Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

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Viva o Português de Angola!


(…) uma nova realidade linguística em Angola, a que chamamos “português de Angola” ou “angolano”, à semelhança do que aconteceu ao brasileiro ou ao crioulo. Embora em estado embrionário, o “angolano” apresenta já especificidades próprias (…). Pensamos que, no nosso país, o “português de Angola” sobrepor-se-á ao “português padrão” como língua segunda dos Angolanos.
Amélia Mingas

Nota 1: como se vê pelas duas amostras antecedentes, os acordistas não se atrevem a estropiar as páginas de ou sobre Angola.
Nota 2: decidi não corrigir “rectificação”. É uma bela de uma gralha, não pentelhemos, até porque não significa seja o que for. O que tem significado nesta notícia, isso sim, é a expressão “ou não”. Treme, Malaca!

 

Acordo Ortográfico em discussão

Jornal de Angola – Online, 12.05.17

Os membros da Comissão Multissectorial para Rectificação do Acordo Ortográfico, com vista à sua ratificação, vão em breve apresentar ao Conselho de Ministros a posição sobre o processo, que vai ditar a adesão ou não ao acordo. 

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Integrada pelo ministro da Educação, Pinda Simão, da Comunicação Social, José Luís de Matos, e da Administração do Território, Bornito de Sousa, além de técnicos e investigadores, a comissão analisou o trabalho da primeira fase do diagnóstico sobre a aplicação em Angola do Acordo Ortográfico de 1990. “Não é só Angola e Moçambique que não concluíram o processo”, disse a porta-voz da comissão, Paula Henriques, acrescentando que existem outros países que também não o concluíram.

“O processo não é linear e em função de cada uma das nossas realidades, vamos fazer a devida análise e ver os prós e contras até à decisão final”, sublinhou Paula Henriques, que acrescentou que a questão não é se Angola avança ou não com a adopção do acordo ortográfico. O fundamental, explicou, é ver até que ponto pode ou não ser viável a sua aplicação nas escolas. Paula Henrique esclareceu que nenhuma escola angolana adoptou o Acordo Ortográfico até agora e explicou que apesar de o país não ter adoptado o acordo, tal não pressupõe que esteja à margem dos ditames normativos ou da Lei. “Não adoptámos o acordo ortográfico de 1990, mas continuamos a utilizar o de 1945, que é também uma Lei, ainda em vigor”, sublinhou Paula Henrique. Na reunião de ontem, a segunda, os membros fizeram o balanço das actividades realizadas e analisaram o relatório dos trabalhos técnicos e fizeram o diagnóstico da aplicação do acordo ortográfico nas escolas.

A reunião avaliou o Relatório das Actividades 2006-2017 e prestou informação sobre os documentos produzidos pelas instituições, protótipo das bases de dados, antroponímia, toponímia e vocabulário ortográfico nacional.

Fonte: Acordo Ortográfico em discussão | Política | Jornal de Angola – Online

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Armando Baptista-Bastos (1934 – 2017)

“Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

Baptista-Bastos, 83 anos, morreu esta terça-feira. Rui Cardoso, editor de internacional do Expresso,escreve-lhe uma carta de despedida, eles que se conheceram no espaço mais íntimo do jornalismo: a redacção

Quando comecei a colaborar no “Diário Popular”, em finais de 1977, já não fui a tempo de conhecer todos os grandes repórteres que tinham feito a grandeza do jornal. Dois destes eram famosos e iguais em valor profissional, ainda que opostos no plano das ideias: José de Freitas, já então falecido e simpatizante da esquerda, e Urbano Carrasco, que ainda conheci, incondicional do salazarismo.

Durante os anos quentes de 1974/75, o bom senso, inspirado por José Manuel Rodrigues da Silva, prevalecera e o jornal seguira o lema “trabalhadores não saneiam trabalhadores” e ninguém foi afastado por razões políticas, em nome de um bem maior que era continuar a fazer um bom jornal.

Nesta redacção, a única da imprensa portuguesa com um director eleito – Jacinto Baptista –, aprendi a profissão, vendo trabalhar grandes profissionais, infelizmente desaparecidos com o correr dos anos: Abel Pereira, meu primeiro chefe de redacção, que me dizia sempre “olha a pressa rapaz, a pressa passa mas as asneiras ficam”; Acácio Barradas, que o substituiu, eleito pelos seus camaradas de trabalho; Adelino Cardoso, Humberto de Vasconcelos, Ângelo Granja, que era tão alto que na brincadeira lhe chamávamos “o maior jornalista português”.

E havia o Baptista-Bastos, claro. Sempre impecavelmente vestido, dava-se por ele quando entrava na redacção, até porque raramente era o primeiro a fazê-lo. Com voz de trovão, elevando-se acima do matraquear das máquinas de escrever e de dúzias de conversas em voz alta ao telefone, lançava um tonitruante “bom dia camaradas” que às vezes, ao sabor das indisposições e dos ódios de estimação, evoluía para fórmulas das quais a única publicável era “bom dia a todos menos a um”.

Era um dos últimos representantes do velho jornalismo da boémia e do Bairro Alto (onde ficavam, entre outros, o “Popular”, “A Capital”, o “Diário de Lisboa”, a “Bola”, o “Record” e o “Século”), o que fazia com que pertencer a esta profissão significava estar paredes meias com a literatura, as artes, a ciência a política e a filosofia. E, acima de tudo, com a correcção da escrita e a virtuosidade no uso da palavra.

Bastos, com obra publicada, escrevia primorosamente e não tolerava tiques de escrita, modismos ou prosas escritas à pressa. Muito menos cacofonias, erros de sintaxe ou de ortografia. Ainda não se sonhava com acordo ortográfico e já ele berrava a plenos pulmões: “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”.

Seria impensável naquele tempo encontrar nas páginas do “Diário Popular” prosas cheias de “implementar”, “imperdível”, “emblemático”, “de acordo com” e demais barbaridades hoje tornadas corriqueiras, para não falar nos desmandos vindos de quem nem fala inglês nem português e nos mimoseia com “serviços de inteligência”, “oficiais do governo”, “adictos” ou “jovens mulheres”…

Eu e o João Garcia, que naquele tempo éramos os miúdos daquela redacção, habituámo-nos a ver partir muitos daqueles que nos ensinaram a ser o que somos. Foi agora a vez do Bastos. Até sempre, camarada!

 

Fonte: Expresso | “Isto não é escrever por sons, senão samarra escrevia-se com c cedilhado”: carta de despedida para Baptista-Bastos

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Angola em ‘Desacordo Ortográfico’

Não entendi lá muito bem algumas passagens deste texto (não terá sido revisto, talvez) mas isso pouco importa. O que interessa é que nele se demonstra mais uma vez que Angola rejeita o AO90 e que os angolanos mantêm-se firmes na defesa da sua Língua nacional.

 

Um ataque pessoal a Camões

Indira dos Santos | 1 de Maio, 2017

Não entendo esta ideia da obrigatoriedade linguística. Faz-nos regredir ao tempo, que não vivi, da política colonial do assimilacionismo em África e que de certa medida anulou o pluralismo das línguas nativas e dos discursos periféricos emergentes.

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A língua não devia aprisionar identidades. Eu não sou a língua que falo mas falo a língua que escrevo. O desacordo ideológico é bem-vindo ou pelo menos devia sê-lo quando o assunto é a cultura das línguas.

Devíamos debater, o debate é filosoficamente “obrigatório”, sensato, diverso, correto ou correcto o português vernáculo foi apartado pela própria língua portuguesa- acordo ortográfico, facto consumado em Portugal… fica a dúvida. Talvez devêssemos actualizar a oralidade no alfabeto angolês alfabeto de uma força discursiva que se Camões estivesse vivo reformularia Os Lusíadas, ou acrescentaria o xé, o cá, o ocó, acá… líricas, de “Os Lusíadas de Angola”. Foi a língua portuguesa que fez Camões poeta ou as viagens pelo mundo? Quem nos faz poetas, escritores, romancistas, mulheres e homens de letras? Os livros. As pessoas. A cultura dos lugares. As palavras do alfabeto, alfabeto de origem grega, (alphábetos mestiçado ou estrangeirado com o latim). Um dicionário. É necessário um dicionário.

O dicionário! O primeiro dicionário da “angolanidade” e as suas ramificações, é possível num só livro colocar os universos simbólicos e linguísticos de um país que se vê confrontado, excluído e absorvido pelos vários mundos culturais. Vamos abrir esta porta, este território que anda sobrevivido pelos códigos de rua, como no antigamente fora sonhado pelos intelectuais do musseque mas que precisa ser matéria nas escolas.

Com certeza que nascerão heterónimos e os jovens do meu bairro que jogam damas com tampas de cerveja serão os próximos poetas e dramaturgos. O modelo ortográfico para o ensino em Angola tem um peso de consciência intelectual enorme. Etnocentrismos postos de parte este modelo deve condensar todos os caminhos. Tem que ser o caminho.

O caminho da unidade angolar, da fonética, da oralidade, da escrita criativa, do multiculturalismo angolês. Um dicionário da metamorfose linguística: Ganguela, Kikongo, Chócue, Latim, Kimbundo, Inglês, Umbundo, Holandês, Português, brasileirês,…tanto. Imaginem como o mundo seria enfadonho se vivêssemos todos em acordo. Há  dois dias desapareceu-me o Desacordo Ortográfico, o livro. O título é sugestivo e confesso que foi um dos pressupostos para a compra. É deste livro que provêm as ideias para o alfabeto angolês e a dialectologia nacional.

O livro é uma (re)união de escritores de língua oficial portuguesa em desacordo com a noção conservadorista de um vocabulário único, mas mais que isso, é uma celebração viva da liberdade literária. Uma produção artística em diferença que rompe com a rigidez normativa do “lusismo” e apresenta soluções (ou contra-percepções) verbais a nível sintáctico e morfológico.

Luandino Vieira, Pepetela, Ondjaki fazem parte dos geniais que tiveram a audácia de escrever em “mau” português o Desacordo Ortográfico. O diálogo fora criado a partir da similaridade e da diversidade que nos remonta para um convívio linguístico onde a língua portuguesa é apenas um dos códigos das nacionalidades /internacionalidades dos escritores. Fica a saudade do livro e a vontade de comprar outro Desacordo Ortográfico. E no futuro quem sabe o “Lusíadas de Angola”.

[Transcrição de: Um ataque pessoal a Camões | Artigos | Opinião | Jornal de Angola – Online]

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