada mais faz do que documentar a premente necessidade de dizer: alto e para o baile. Sim senhores, para e não pára. Entremos no baile porque se o quisermos parar até os acordistas serão levados a recorrer ao acento que o Acordo Ortográfico (AO) quer eliminar. Entremos no baile mandado das falácias dos defensores do AO, que têm vindo a desmoronar-se uma por uma mas que persistem em manter uma língua nada-morta e desacreditada no contexto das línguas-irmãs. Não só no âmbito da lusofonia, ela (o “acordês) vê-se ultrapassada pelo brasileiro de circulação ligeira e sensual, que goza de um maior número de falantes.

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Encontro Internacional de Escritores PEN Clube Português, Junho 2013

Encontro Internacional de Escritores
PEN Clube Português – Comité de Escritores para a Paz do PEN Internacional – 27./28.6.2013

Lisboa, Encruzilhada do Diálogo e da Liberdade de Expressão
Lisbon, Crossroad of Dialogue and Freedom of Expression
Lisbonne, Carrefour du Dialogue et de la Liberté d’Expression

Programa detalhado: www.penclubeportugues.org

Celebrando a confluência entre a interrogação de memórias históricas, a reflexão sobre as dinâmicas da presente crise e as possíveis acções dos escritores, na sua própria escrita e para além dela, este Encontro pretende inserir-se na dupla face do PEN: literatura e cidadania.

Locais: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Casa Fernando Pessoa.

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Os sócios do PEN Clube Português, reunidos em Assembleia Geral no dia 18 de Março de 2013:

1. Defendem a necessidade de suspensão imediata da aplicação do AO, a fim de que possa ser retomada uma discussão pública séria sobre um assunto que não pertence ao foro político nem económico mas linguístico e cultural;

[Excerto de moção aprovada por unanimidade.]

Moção do PEN Clube Português sobre o Acordo Ortográfico (AO)

Moção do PEN Clube Português sobre o Acordo Ortográfico (AO)

Proposta aprovada por unanimidade na Assembleia Geral de sócios em 18.3.2013

Considerando que:

1. Na Assembleia Geral do PEN Internacional em Setembro de 2012, os 89 Centros presentes no Congresso de Gyeongju, Coreia do Sul, aprovaram por unanimidade uma Declaração sobre o Acordo Ortográfico (AO) de 1990, imposto a grande parte da população portuguesa desde o início de 2012, na qual se expressava a preocupação do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos;

2. Que em tal Declaração se sublinhava também que “em comparação com a história recente de outras línguas internacionais, pode ver-se também que a ideia de estandardização além-fronteiras tem sido rejeitada mais vezes do que aceite” e que “tentar centrar uma língua em prioridades administrativas e/ou comerciais é enfraquecê-la ao atacar a sua complexidade e criatividade inata a fim de promover métodos burocráticos de natureza pública e privada”;

3. Que na discussão que se seguiu, vários Centros manifestaram a sua preocupação pelas consequências de uma medida que, não cumprindo os objectivos declarados de unificação ortográfica entre as variantes lusófonas ou de simplificação da escrita, veio desintegrar a coerência do português europeu desmembrando famílias de palavras e contribuir para um profundo mal-estar face à imposição, em muitas repartições públicas e escolas, de um grafolecto cuja necessidade nunca foi cabalmente demonstrada;

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O Manifesto de Girona e os “fatos com-seus-medos” [Teresa Cadete, PÚBLICO, 21.02.2013]

Em Maio de 2011, os participantes do encontro anual do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional, reunidos na cidade catalã de Girona, terminavam de redigir um pequeno manifesto que sintetizava em dez pontos o documento muito mais extenso, até então em vigor, de defesa dos direitos das línguas, sobretudo minoritárias, em particular daquelas que estavam – e estão – ameaçadas de extinção. Pela sua importância, transcrevemos aqui este texto, que condensa as preocupações de todos os que cuidam do tecido que nos conecta quando pensamos, comunicamos, criamos, sonhamos:

1. A diversidade linguística é um património da humanidade que deve ser valorizado e protegido.

2. O respeito por todas as línguas e culturas é fundamental no processo de construção e manutenção do diálogo e da paz no mundo.

3. Cada pessoa aprende a falar no seio de uma comunidade que lhe dá vida, língua, cultura e identidade.

4. As diversas línguas e os diversos falares não são só instrumentos de comunicação; são também o meio em que os seres humanos crescem e as culturas se constroem.

5. Qualquer comunidade linguística tem direito a que a sua língua seja utilizada oficialmente no seu território.

6. O ensino escolar deve contribuir para prestigiar a língua falada pela comunidade linguística do território.

7. O conhecimento generalizado de diversas línguas por parte dos cidadãos é um objectivo desejável, porque favorece a empatia e a abertura intelectual, ao mesmo tempo que contribui para um conhecimento profundo da língua própria.

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«A “estandardização” da língua portuguesa» [“Jornal de Angola”, 26.10.12]

A “estandardização” da língua portuguesa

Constata-se, actualmente, que, por parte da maioria dos Estados, se mantem a secular tendência unificadora para reduzir a diversidade, em prol de comportamentos adversos à diversidade cultural e ao pluralismo linguístico. Para tal, tem contribuído a actual planetização da economia, cuja “teologia do mercado”, ao não servir maioritariamente as diferentes comunidades e ao impor regras deterministas que obrigam as pessoas a submeterem-se, religiosamente, às mesmas em vez do contrário, acaba por interferir na comunicação e na cultura, afectando as relações e as formas de interacção, que garantem a coesão interna de cada comunidade linguística.

A Declaração Universal dos Direitos Linguísticos surge em Barcelona, em 6 de Junho de 1996, e foi promovida pelo Comité de Traduções e Direitos Linguísticos do PEN Clube Internacional e pelo Centro Internacional Escarré para as Minorias Étnicas e as Nações – CIEMEN. Tem por objectivo corrigir os desequilíbrios linguísticos, de modo a assegurar o respeito e o pleno desenvolvimento de todas as línguas, para além de estabelecer os princípios de uma paz linguística planetária justa e equitativa, como factor principal da convivência social. Como resultado de um largo processo de reflexão, iniciado em Setembro de 1994, e contando com a colaboração de 32 centros PEN e 64 organizações do mundo inteiro que trabalham na investigação jurídica, linguística, sociológica e na defesa dos direitos dos povos, esta Declaração tem como preocupação, em primeira instância, as comunidades linguísticas e não os Estados. Daí que se inscreva no esforço levado a cabo por instituições internacionais, com propósitos direccionados para a garantia de um desenvolvimento sustentado e equitativo para toda a humanidade.

Do ponto de vista dos princípios gerais, a Declaração Universal de Direitos Linguísticos considera que todas os idiomas são a expressão de uma identidade colectiva e uma maneira particular de perceber e descrever a realidade, pelo que devem gozar das condições necessárias para o seu desenvolvimento em todos os domínios. Refere esta Declaração, no seu artigo 7º, que “cada língua é uma realidade constituída colectivamente, logo, é no seio de uma comunidade que ela se coloca à disposição dos seus membros, como instrumento de coesão, de identificação, de comunicação e de expressão criativa”.

Entre outros princípios, no seu artigo 10º, afirma que todas as comunidades linguísticas são iguais em direitos e considera inadmissíveis as discriminações resultantes de critérios assentes no grau de soberania política, situação social, económica ou qualquer outra, assim como o nível de codificação, actualização ou modernização que as línguas tenham alcançado. Com base no princípio da igualdade, refere também que se devem estabelecer as medidas indispensáveis para que essa igualdade seja de facto efectiva e fundamenta todos os seus objectivos em princípios universais e de justiça social, que configuram muita documentação relevante do direito internacional.

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«Uma bassula ao Acordo Ortográfico» [“Jornal de Angola”, 25.10.12]

De repente, emudeceram as notícias sobre as análises e discussões institucionais à volta do tão polémico Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO), consideradas, mais do ponto de vista político que académico, como da maior importância para a promoção e difusão do Português no Mundo.

O assunto, aparentemente adormecido, parece ter fugido da agenda de prioridades da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), já que o mesmo acabou por não ser retomado na última Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo em Maputo, após os Ministros da Educação da CPLP, em Luanda, por determinação do Conselho de Ministros desta organização internacional, terem concluído, três meses antes, através da Declaração de Luanda, o seguinte:
“A aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 no processo de ensino e aprendizagem revelou a existência de constrangimentos”, pelo que os Ministros da Educação decidiram proceder a um diagnóstico relativo aos constrangimentos e estrangulamentos na aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 e a “acções conducentes à apresentação de uma proposta de ajustamento do Acordo Ortográfico de 1990, na sequência da apresentação do referido diagnóstico”.

Não havendo qualquer cronograma que estabeleça o início e o término para a realização do diagnóstico e não tendo, posteriormente, o Conselho de Ministros e a Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, em Maputo, retomado a questão do Acordo Ortográfico nas suas agendas de trabalho, esta polémica questão deixou de ser prioritária e retira qualquer pressão política sobre os países que não o ratificaram ou, mesmo que o tenham feito, ainda não o tenham posto em prática.

Em 15 de Setembro último, tudo se complicou com a posição da Associação Internacional de Escritores (PEN Internacional), ao aprovar, no seu 78º Congresso anual, realizado este ano em Gyeongju (Coreia do Sul), uma Resolução do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos, em que o mesmo expressa preocupações quanto ao Acordo Ortográfico de 1990. Os 87 centros presentes, de um total de 144 em mais de 100 países, consideraram o Acordo Ortográfico “um problema complexo”, manifestaram, segundo o PEN Clube Português, evidente preocupação pela ameaça que o mesmo constitui para a própria Língua Portuguesa e expressaram a sua “incredulidade” ao interrogarem-se “como se teria chegado a tal situação”. Também refere a Resolução aprovada pelo PEN Internacional que “os tradutores que, em princípio, não pretendam seguir o Acordo Ortográfico de 1990, se vêem submetidos às imposições administrativas e comerciais”.

Na apresentação do tema, na Coreia do Sul, a presidente do PEN Clube Português, Teresa Salema, manifestou a “preocupação pela situação com que um número crescente de escritores e tradutores se vê confrontado”, nomeadamente pelo facto de muitos não se identificarem com o Acordo Ortográfico de 1990 ou “de deixarem que os seus textos sejam convertidos para uma ortografia que lhes é alheia ou de não verem as suas obras publicadas”.

O PEN Internacional, organização não governamental de escritores de diferentes géneros literários, poetas, novelistas e também jornalistas e historiadores, foi fundado em Londres em 1921, com o objectivo de promover a liberdade de expressão, difundir o papel da literatura na cultura mundial e incentivar a amizade e a cooperação intelectual entre seus membros a nível planetário. É a mais antiga entidade do mundo, criada em defesa da promoção dos direitos humanos e é, também, a mais antiga associação literária de carácter mundial.

Esta Resolução, aprovada por unanimidade, não deixa de ser preocupante para a CPLP, que se rege por princípios assentes no primado dos direitos humanos e é uma organização institucionalizada em redor de uma forte componente cultural, que é a própria Língua Portuguesa. Se, por um lado, o papel do Acordo Ortográfico, no que respeita à unificação gráfica (de todo impossível) já estava posto em causa, agora acaba por se desmistificar também o papel político e cultural do Acordo, quanto à promoção e difusão internacional do próprio idioma. Ainda segundo a Resolução, “tentar centrar uma língua em prioridades administrativas e/ou comerciais é enfraquecê-la ao atacar a sua complexidade e criatividade inata, a fim de promover métodos burocráticos de natureza pública e privada”.

Acrescenta ainda que “no que toca ao inglês, houve tentativas equivalentes para uma aproximação universal no tempo do Império Britânico. Contudo, a força das regiões anglófonas (situação similar à do português) levou a que tais regras tivessem sido quebradas tanto internacional como nacionalmente”. Lê-se também na mesma Resolução: “duvidamos muitíssimo que essa proposta de estandardização produza outros efeitos além de burocratizar os textos usados nas escolas, separando assim os alunos da real criatividade da Língua Portuguesa, nos planos regional e internacional”.

Estas bassulas não ajudam a promover, nem comunitariamente, nem fora da CPLP, um idioma comum a oito países situados em diferentes comunidades regionais. Em vez da fuga em frente, há, evidentemente, a necessidade de se discutir e analisar de forma mais séria e urgente esta questão, que a todos os falantes e escritores da Língua Portuguesa diz respeito.

[Transcrição integral de artigo publicado no “Jornal de Angola” de 25.10.12. “Links”, destaques a “bold” e sublinhados inseridos por nós. Conhecimento do artigo através da página Facebook “Tradutores Contra o Acordo Ortográfico”.]

«Um acordo que divide» [Teresa Cadete, semanário “O Diabo”, 25.09.12]

1. Quais as principais razões que levaram à condenação do AO pelo PEN Internacional?

Mais do que razões, foi todo um processo de debate e esclarecimento nos encontros do PEN Internacional, em que alertámos os colegas dos outros Centros e, mais especificamente, dos comités de Tradução e Direitos Linguísticos CTDL e de Escritores para a Paz. No Congresso e Assembleia Geral anual, em Belgrado, em Setembro de 2011, foi aprovado o Manifesto de Girona dos Direitos Linguísticos, reconhecendo a cada país ou grupo cultural o direito (aliás consignado na Constituição da República Portuguesa) de defender a língua materna como património comum. No encontro do CTDL em Barcelona, em Junho deste ano, após a intervenção da nossa Vice-presidente Maria do Sameiro Barroso foi decidida a elaboração de uma resolução a discutir e votar no Congresso anual do PEN Internacional em Gyeongju, Coreia do Sul, que ocorreu de 9 a 15 de Setembro. Todos estes documentos podem ser consultados no blog Proximidade do site do PEN Clube Português, em www.penclubeportugues.org

2. Como é que a comunidade linguística internacional vê o AO?

Presumo que se refere à comunidade do PEN Internacional, que conta com mais de 145 Centros em 104 países. Por aqui já se vê que nem sempre um Centro PEN corresponde a um país, mas a uma comunidade linguística com identidade própria. A incredulidade face ao AO foi tão grande que os redactores da resolução tiveram que apensar-lhe uma cronologia para que as 87 delegações presentes na Coreia percebessem como se tinha chegado a tal ponto, ou seja, como a população portuguesa tinha permitido que o AO fosse imposto como foi, à revelia das boas práticas linguísticas, não só aqui com o português europeu mas também no Brasil com a variante brasileira. Estamos no século XXI, na época da glocalização, do conhecimento global e aproximação mútua no respeito pela diferença local. A imposição de homogeneização (que, como vimos, não existe) é, no fundo, um anacronismo. No caso do AO, mais ainda, é uma mentira. Aconselho os leitores a lerem a resolução do PEN Internacional na sua íntegra. Enche-nos de vergonha face aos anglófonos, francófonos, hispanófonos.

3. Esta decisão do PEN Internacional é importante para a manutenção da actual ortografia?

Pelo menos dá ânimo a quem é guiado pelo mais elementar senso comum de manutenção de uma ortografia perfeitamente operacional e articulada com a família linguística europeia. E não seremos mais europeus do que brasileiros ou africanos? É uma questão de história e geografia elementares. Em plena igualdade com aqueles, atenção! As reacções contra o AO não são xenófobas, ao contrário do que se pretende dizer de má-fé. São manifestações de respeito mútuo.

4. O que diz aos que acham que ir contra o AO é uma causa perdida?

Depende de que ponto de vista falam. Num dos campos, os acordistas parecem muito seguros de si e da força daquilo a que chamam o facto consumado. Não deixa de ser curiosa a semelhança – mutatis mutandis – da acusação de “histeria” pelos acordistas a quem recusa deixar que a sua língua materna seja laminada e mutilada, com as atitudes de regimes totalitários que internavam os opositores em hospitais psiquiátricos, para não falar da “histeria” das mulheres confinadas ao papel de esposa e mãe, sem voz no espaço público. Mas tais discursos podem também ser vistos como sintoma do nervosismo de quem se torna violento (até agora só verbalmente) por insegurança de argumentação. De facto, ainda ninguém soube explicar as vantagens de um acordo que divide onde diz unificar.
No campo dos opositores ao AO, os argumentos em favor da manutenção das variantes como resultado de boas práticas são coerentes mas há sempre vozes derrotistas – o que não é de admirar devido à incipiente cultura política, no sentido mais nobre: de cuidar do que nos diz respeito a todos, fomentando o diálogo e procurando consensos. É difícil resistir quando está em causa o próprio posto de trabalho? Pois é, e já escrevi sobre isso com total compreensão. Mas há meios de resistência, como a criação de grupos de opinião e, é claro, a assinatura da ILC para fazer voltar a discussão e votação à AR. Tenho aqui uma palavra de louvor para as formas criativas de resistência, desde a correcção de manuais escolares passando pelo uso da caneta para acrescentar cs e ps em textos acordizados até à troca de impressões com as pessoas em qualquer espaço público. Por aí se vê também a amplitude da rejeição daquele grafolecto. Em todo o caso, sublinho que ninguém se deve sentir só nesta luta que tem uma base de apoio cada vez maior. E que a possibilidade de mudar esta situação vergonhosa depende mesmo de cada um.

5. Considera que tem havido oposição a um verdadeiro debate sobre o AO?

A correlação de forças muda a cada momento e é um fenómeno fascinante de observar. Podem bloquear aqui e além a discussão, mas quem rejeita visceralmente o AO não ficará sempre calado. Devo também frisar que o PEN é e será um forum aberto a todas as opiniões, embora a esmagadora maioria dos membros se tenha manifestado inequivocamente contra esse “atentado ao corpo escrito da língua”, nas palavras de Maria Velho da Costa.

6. Como é que o AO afectou o mundo da tradução e da edição?

Está a afectar. O feedback de escritores e tradutores à notícia sobre a resolução do PEN Internacional mostra que tínhamos razão ao alertar os colegas do PEN Internacional para as ameaças que pairam sobre escritores e tradutores que não queiram acordizar os seus textos. As causas do PEN tornaram-se diferenciadas. Criado em 1921 para dar assistência a escritores perseguidos e ameaçados, hoje o PEN também defende as línguas ameaçadas, em nome da diversidade linguística e cultural.

7. Muitas editoras acharam que o AO lhes abriria as portas do mercado brasileiro. Mas, de facto, continua a haver duas versões de cada livro…

Duas? Se quisesse ser cínica diria muitas, pois o AO escancarou a porta ao mau escrever, à ortografia desbragada e aleatória! E os editores portugueses acordizantes merecem ser escarnecidos com uma “receção” num Brasil onde se escreve e escreverá “recepção”. Que o resultado seja então como se pronuncia: uma recessão… Sempre disse aliás que o AO é um atestado de imbecilidade passado aos brasileiros que, coitados, acabam por ficar com a imagem de serem incapazes de ler acto, facto, acção…

8. Que acha das editoras nacionais que não adoptaram o AO?

Chapéu! Merecem que os cidadãos que não gostam do AO comprem os seus livros.

9. Também na imprensa há jornais que não adoptaram. O que acha daqueles, como “O Diabo”, que se opõem ao AO?

Idem, para os jornais.

10. Como é que o cidadão comum pode opor-se ao AO?

Atenção, há quem goste do AO, como há quem goste de salsichas… Quem se opõe visceralmente pode armar-se com os apetrechos da imaginação – é delicioso desobedecer a, e contrariar, normas imbecis! Não dou receitas de propósito: que cada pessoa descubra as suas. A resistência ao AO tem de passar por todos os momentos. Já falei da ILC, dos debates cívicos. Pode ser uma oportunidade para poupar dinheiro em livros e valorizar os que se tem em casa. E para cultivar as línguas estrangeiras, quanto mais não seja para sentir como somos europeus, com raízes greco-latinas comuns. Sobretudo, é muito importante que os editores acabem por verificar que os negócios chorudos com que estavam a contar eram como a fábula da leiteira e do pote partido: que brasileiros querem ler “perspetivas” de “aspetos”, quando têm e terão sempre outras percepções? E ainda não falámos dos países africanos…
A derradeira mensagem não pode deixar de ser esta: não deixemos que o diktat do AO continue a acontecer-nos. E isso começa por escrevermos como temos feito até aqui. Claro que me preocupa a geração dos nossos filhos e netos, massacrados com o eduquês, a TLEBS e agora o acordês. Mas é possível dar a volta a isso – e é um desafio à intensificação da cooperação intergeracional. E à redescoberta dos nossos autores que escrevem em bom português, desde os clássicos a um Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires… E o “Camões sem acção” – como vi escrito numa cinta, horror dos horrores – que vá para a reciclagem.
Os governos sucessivos, sempre tão afanosos em encomendar estudos, nunca se preocuparam em avaliar o custo real de uma implementação do AO que – ouso vaticinar – nunca acontecerá, pelo menos nas próximas décadas. O tenebroso argumento da modernização da língua – e aqui vem a “pharmácia” quase sempre à baila – equivale a dizer: Ponham de parte a comida tradicional portuguesa e comam no MacDonald’s! Aí também o cidadãoque não goste do AO tem uma palavra a dizer, não só, como já foi sugerido acima, solicitando nas livrarias que lhe forneçam livros em bom português, nas bancas de jornais comprando publicações não acordizadas (a redacção é sempre mais cuidada), mas de mil e uma maneiras. Por exemplo dizendo nas lojas: Não mude esta tabuleta (com “secção, p. ex.), pode voltar a precisar dela. Uma gota de humor corrosivo só ajuda. Disse aliás muitas vezes que gostaria de ver um novo outdoor dos Gato Fedorento no Marquês de Pombal, desta vez não contra um partido xenófobo mas contra a lapidação do nosso património comum. Mesmo que isso nunca venha a ser executado, as redes sociais podem ser rastilhos para acções interessantes – que estão em parte a decorrer já.

[Transcrição integral de entrevista a Teresa Cadete, Presidente do Pen Clube Português, realizada por Duarte Branquinho, Director de “O Diabo“, publicada por aquele semanário no dia 25.09.12. Sublinhados e “links” adicionados por nós.]

[Via “post” de Teresa Cadete no Facebook.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

«Pen Internacional condena aplicação do Acordo Ortográfico» [“Público”, 18.09.12]

A organização literária PEN Internacional condenou por unanimidade o Acordo Ortográfico (AO), dizendo em comunicado que a estandardização da língua portuguesa é uma proposta de natureza administrativa e comercial. Tentar centrar uma língua nestas prioridades “é enfraquecê-la”, defendem.

Numa nota assinada por Teresa Salema, presidente do PEN Clube Português, e Maria do Sameiro Barroso, vice-presidente, que levaram o tema ao 78.° Congresso do PEN Internacional, que reuniu até sábado na Coreia do Sul delegações do PEN de 87 países, as dirigentes escrevem que “todos sentiram o carácter nocivo e desestabilizador de uma medida que fere os princípios pedagógicos da democracia, nomeadamente a intenção de contribuir para um aprofundado contacto de amplas camadas das populações com a diversidade linguística e a herança cultural”.

O tema já tinha sido levado à comunidade internacional em Junho deste ano quando o PEN Clube Português se mostrou preocupado com a discórdia em torno do AO. Na altura a organização lamentou a medida e sublinhou a falta de opções para os escritores que são contra a sua aplicação, argumentando que estes ou se submetem à nova ortografia, mesmo que vá contra os seus ideais, ou correm o risco de não verem as suas obras publicadas.

Esta situação foi vista com grande preocupação pelo PEN Internacional, que alertou para o perigo de se perderem características históricas da língua. “Tanto quanto podemos ver, não há nada na iniciativa portuguesa que faça mais do que limitar a força natural da língua, tentando limitar a sua criatividade através de um colete-de-forças de regras burocráticas”, nota a organização internacional no mesmo comunicado, lembrando os exemplos da língua espanhola e inglesa. “São precisamente as diferenças locais, nacionais e hemisféricas dentro da língua espanhola que lhe conferem uma força crescente.” Também no caso da língua inglesa, a organização defende que é a sua abertura face às diferenças que lhe dá força. “É a natureza competitiva, independente e divergente das regiões inglesas que se tornou na marca distintiva da sua força.”

[Transcrição integral de notícia do jornal “Público” de 18.09.12, da autoria de Cláudia Carvalho. Link disponível apenas para assinantes do jornal.]