original publicado em http://terravista.pt/Guincho/7933/garcia2.htm; a reprodução em timor.no.sapo.pt foi autorizada pelo autor (ver Correio 08.01, nº83)

TIMOR LOROSA´E – UM ENSAIO (fim)

Capitão Miguel Garcia

 

 

 

5. A Peace Keeping Force  

Quando cheguei a Timor, sabia que iria encontrar um território desprovido de infra-estruturas, destruído pela selvajaria das milícias, e uma população carente de apoio, que iria encontrar uma infinidade de imprevistos e contratempos, e que o tempo tinha outro sentido. A UNTAET e a tropa estavam ali para ajudar a construir um país, a preparar alguns quadros e instituições, a  criar a base par um futuro de desenvolvimento e segurança.

Inicialmente a adaptação ao ritmo de trabalho, o recuperar de uma viagem longa, o habituar ao clima, o entrar nas novas funções, em que as siglas novas predominavam, em que o pensar em inglês era imperioso, não foi tarefa simples. Mas a necessidade era imperiosa e a capacidade de adaptação emergiu. Sobre a experiência vivida em Timor escreveremos oportunamente e apenas no final da missão.

A estrutura militar em Timor está organizada de acordo com a Resolução do Conselho de Segurança 1272. Esta Resolução estabelece a PKF (Peace Keaping Force) que tem por missão ajudar a manter um ambiente de segurança em Timor Leste, bem como apoiar a Administração Transitória do Território (ETTA) na condução de eleições pacíficas e democráticas, e apoiar, dentro das suas capacidades, no desenvolvimento sustentado das infra-estruturas e organização de Timor Leste.

A PKF tem um dispositivo territorial assente em três sectores (Este, Central e Oeste) e o enclave de Oé-Cussi/Ambeno. O Sector Este tem uma área de responsabilidade definida pelos distritos de Covalima e de Bobonaro, compreendendo o Batalhão Neozelandês (NZBATT) e o Batalhão Australiano (AUSBATT), respectivamente. O Sector Central compreende 6 Distritos (Dili, Liquiça, Ermera, Aileu, Ainaro e Manufahi), cabendo a responsabilidade pelo Distrito de Ermera à Companhia Queniana (KENCET), compreendendo o Batalhão Português (PORBATT), os restantes. Ao Sector Oeste está atribuído ao Batalhão filipino (PHILLBATT) compreendendo o Distrito de Manatuto, ao Batalhão tailandês (THAIBATT), que compreende os Distritos de Baucau e Viqueque, e o Batalhão Coreano (ROKBATT) é responsável pelo Distrito de Lautém.

Portugal participa nesta missão de paz com um contigente de 930 militares que integram a estrutura do QG da PKF, do Comando do Sector Central e do Batalhão (PORBATT).

A Tropa portuguesa conduz operações de segurança no Sector Central, através de patrulhamentos, road blocks, acções CMA (Civil Military Affairs, que vão desde a assistência médica, à reparação de estradas) entre outras. Esta presença contribui ainda para a difusão da língua e cultura portuguesa.

Tal como em outras épocas históricas e noutras paragens, a principal missão das Forças Armadas Portuguesas é garantir a segurança das populações e realizar acções sócio-económicas em proveito desta.

 

Conclusão

 Portugal contactou com estas paragens orientais há mais de 400 anos, nelas deixou a religião e contribuiu para a identidade cultural distinta desta população. Retirou em período conturbado da nossa história, agora regressa como um dos maiores países doadores, procurando conservar influência, pelo menos cultural.

O investimento com a presença militar e com o ensino da língua foi o primeiro passo, precisamos de investir na formação dos quadros, gerir com cuidado a ajuda para a recuperação de infra-estruturas - lembramos o notável exemplo do Liceu Dr. Francisco Machado em Dili, recuperado pela Câmara Municipal de Lisboa -,  e, acima de tudo, precisamos de ter a real noção da dimensão do nosso país, das suas capacidades e dos seus interesses, não esquecendo a conjuntura em que nos inserimos, num mundo interdependente, onde as relações internacionais, apesar dos códigos e das intenções existentes, na realidade não se regem pelos princípios teóricos e éticos que aprendemos nos bancos da escola.

Timor Lorosa´e e as suas gentes merecem  apoio internacional para conseguirem paz, segurança e prosperidade económica; a eventual fixação norte-americana no território, através de uma base aérea em Los Palos e de uma base de submarinos na ilha de Ataúro, poderá ser o grande sinal de esperança para os timorenses. Esta possível acção da única superpotência sobrante, pensamos, não afectará os interesses australianos, até os alivia de eventuais responsabilidades de segurança alargada no território, ficando com mais recursos disponíveis para outros investimentos; a Indonésia dificilmente se sentirá ofendida pelo seu tradicional aliado e ficará, com certeza, calma para não o ofender, permanecendo ao mesmo tempo com a face limpa perante a comunidade internacional e também com mais capacidade para intervir economicamente; quanto aos timorenses, terão o garante da estabilidade e a garantia de um desenvolvimento assegurado. Oxalá não estejamos enganados.

De Timor levo os cheiros, o calor, as águas límpidas, a paisagem deslumbrante, o sentir deste povo sofredor, a amizade de muitos e a experiência que é de facto extremamente enriquecedora, quer ao nível profissional quer pessoal.

Bibliografia e fontes: 

CARDOSO, Pedro “As questões de segurança”; In “A Presença portuguesa no Oriente no fim do século XX”. Lisboa: In Boletim da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, N.º 24, 1997, p. 167-204.

MONTEIRO, Fernando Amaro - “O Islão, o Poder e a Guerra (Moçambique 1964-1974)”. Porto: Universidade Portucalense, 1993.

 - “A Guerra em Moçambique e na Guiné – Técnicas de accionamento de massas”. Porto: Universidade Portucalense, curso de 6 lições.

 - “Cerca do milénio – A violência global”. Porto: Curso de pós-graduação, Universidade Portucalense, 1999/2000.

MATOS, Artur Teodoro de - "Timor Português 1515-1769. Contribuição para a sua História". Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1974.

MUCHIELLI, Roger - “La subversion”. Paris : CLC, 1976.

TOMAZ, Luís Filipe, “De Ceuta a Timor”. Lisboa. 2ª Edição, Difel, 1998.

 - “Timor Loro Sae: uma perspectiva histórica”. In “Timor um país para o séc. XXI”. Lisboa: Instituto de Altos Estudos Militares, Universidade Católica Portuguesa, 2000.

TZU, Sun - “A arte da Guerra”. Lisboa: Ed. Futura, Lisboa, 1974.

 

PLANTA

original publicado em http://terravista.pt/Guincho/7933/garcia2.htm; a reprodução em timor.no.sapo.pt foi autorizada pelo autor (ver Correio 08.01, nº83)